A electrizante apresentação de Niinee de Radjha Ally

Texto: José dos Remédios

Foto: Angélica Pereira 

Há artistas que, durante o seu percurso, não precisam de um álbum para se afirmarem no cenário musical. Artistas distintos, que nem sequer precisam de ter uma música gravada para actuarem no tão prestigiante palco do Centro Cultural Franco-Moçambicano. De Namutequeliua, bairro suburbano da Cidade de Nampula, onde cresceu, Raja Chabane Ali, ou simplesmente Radjha Ally, é um desses autores que, na maior sustentável leveza do ser, consegue (res)significar os vibrantes sons do Norte de Moçambique, atribuindo-os, entre a ginga do tufo e a vocação do nyambaro, uma sonoridade particular. À altura dos clássicos de Eyuphuro e Aly Faque, mas numa linguagem mais actualizada.

Leal às suas raízes etnolinguísticas e culturais em geral, na sexta-feira à noite, Radjha Ally contrariou a máxima popular e voltou ao lugar onde foi feliz. No Franco, o músico partilhou com o público (que lotou a Sala Grande) a satisfação de, finalmente, apresentar em concerto o seu tão anunciado álbum Niinee, do macua, “venha dançar” em português.

Acompanhando por Sílvio Ferrão (guitarra), Yocthan Glory (baixo), Nando Morte, Amad Cossa, Filipe Alfândega (percussão), Stélio Zoe (bateria), Reginaldo Nhacudime, Pedro Piloto (saxofones) e Vekina e Helena (coristas), Radjha Ally comprovou, numa espécie de performance de uma vida, que é um dos intérpretes mais interessantes de se ouvir em Moçambique. No caso de sexta-feira à noite, o músico tornou as coisas sempre fáceis, harmonizando um conceito de espectáculo bem sugerido e a versatilidade performativa revigorante. Afinal, quer na apresentação de propostas temáticas melancólicas (como “Muluku”, “Help Us” ou “Kovelavela”, em que o artista finge contorcer-se dores de forma contagiante), quer na celebração de ritmos mais electrizantes (como ), Radja Ally, como diria a certa altura do espectáculo, deu sentido à asserção de que a música [para ele], é a partilha de uma alma para outra alma. Por isso mesmo, sublinharia, Não existe melhor coisa do que trabalhar e viver daquilo que se ama.

Coerente e paradoxalmente, Radjha Ally é feliz ao interpretar a desventura de quem é atravessado por uma agonia profunda e inefável. Com honestidade, numa noite que se tornou agradável na dor cantada, foi o que músico fez ao interpretar “Mwannaka” ou “Maama”, tema que, no álbum, conta com a participação da cantora maliana Mamani Keïta, mas que, na Sala Grande, teve na corista Helena um oportuno dueto. Tanto numa, como noutra música, o autor de Niinee revela-se e revelou-se comprometido com toda a forma de amor. De forma particular, no caso de “Maama”, o tema foi composto para enaltecer o afecto e os cuidados dos pais para com os filhos, sobretudo, com muitos sacrifícios. 

Conforme se pode depreender, o álbum de estreia de Radjha Ally é um cruzamento estético e ético, no qual a noção de verosimilhança se mescla com a excelente leitura da sociedade moçambicana que o artista não consegue e nem sequer sabe ignorar. Logo, a condição da mulher e do homem contemporâneo é recriada com uma originalidade que, para quem não entende macua, fica com vontade de aprender a língua local com mais falantes em Moçambique.

A qualidade vocal e interpretativa de Radjha, por um lado, estimulou, ao longo de duas horas de concerto, a vontade de se aprender a palavra como factor decisivo para se compreender o que a mesma palavra sugere ao nível semântico e metafórico. Por outro, o que o artista quis e fez das suas cordas vocais, dos gestos, das feições e dos “gritos de silêncio” que atravessam a tantos moçambicanos espalhados pelo país fez com que se dispensasse o poder do verbo no caso dos que não tiveram tempo para aprender a língua durante a permaneça na Sala Grande. Afinal, na vida, há prazeres que se revelam sem que as palavras tenham de ser pronunciadas. Há-de ser esse o factor decisivo para que o público em geral se tenha entrosado tanto com o músico que se doou com preparo e sinceridade. Nada fácil (embora tenha sempre parecido), principalmente quando se trata de um artista que consegue, igualmente, improvisar intensos passos de dança sem que isso lhe retire o critério e a afinação. 

Mesmo a propósito de dança, uma das atracções decisivas para a beleza do concerto de lançamento do álbum Niinee foram precisamente as coreografias apresentadas. Os 12 bailarinos que subiram ao palco, sempre respeitando as danças tradicionais moçambicanas, coloriram o palco, imprimiram mais movimento e dinâmica aos sons da província onde se definiu a noção de Moçambique e permitiram, quando se revelou necessário, o cantor suspirar… Também por causa dos bailarinos, o concerto de apresentação de Niinee parece ter sido ainda melhor do que apenas ouvir o álbum também disponível em vinil para o público moçambicano (que é muito bom) debaixo do chuveiro ou a 60 km/h numa das várias estradas esburacadas do país. E o autor sabia que tinha ali consigo coreógrafos e bailarinos de requinte, entre eles Osvaldo Passirivo, Vítor Matola, Sheila, Zita e Onésia. Por conseguinte, abusando dos movimentos possíveis e inventados pela sua cintura, ele próprio, Radjha Ally, cidadão especializado na Força Aérea pelas Forças Armadas de Moçambique, formado em Música e Teologia, chief, que um dia ousou ser estilista, mas que encontrou na música um modo de vida, foi um bailarino-guardião da tradição. Foi o que se viu em todo o concerto, em geral, e durante a interpretação do tema “Pwiya”, uma espécie de rapsódia dividida em duas partes complementares e igualmente muito divertidas. Verdadeiramente, foi justamente isso o que aconteceu na Sala Grande: as pessoas divertiram-se profundamente com Radjha Ally, dando azo a idas constantes de espectadores ao palco. Mais espectadoras do que espectadores, pois parece que nelas a vergonha de se expressarem é algo desconhecido quando a música atravessa o corpo e, lá está, a alma também.  

Na apresentação do álbum cuja primeira música foi gravada em 2020, na altura, com a participação de Onésia Muholove nos coros, cantora que se sentou na terceira fila durante o espectáculo, uma vez mais, Radjha Ally confessou ter nascido para música. Os axineni arivava e não deixam mentir: Moçambique começa a ficar um território ínfimo para o músico. 

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