LITERATURA MOÇAMBICANA… PARA INGLÊS LER – Acto 2º: Escrever mal e parcamente, em “DESESPERANTO”

Por: Jacinto Pena

“As minhas palavras irão ou aliciar uma mente forte, ou ofender uma mente fraca” – Anne Sexton

A nossa literatura não pode ser vista unicamente como peça de folclore, presa a estereótipos que insistem em vesti-la de peles de animais selvagens, com personagens munidos de setas venenosas e azagaias.” – Daniel da Costa, in: lançamento do Livro “Os Peregrinos da Palavra”, de Marcelo Panguana (vide Facebook, 10.05.18)

UMA TRAGÉDIA EM DOIS ACTOS

Acto 1º: Folclore e artesanato – Síntese

Um livro de literatura oriundo de África, para se afirmar no mercado estrangeiro, tem de apresentar uma sociedade Africana estereotipada e estigmatizada, de gente malvada e ignara. Assim granjeia imediatamente elogios e prémios.

Fica, assim, esclarecido que não estamos perante literatura de ficção coisa nenhuma, como está patente nestes elogios, que atribuem relevância, afinal, não à qualidade literária destes textos, ou seja, ao enredo criado, aos artifícios e artimanhas literárias utilizados, à estética do texto, à arte da escrita, à riqueza vocabular, enfim, a nada daquilo que faz um livro de ficção, mas tão somente a essa denúncia dessa “realidade aviltante”, em que vivem os pobres selvagens Moçambicanos…

 Acto 2º: Escrever mal e parcamente, em DESESPERANTO

“A literatura actual foi reduzida a entretenimento,  boas intenções e mediocridade” – César Aira

Coprofagia Aculturada

Como na percepção ocidental África é sinónimo de exotismo, indolência, laxismo, incapacidade e incompetência, a que propósito é que haveriam os africanos de escrever correctamente? Devem escrever mal, também. Até porque se o fizerem bem ainda pode alterar-se o status quo: Vá que eles ainda aprendem a ler, põem-se a pensar, e descobrem que não precisam de ajuda de ninguém, e, vai daí, correm connosco?! Nem pensar, há que premiar o mau escrever para haver a certeza de que pensam e agem mal. Porque a palavra tem poder! “Sobre a Vida e sobre a morte” (Provérbios 18:20-21; Tiago 3:3-8)

Eis, pois, que agora se estimula o desrespeito pelas (mais elementares) regras gramaticais. Uns começam os parágrafos com letras minúsculas, outros ignoram os sinais de pontuação todos de uma vez, e a maioria, por insuficiência de vocabulário, dedica-se a inventar palavras e a embutir palavras doutras línguas nas frases. Deixou de haver uma autoridade que reconhece e valida o vocabulário. Actualmente cada um escreve o que lhe dá na veneta. Quanto pior, melhor. 

Nesta mesma senda, e à falta de recursos estilísticos literários, essa “literatura”, tornada pobre à força de ser estimulada e promovida com prémios ocos (autênticos burros de Tróia), com a falta de rigor e de nível, para manter o exotismo que se deseja dela, entrou agora no modo rappista, ou seja, passou a ser entremeada com palavras de algumas línguas locais e do jargão de rua, numa espécie de novos crioulos (com a diferença de que estes de agora não têm quaisquer regras – são feitos à medida das incapacidades dos seus progenitores e mentores). E tanto basta para ser apodada de literatura Moçambicana (Africana), apesar de abordar temáticas à medida dos interesses, da cosmovisão, dos assuntos e do pensamento ocidentais.

E, assim, perdem-se de uma assentada todas as suas funções essenciais, e também o interesse, que a literatura tem, que é, antes do mais, a função educativa a vários níveis: a estética, os valores éticos, o sentido do rigor, a qualidade da língua e da linguagem (que é essencial para o rigor do pensamento, que assenta precisamente na linguagem). Há, portanto, um claro objectivo nesta “sabotagem” que é promovida, que consiste em minar a qualidade do raciocínio e do pensamento do leitor. Com muitos dos livros actualmente publicados, não se aprende nada, nem mesmo a ler, e lê-los não dá o mais elementar prazer! Chega mesmo a ser doloroso fazê-lo. E só se desaprende. Com livros assim, entende-se bem que haja falta de interesse pela Leitura! E ainda bem que assim é!

