A noite em que Cuca Roseta cumpriu uma promessa em Maputo

Texto: José dos Remédios
Fotos: Camões – Centro Cultural Português
Desde os 7 anos de idade que Leonor Vaz Dias acompanha o The Voice Kids Portugal. A viver a 10 mil quilómetros do estúdio onde o programa é produzido, a menina teve de se contentar com a emissão da RTP. Mas, como se sabe, os sonhos movem montes e moinhos, se necessário for. Por isso mesmo, em 2024, quando a pequena Leonor tinha 14 anos de idade, aconteceu… Acompanhada pela mãe e pela avó, o talento vocal moçambicano viajou de Maputo a Lisboa, propositadamente para participar no concurso musical.
Na sua primeira Prova Cega, uma espécie de casting (em directo) em que o júri ouve os candidatos sem os ver, tomando a decisão de os seleccionar apenas com base na performance vocal, Leonor Vaz Dias interpretou “Skinny Love”, de Birdy. Na ocasião, 37 segundos foram suficientes para que Cuca Roseta, membro do júri, reconhecesse que ali estava uma miúda com um timbre diferenciado, o que também foi reparado pelos outros três membros do júri, igualmente músicos. A actuação da menina foi tão convincente que todos os quatros júris queriam tê-la nas suas respectivas equipas. No entanto, Cuca Roseta foi mais convincente, ao dizer o seguinte:
– Eu todos os anos canto em Moçambique. E acho que seria inteligente da tua parte se nós ficássemos amigas. Podes vir sempre cantar nos meus concertos. Pensa bem!
De facto, a Leonor pensou bem e optou pela equipa de Cuca Roseta, fadista que, neste 5 de Maio de 2026, cumpriu a promessa feita há dois anos. Na cidade de Maputo, a portuguesa convidou a menina Leonor Vaz Dias para juntas interpretarem o tema “O teu fado é ser feliz”, e, assim, ambas foram dizer à tristeza que podia ser beleza.
Acompanhadas por Sandro Costa (guitarra portuguesa), Francisco Sales (viola de fado) e Francesco Valente (baixo), as duas cantoras estabeleceram a ponte que une Moçambique e Portugal numa noite em que os cidadãos de ambos os países celebraram o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Emocionante! No palco improvisado do Montebelo Indy Maputo Congress Hotel, o presente e o futuro encontraram-se e numa originalidade que entusiasmou os convidados com fervorosas salvas de palmas. Afinal, tal como Cuca Roseta, Leonor Vaz Diais cantou tudo o que sabe e o que sente, colorindo um dos momentos mais alegres do concerto da fadista portuguesa. Mas esse não foi o princípio do evento promovido pela Embaixada de Portugal em Moçambique.
40 minutos antes do dueto, Cuca Roseta subiu ao palco reluzente, a expandir, aos quatro cantos da sala, uma energia vibrante e contagiante. A primeira proposta apresentada pela autora de Tradição (2026), álbum fresquinho, composto por 13 faixas, foi “Rua do Capelão”, que, simultaneamente, funcionou como o prenúncio de uma experiência memorável. Na voz da fadista, o espaço simbólico realçado projectou-se na mente de cada convidado de forma particular. Uns imergindo na sonoridade com um ar casmurro e outros aproveitando cada acorde de um tema que bem pareceu um intróito.
Com efeito, o tom melancólico da música inicial do concerto foi vencido pelo segundo número musical apresentado, “Tiro Liro Liro”, tema folclórico há anos popularizado pela diva do fado, Amália Rodrigues. Aí a interpretação de Cuca Roseta foi mais alegre, graças à composição que combina sugestões dançantes e hilariantes. Só depois se ouviu o terceiro número do álbum Tradição, “Também te amo”, uma letra sobre a dor da indiferença, sobre o amor enquanto insanidade e sobre a quem se pretende pertencer.
E porque o fado também é uma elegia que se configura numa relação de amor fugidio, a artista portuguesa interpretou “Saudade que é saudade – Carriche”, que retrata o fado como espelho da alma e a porta do coração, daí Cuca Roseta ter cantado a pureza do ser com a originalidade que a caracteriza.
“O meu destino é o fado”, “Fado Malhoa”, “Fado jurado” e “Foi Deus”, uma composição que pode ser pensada sobre a perspectiva da criação e da vocação como graça que o Homem só tem de cultivar, sucederam-se… E não se ficou por aí. A fadista ainda apresentou “Vira”, proposta temática que bem descontraiu os convidados, levando-os a participar na amplificação da performance com palmas harmónicas, bem a lembrar o desempenho do público de Em Casa d’Amália, há uns meses.
De facto, “Vira” também foi um momento de viragem rítmica. Entre o fado clássico e contemporâneo, Cuca Roseta ainda conseguiu inventar uma fusão com as muthianas oreras (do macua, mulheres bonitas em português). Trajadas a rigor e com o mussiro (creme branco) na face, as cantoras e dançarinas do grupo Tufo da Mafalala levaram ao concerto os sons tradicionais do Norte de Moçambique, cantando em coro e sempre à procura da perfeição. Num cenário menos provável, Cuca Roseta, como que a reivindicar o título de muthiana orera para si, juntou-se às mulheres e todas provaram que o que é partilhado com amor multiplica o coração e que o que é dado com verdade nunca se perde no chão. Sempre retorna. Em jeito de abraço ou de afecto.

Lá mais para o fim do concerto, foi a vez de Stewart Sukuma apresentar-se aos convidados. Para a celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, o músico convidou a amiga fadista a acompanhar-lhe numa boleia africana. Na interpretação de “Xitchuketa Marrabenta”, reinventou-se um dos mais populares estilos musicais do país, a marrabenta, ao sotaque luso-moçambicano e com a guitarra portuguesa a encaixar-se perfeitamente. Quer dizer, se, por um lado, o 5 de Maio serviu para reaproximar cidadãos de países com laços históricos, por outro, contribuiu para reacender projectos musicais de velhos amigos.
Foi engraçado o dueto de Cuca Roseta e Stewart Sukuma em “Xitchuketa Marrabenta”. No entanto, a melhor versão dos dois artistas viu-se e ouviu-se quando interpretaram “Canção moura”, do álbum Boleia africana (2014), um tema que une Moçambique, Angola e Portugal. A composição que exalta a igualdade, a fraternidade e a liberdade é de José Eduardo Agualusa, escritor do Atlântico que, como Camões, não resiste à beleza do Índico sintetizada na Ilha de Moçambique.
Por tudo e por tanto, com “Canção moura”, Cuca Roseta e Stewart Sukuma selaram uma grande noite, num concerto que, não obstante ter durado 80 minutos, eventualmente, vai perdurar até que o tempo se apague na memória dos que naquela sala do Montebelo Indy, como diria o poeta, apenas pertenceram a uma pátria comum: a língua portuguesa.










