A sexta 13 da sungukati Iveth

Texto: José dos Remédios

Foto: Angélica Pereira

Numa palavra, Iveth é sungukati. Do ronga, o termo significa mulher idónea, líder, respeitada e com capacidade de aconselhar, prevenir e resolver situações complexas. Nesta sexta-feira 13, quando o público do Franco-Moçambicano teve a oportunidade de resumir o que a rapper representa, sungukati foi uma das expressões que se ouviu. E, talvez, animada pela loa, a autora de Entre(tanto) subiu ao palco com ginga, elegante, trajada de uma blusa preta que deixava escapar a tatuagem na região da omoplata, de uma saída feita de capulana e calçando uns saltos altos acentuados. Nos pulsos, umas pulseiras aparentemente banhadas a ouro (a combinarem com os brincos da mesma tonalidade), ao estilo Cleópatra.

Os ponteiros do relógio marcavam 21:40. À espera da rapper, ao fim de uma hora de concerto mal gerida com artistas convidados, no palco já se encontravam Ebenezer (guitarra), Noel Semo (teclados), Cremildo Chitará (bateria), Albano Gove (baixo) e as coristas Newaasse Muthemba e Ália Mondlane. 

Iveth começou a sua apresentação com “Entre(tanto)”, o tema que empresta o título ao álbum, com a participação de Ana Paula Covane. Mas foi com “Leave no one behind” que o prenúncio de uma grande performance se concretizou. Mesmo sem os coros de Hot Blaze, a rapper cantou pela humanidade, porque, conforme disse, “nenhuma vida merece o que está a acontecer no mundo. (…) Seja por que razão for”. Há-de ser por isso que Entre(tanto) também é “Or(acção)”, porque oração, igualmente, é estar em acção, intervir e participar na construção de Moçambique através da consciencialização que a música permite. 

Nas suas interpretações, a rapper não deixou de frisar que os actuais ventos da mudança são maus e preocupantes. Por isso mesmo, numa relação intertextual com Elton Rebello, cantou “Nhandayeho”, em jeito de Clamor Africano a favor dos povos, logo, contra o sentido opressor do poder que se eterniza na agonia dos mais vulneráveis. 

Sem filtros, “Nhandayeyo” é uma radiografia de um país com dificuldade de vencer um sistema administrativo, a vários níveis, ineficaz e responsável por dispersar o sentido comum de cidadania. No universo musical, o sujeito de enunciação critica o baixo salário mínimo, que, de tão insignificante, impede as pessoas de viverem com dignidade. Igualmente, o tema retrata as desigualdades sociais, o nepotismo, o favoritismo e os altos níveis de corrupção que afecta os moçambicanos. Na Sala Grande, ficou claro para todos: “Não é proibido gritar socorro. Se vos impedirem, recordem-se que Iveth é advogada”, gracejou a rapper logo a seguir a interpretação acutilante. Pelos aplausos, o público que não se deixou intimidar pela chuva que cai um pouco por todo o país parece ter gostado de ouvir. Inclusivamente, até se sentiu mais seguro para se permitir imergir nas coisas do coração à medida que ouviam “Quatro cordas”, tema dedicado a Gildo Espada, o esposo e companheiro de uma artista que, afinal, é de carne e osso: ama, cuida e retribui com delicadeza o que recebe como graça na sua relação. Disse Iveth:

O amor é lindo e não o devemos desromantizar

Entre o público, na sequência de uma grande performance de uma das coristas, um solteiro ousado, de repente, sentiu uma louca necessidade de amar: 

– Como se chama a moça?

A rapper e todos os que ouviram a pergunta soltaram gargalhadas. Contrariada ou não, Iveth tentou a apresentar. Mas a corista não permitiu. Com um sorriso maroto entre os lábios, possivelmente entusiasmada por se sentir apreciada, logo disse o seu nome: Ália Mondlane. 

Só faltou o contacto

Estas palavras não foram pronunciadas pelo sujeito apaixonado. Mas toda a gente percebeu que, mais uns segundos, o concerto transformar-se-ia numa espécie de “Vai dar namoro”. Não houve tempo para tanto. Logo a seguir, Paulina Chiziane foi anunciada e apresentou-se no palco para ler um excerto de O alegre canto da perdiz, dedicado à relação das mães com os filhos, desde os derradeiros momentos da gestação até à luz. Durante a sua performance, a escritora enalteceu as qualidades da rapper nos seguintes termos: 

– Qual é a mãe que não gostaria de ter uma filha poderosa, bonita e inteligente como Iveth?  Uma filha como ela é uma prenda divina! Longa vida, Iveth Mafundza.