Vejamos alguns exemplos: 

“De repente, Ulume descobriu que todo o kimbo estava ao corrente das suas dificuldades. (…) Ulume procurou logo o culpado e encontrou, só podia ser o pai de Minakazi, o homem era um destemperado além de egoísta e não tinha resistido a se queixar no njango, vejam lá o meu azar (…). Daí partiu o mujimbo (…). A dizer a verdade, pode ter partido da mãe, zongonlando com as amigas, então já viram aquele homem com filhos grandes a querer o ufeko que guardo lá em casa? Ou até, quem sabe, a própria Minakazi (…) esquecendo que a irmã ou amiga não resistiria ao saboroso passatempo de lanar ao vento o mujimbo. Seja como for (…) o mujimbo chega onde desconseguem as pessoas. Entendia agora os risinhos (…) dos homens quando chegava ao njango.”

in: “Parábula do Cágado Velho”, Pepetela, D. Quixote, Alfragide, 2015 (9ª edição), Pg. 63.

Em que raio de língua é que esta coisa está escrita, alguém é capaz de me dizer? Em apenas 220 palavras, há 9 que não são em Português e uma que o distorce. E por quê, por se tratar de nomes próprios, não traduzíveis, ou por não haver palavra em Português que as digam? Não. Cada uma daquelas palavras tem uma correspondente em Português. E, logo, é má escrita intencional. Com que propósito? Eis a questão. Se é para escrever em Kimbundu, que escreva em Kimbundu. Se não sabe fazê-lo, que não conspurque ambas as línguas. Nota: Pepetela é um dos autores que eu mais aprecio.

Outro exemplo:

No livro “A Árvore Mágica” (lá está, para ser “Africana”, a história tem de meter magia e misticismo… afinal, os Africanos, como se sabe, ainda não evoluíram muito em matéria de ciência…), veja-se o chorrilho de palavras erradas, inexistentes e distorcidas que ali aparecem (ou seja, a “Receita para o Sucesso”):

Usar meia dúzia de palavras numa qualquer língua tribal:

Pg. 8: “Vangenile mbiliwini” – murmuravam os habitantes…”

Pg. 19 “Va la hansi – estão silenciosos – anunciou o nhamussoro.

Enfiar magia e espiritismo na história:

Pg. 8 “(…) no coração do embondeiro, e que este era mágico.”

Pg. 16 ”(…) ou que os espíritos dos antepassados estavam descontentes (…)

Pg. 20 “(…) invocavam-se os espíritos dos antepassados (…)”. Os espíritos dos antepassados resolveram interceder, e o céu (…)”

Falar mal e parcamente:

Pg. 3 “O sol depressou-se (…). Pg. 4 “(…) andavam a machambar”. Pg. 12 “O embondeiro poemava estas histórias (…) das suas flores continuavam bem abertas, desconseguidas de dormir”. Pg. 15 “As noites que luavam e os dias que solavam”. Pg. 16 “(…) com que os homens e bichos se abarrigavam”. Pg. 20 “O coração do embondeiro sozinhou-se.” “(…) e ia desverdeando de olhos abertos”. “O chão aguou-se (…)”. Contudo, nem assim as flores (…) e o tronco do embondeiro se desmurcharam”. Pg. 22 “(…) a árvore murchava-se com saudades de dormenhecer (…)”. “Alguns até desvoltaram (…)”. 

Será esta enxurrada de palavrões um livro desescrito, inscrito, ascrito ou franca e simplesmente mal escrito? Alguém, no seu juízo perfeito, se atreve a dar esta desgraça a ler a alguma criança sem ser com a manifesta intenção de lhe fazer algum mal, de a impedir a todo o custo de aprender a ler? Quando eu tiver filhos proibir-lhes-ei expressamente de ler uma coisa como esta.

Mas, se era de esperar que tais deturpações fossem denunciadas e repelidas, o que vemos é o contrário. Leio numa publicação no site da Escola Portuguesa de Moçambique de 26.10.19, proclama:  

  • “O livro “A árvore Mágica” é um conto estruturado numa linguagem híbrida entre o português e uma das línguas bantu de Moçambique − o changana”. 

