Entretenimento ou degradação cultural? O debate sobre a realidade do entretenimento moçambicano
Por: Custódio Come – Coach e Marketeer moçambicano

Escrevo este artigo na qualidade de moçambicano, patriota e defensor da nossa rica cultura, é com um misto de preocupação e desilusão que observo a banalização do entretenimento em Moçambique, um fenómeno impulsionado pelo avanço das tecnologias de informação, particularmente das plataformas digitais.
O que podemos entender do entretenimento? “O entretenimento é uma maneira de proporcionar divertimento e recreação aos indivíduos enquanto eles não estão ocupados com suas tarefas do dia a dia. Diversas ações podem ser feitas para entreter as pessoas durante seu tempo livre. Até mesmo a prática de um desporto pode ser enquadrada como entretenimento, assim como o consumo de produtos culturais, por exemplo, um filme em um cinema, um livro em casa, uma partida de futebol na televisão ou um jogo de computador.”
A televisão moçambicana, embora jovem, parece envelhecer prematuramente devido à evolução acelerada que muitas vezes falhamos em acompanhar os seus desafios. Os princípios e valores que deveriam guiar a TV, como a promoção da cultura e a transmissão de valores de geração em geração, estão, lamentavelmente, desaparecendo.
O que remete-me ao pensamento do professor Renato Márcio Martins de Campos, no artigo Indústria Cultural e Cultura da Media: Produção e Distribuição do Entretenimento na Sociedade Global, na teoria crítica, onde destaca que “os bens culturais da humanidade são apropriados pelo capitalismo onde passam a operar como mais uma ferramenta de dominação social e desvalorização ou esvaziamento do conceito de arte”.
Focando especificamente na banalização do entretenimento, percebe-se que o conceito de entretenimento, originalmente associado ao divertimento e animação, está sendo distorcido na actualidade. Os programas de entretenimento deveriam ser veículos para a promoção da cultura por meio de várias manifestações artísticas, como música, arte, poesia e pintura. No entanto, o que testemunhamos hoje é a promoção da mediocridade e da depravação social, onde o controverso / polémico atrai mais atenção que o socialmente correcto .
As emissoras de TV tornaram-se promotoras da nudez, desavenças e práticas socialmente inaceitáveis, justificadas como sendo próprias dos “novos tempos”. A questão que se coloca é se isso ainda pode ser considerado entretenimento legítimo.
Em uma sociedade conhecida por sua criatividade e sonhos, a programação televisiva reflete uma triste imagem, envergonhando nosso belo país. Os órgãos e programas que deveriam educar, informar e oferecer conteúdos verídicos são os mesmos que desperdiçam tempo de antena promovendo assuntos triviais e superficiais em busca da tão chamada “exclusividade barata”.
Embora reconheçamos que esses programas têm uma grande audiência, é fundamental entender que a sociedade que desejamos é aquela que estamos construindo. Fica a pergunta: esses programas estão contribuindo para a construção ou desconstrução da sociedade moçambicana?
É lamentável perceber que a nova geração de apresentadores associa fofocas e polémicas ao conceito de entretenimento. Mais triste ainda é constatar que essa geração desconhece até algumas figura que verdadeiramente representa a nossa cultura a titulo de exemplos temos: Mingas, Tansele, Grand Ma, Assa Matusse, Cheny Wa Gune, Xixel Langa, Miguel Xabindza, Malagantana, Sebastião Coane, Gworowane, Banda Kakana, Projecto Xiquitsi, Rosália Silvestre, Roberto Isaías, Kappa Dech, Zaida Chongo, Alexandre Langa, Ali Faque, Deltino Guerreiro, António Marcos, Wazimbo, Mia Couto, Ungulani Baka Kossa, Paulina Chiziane, Bernardo Honwana, Severino Nguenha, entre outros que nosso belo e rico país ostenta.
A situação é caótica e preocupante quando discutimos entretenimento sem que as TVs e seus programas sigam uma direcção coerente. Estamos à mercê da sorte, e a cada dia mais pessoas conscientes estão desligando a TV em busca de novos horizontes e de conteúdos que agregam valores.
O papel da TV precisa ser urgentemente reposicionado antes que seja tarde demais. Os diretores de programas não estão obrigados a seguir uma fórmula única centrada apenas em músicas e fofocas às 16 horas; o entretenimento abrange uma vasta gama de manifestações.
Que este apelo sirva como um chamado para um Moçambique renovado e revitalizado.