A mãe de Iveth, Maria Machava Mafundza, não conteve o sorriso. Aquiesceu em silêncio e, mais tarde, admitiu:

– Senti-me orgulhosa por tudo o que vi e ouvi esta noite!

Expressa tal frase, Maria Machava Mafundza propôs-se uma analepse até à altura em que Iveth era adolescente. Ao rever o filme, garantiu que a filha sempre gostou de cantar. Com efeito, apesar do preconceito de que o RAP e os rappers, muitas vezes, são alvos, nunca a impediu de cantar, desde que Iveth cumprisse uma exigência: 

– Estudar… Se ela estudasse, por mim, podia cantar à vontade. E, graças a Deus, valeu a pena. Ela sempre conseguiu dividir o tempo para cantar e para estudar. 

Depois da performance de Paulina Chiziane, Iveth interpretou “Ser mãe”, uma composição que lhe foi proposta pela irmã mais velha, a Mana Mimi, numa altura em que a rapper estava retirada dos palcos para cuidar dos seus bebés. Partindo da sua experiência, numa colaboração com Mimae, homenageou a todas que operam a maravilha de cuidar da vida que trazem ao mundo.  

O tema do amor, por conseguinte, continuou com a interpretação de “Quatro estações”. A colaboração com Miguel Xabindza serviu para lembrar que o amor é mesmo assim, não segue um movimento rectilíneo uniforme. Tem quatro estações, com momento quentes, frios, mornos e indefinidos. Sem exclusão, todos os momentos são importantes, e, os mais inteligentes, sabem adaptar-se às exigências… Depois de ter sido proibido de dar a mão, pela esposa, a qualquer atrevida que ousasse qualquer ensaio suspeito, Gildo Espada acenou positivamente com a cabeça como se dissesse aos tantos jovens presentes: “Sigam o nosso exemplo e respeitem as quatro estações”. Quando pôde expressar o que lhe ia à alma, afirmou que Iveth lançou um segundo álbum que revela o seu nível de maturidade:

– Ela evoluiu para outro nível. Inclusivamente, com a coragem de dizer à juventude que deve continuar a fazer a luta e a expressar o que pensa, porque só assim podemos ter um país melhor. A Iveth é uma mulher polivalente e inteligente

Onde se encontrava, a rapper não ouviu as palavras do esposão. Mas deve ter ficado contente ao ler a citação nesta crónica. Seja como for, a verdade é que a noite de lançamento de Entre(tanto) também serviu para Iveth homenagear a todos aqueles que, honestamente, levam o pão à mesa todos os dias. São os provedores e “Prove(dor)” é o título do tema em sua homenagem. 

Como que a revelar a capacidade de se adaptar às novas tendências, Iveth interpretou “T(RAP)”, que mexeu muito com a malta nova, sobretudo as meninas na faixa dos 20 anos, e “MVMR”, com Gina Pepa. Esse instante foi um misto de beleza e perfeição. Muito provavelmente, as duas melhores rappers de Moçambique estavam ali… Juntas. Uma apoiando a outra na consolidação de um percurso musical num género que é tão masculinizado. Os amantes do Hip-Hop perceberam a mensagem dada e reagiram ao featuring com a ovação a corresponder a causa… E a beleza não ficou por aí. Iveth, Izlo H e Rage interpretaram “Homenagem”, música dedicada a Azagaia, um exemplo de coragem, vanguarda e consciência, que partiu para a longa viagem a 9 de Março de 2023. Lá vão três anos…

Sabemos do valor do Azagaia e do que vai na garganta da juventude. [Continuou Iveth] O Azagaia ensinou-nos que a Constituição é o instrumento a ter em conta a cada tia. Temos orgulho deste nosso mano que ousou dizer o que nenhum de nós teve a coragem de dizer

Enquanto o trio cantava, viu-se punhos no ar e ainda houve a sensação de a saudade estar a atravessar a pele dos que acompanharam o percurso musical do “eterno vencedor das causas perdidas”. Essa actuação só foi superada pela interpretação de “Em marcha”. Para quem não o conhecia, Zezé Christ fez uma actuação memorável, levando a Sala Grande ao êxtase inqualificável, com todos em pé (ou quase), com as mãos no ar e a participarem na celebração de um álbum constituído por 17 faixas e oito vídeos-clips, e que ficou pronto ao fim de uma década. 

Numa sexta-feira 13, que, devido ao mau tempo, quase se transformou num dia de azar, Iveth foi a sungukati que, através do RAP, apesar de remar contra a corrente, soube ser esperança e, claro, nkululeko!

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