Na apresentação do livro em Moçambique, publicado em 26 Outubro de 2019, ao invés de fazer uma tal denúncia, o apresentador do livro teceu rasgados elogios a essas práticas irregulares e perniciosas:  

  • Destacou “a moçambicanidade” expressa no livro e acrescentou ainda que…
  • “É, igualmente, fruto de experiências e descobertas da cultura e tradições moçambicanas e, constitui “uma homenagem à cultura, tradição e folclore de Moçambique” (http://literatasmz.org/post-detail/5165) . Pois…

Ou seja, uma qualquer história, que se pode passar em qualquer canto do planeta Terra, se lhe forem metidas meia dúzia de palavras em Changana, assim como uns pozinhos mágicos, zás, já está, vira instantaneamente uma história Moçambicana (é tipo sopa de pacote)! Realmente, pensando bem, um texto destes ser publicado até parece mesmo magia, a tal que parece que só existe em África, e é sua prova identitária! Só em Moçambique, mesmo! E só mesmo por feitiço.

Somos, assim, sujeitados à incapacidade elevada ao estatuto de estilo. Estilo é usar as regras de forma criativa, com imaginação, com estética. Não é ignorá-las e violentá-las. Isso não é estilo, é incapacidade!

De facto, cada um só pode reconhecer aquilo que conhece. Este é, provavelmente, o problema: o que é que conhecem de literatura aqueles que nos tempos que correm se guindaram aos papéis de “escritor”, de apresentadores, de comentadores e de moderadores de debates sobre livros? Quantos livros leram eles? Podem eles reconhecer as regras, para poderem denunciar a sua ausência, inobservância e violação? Se as conhecessem, conseguiriam eles manter-se calados, sem desatarem aos gritos, apesar das dores excruciantes que tais catanadas fazem sentir a quem as reconhece? Estou certo de que não. Eles são surdos, cegos e mudos para isso. Até parecem aquele conjunto de estatuetas: “Não vejo, não oiço, não falo”. Tal e qual! Só falta a “Não sei escrever”! 

Desta maneira se transforma aquilo que originalmente era a fonte fundamental de educação estética, de aprendizagem da língua e de transmissão cultural, num objecto de promoção e propagação do erro e da mediocridade – e, com isso, se cultiva o pensamento embotado, desrespeitoso e abusivo. 

A tentação é tão grande que até mesmo quem antes condenava tais práticas acaba a praticá-las também. Em entrevista concedida ao jornal “O País”, de 1 de Agosto de 2017, o autor de “Não há pessoas invisíveis” (Alcance Editores, Maputo, 2016) diz: 

“(…) é um grande equívoco pensar que o erro é uma derivação nacionalista do moçambicanismo que não está lá”. E, acrescenta: “(…) peca-se quando se transforma a oralidade para a escrita”. Inspirador, mas… na melhor folha de papel cai o borrão. Na obra supra referida o mesmo autor, afinal, escreve:

“-Não gozes, ainda estou xonado, mas tudo nice” (Pg.56).

E, depois, descamba por aí fora: “bicharem” e “desconseguir” (Pg. 15); “dengoseira” e “sprintinho” (Pg. 19); “brincadeirices” e “tchaia” (Pg. 21 – onde tem, ainda, esta pérola, de presente: “A noite já inteira, iam chegar atrasados cada um”; “xipefo” (Pg 22, 31, 32); “sprint” (Pg.36); “nice” (Pg. 41); “style”, “escandarinha” e “espantação” (Pg. 45); “dos dentros” (Pg. 51).

Estaremos aqui perante um caso de dupla personalidade, ou será a mesma personalidade que foi vencida pelos ditames… do folclore actual? 

Em suma, agora, ser escritor é garatujar qualquer coisa, de qualquer maneira. Já não é preciso saber escrever, como defende um autor renomado em texto de lançamento da obra “Quando os dias correm mal aos astros” (Alcance, 2022), n’ O País de 5.8.22:

“(…) que a literatura também se pode erguer sem se estar amarrado aos paradigmas que orientam a arte de escrever. (…) posicionando-se como um escritor que nunca levou a escrita demasiadamente a sério”. 

Não há a menor dúvida de que é esse o estágio actual da literatura em Moçambique: não cumpre os mais elementares “paradigmas que orientam a arte de escrever” e, por isso, não é de maneira nenhuma para ser levada a sério! Estamos plenamente de acordo nisso. Fica, assim, explicado, porque é que há tanta falta de leitores actualmente! Felizmente, insisto!!

Mas esta ideia não é só deste autor. Ela é partilhada por um movimento (ou, melhor dizendo, faz parte de uma investida) de desqualificação: a prefaciadora da obra “O Infinito Obscuro”, de Domingos Qualquer, disse que a obra dá “(…) ênfase a nova forma de fazer poesia e lutando contra as amarras do classicismo” (Ngani, 10.7.23 Pg. 13).

  Tão ao contrário da opinião do editor Komatsu (personagem) de Haruki Murakami, in: “1Q84” 1, Casa das Letras, Alfragide, 2021): “(…) a jovem não tem futuro. (…) E a razão para isso é muito simples: a autora não quer saber do estilo para nada, não tem a mínima intenção de escrever bem nem de melhorar a sua técnica. Para obter um bom estilo, das duas uma: o escritor nasce com o dom da literatura ou trabalha que nem um louco para ser bom no seu mister”. Pergunto-me: será por isso que o que não falta a Murakami são leitores aos milhões, espalhados pelo mundo inteiro, em muitas línguas, enquanto nós outros passamos a vida a carpir pela falta deles e a culpar os leitores por as vendas não chegarem aos 100 exemplares?

 

Não se deixem enganar pelo argumento falacioso dos promotores da mediocridade de que é da quantidade que sairá a qualidade. Só a qualidade produz qualidade, na tentativa de se superar continuamente. A qualidade tem por foco o que está por cima. Já a quantidade, essa afere-se por baixo. E aqueles que não se reconhecem capazes de se elevarem procuram manter os outros o mais rasteiros possível, única maneira de se poderem ver acima de alguém.

Por causa de livros como estes deixei de me preocupar com o facto de muitas pessoas, hoje, não lerem! Ao contrário: ainda bem que não lêem. Dessa maneira essas pessoas ficam a salvo desta desaprendizagem, que está a ser orquestrada contra elas.

eu think que tá-se maNingue nice Assim bros com taco daki para cHupAr umas beers tugueda ali, nÃo importa se elas s~ao txoti ou se sãO full flow... I like, à brAva esta afrIcaniCIDade de uma LIfe de txilar bué yaeh. este é o meu way e se tU não ligas nenHUmA aos mabukos meu, tens ManingueE luck porque não VAIs ficar pancado mONTa mas é a tua bike e vai dar um jiko isso é que é life, mAn, especialmente agora que ter SIDA é uma WELLA! Tcheka lá, e vais ver! eu tou maningue on, meu! “Juro, palavra d’honra, sinceramente, nós vamos morrer assim!” (adaptação de Salvador Maurício, com a devida vénia). 

Este festival de alarvidades está em exibição em tudo o que é matéria de publicidade, pelas ruas afora e pelas Televisões adentro. Vai desde um Banco que proclama a sua Africanicidade (que é ser algo que não existe – logo, é propaganda enganosa) até uma cerveja que se apresenta como um way para o desastre, outra que se proclama um desastre para toda a life – especialmente, agora quee ter SIDA se tornou coisa wella – o que explica a sua contínua propagação acelerada. Tudo isto perante o silêncio cúmplice, o ignaro, do MINED.

É claro que existem honrosas excepções a esta generalidade, como a todas as demais. As quais, como já diz o ditado, vêm apenas confirmar a regra. A esses, o meu apelo é: perseverem! Não se deixem contaminar. Por difícil que possa ser, não cedam ao encantamento da fama efémera, e não se ponham a competir com os modelos deste desfile de aberrações, que de vós rezará a história. Enquanto que aqueles do folclore e do artesanato estão votados a ser devolvidos ao caixote do lixo da história da literatura, e ali serem esquecidos por toda a eternidade… tornando-nos a nós outros felizes para sempre. E assim acabará esta triste história. Mas armem-se, porque em breve vocês poderão ser banidos… por uso abusivo na vossa escrita dos “paradigmas que orientam a arte de escrever”. Tenham cuidado. Eles já são a maioria… O perigo está eminente. E vai ser bem pior do que em “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury… escrever bem vai ser crime.

Nota: os comentários que teci neste texto não são sobre pessoas, não são sobre os autores, mas tão somente sobre algumas obras concretas e sobre algumas opiniões específicas expressas. Sobre as pessoas desses autores não tenho qualquer opinião e posso até, porventura, gostar de outras obras deles ou concordar com outras opiniões dos mesmos.

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