A representação da violência contra a mulher em Mutiladas de Eduardo Quive: um grito de socorro

Por: Joice Acelda Marrime (Estudante de Literatura Moçambicana) 

A violência contra a mulher tem sido, desde a antiguidade, uma ferida que se nega a sarar na sociedade. Segundo LAISSE (2024) são reportados nos telejornais casos de mulheres violentadas frequentemente. 

Quando falamos de violência contra a mulher, não nos referimos somente a violência física, mas verbal, psicológica, etc. que não tem dado sossego à mulher na sociedade, muitas das vezes protagonizada pelos homens e pela tradição ou mesmo pela própria sociedade onde a mulher encontra-se inserida. 

A literatura, cumprindo com compromisso que tem o autor com a sua sociedade, representa aspectos da realidade como forma de denúncia e desencorajamento de práticas de tais actos de violência contra a figura simbólica e valoriza da mulher. 

Para PALMA (2008: 10) falar-se do fenómeno da violência é o mesmo que pensar a história da humanidade. Os indivíduos sempre se viram às voltas com conflitos, desde as tribos nómades até a contemporaneidade, sejam por territórios, tentativas de escravização dos inimigos ou pela simples dominação.

São vários os tipos de violência que têm preocupado o mundo, como mencionou o autor acima, todavia, a violência contra a mulher, muitas vezes, tem gerado debates nos meios de comunicações e em Organizações Não Governamentais. 

Para CAMACHO (2001: 24), o homem, devido à sua condição antropológica, é obrigado a ser homem, ou seja, a própria ideia de ser homem ou mulher não é inata, não é natural, mas antes passa por diversas construções sociais e históricas, do que é aceitável, necessário e reprovável. 

Já que os indivíduos nascem imaturos, eles só conseguem se humanizar se forem capazes de se apropriar e reproduzir o que foi criado pela humanidade no curso da sua história. Dessa forma, a sociedade é responsável pela canalização e contenção dos instintos, pela humanização do animal.

Com o que nos é apresentado pelo autor acima, abre-se espaço para se discutir a realidade vivida por muitas mulheres, a de sofrerem violência, ou melhor todo o tipo de violência, acção essa desencadeada pelo homem.

A maior parte dos homens nascem numa sociedade que ensina que o homem é sempre mais forte que a mulher, e que tem que dominá-la em todos os lugares. Em outras culturas, a violência contra a mulher tende a ser ou é concebida como símbolo de masculinidade. Segundo BANDURA, (2008: 87), aqueles que crescem mantendo contactos com indivíduos violentos tendem a imitar suas atitudes. Esta vertente concede papel principal ao meio social e às relações sociais através das quais os indivíduos constroem suas identidades.

No entendimento de DADOUN (1998: 42) existe na Sociologia a Teoria da Aprendizagem Social, por isso, segundo BANDURA, (2008: 87) o homem é um animal social, influenciado pelo meio e pelo grupo social a que pertence, suas crenças, tradições, representações e experiências pessoais podem exercer influência em seu comportamento e nas relações sociais que mantém. 

A violência contra a mulher pode ser considerada como um acto símbolo, humana e culturalmente, segundo BOURDIEU (1992: 27) o poder da violência simbólica se manifesta sob a forma de um direito de imposição legítima, reforça o arbitrário que a estabelece e que ela dissimula.

Para o autor supracitado, este reconhecimento da legitimidade de uma dominação constitui uma força, variada e diversa, que reforça a relação de força estabelecida, pois é entendida a dominação como legítima, os grupos ou classes dominadas tendem a ser impedidos de compreender a força e poder que teriam caso tomassem consciência de sua própria força. Esta legitimidade se dá pelo desconhecimento da verdade objectiva presente nas práticas da violência simbólica.

Na passagem que se segue:

Veja como andamos aos solavancos no maldito camião. – My love – completou Alice. Todos juntos. Abraçados […] o povo entregue a sua sorte […] as mulheres aos gritos. Os homens aos insultos. As crianças choram […] (In: Mutiladas, p.18)

Vê-se representada uma sociedade desgastada, onde suportar ao outro torna-se um desafio diário. GARCIA (2018: 18) alerta que o fenómeno da violência é considerado um problema complexo capaz de afectar a saúde individual e colectiva. Em contrapartida, GALTUNG (1990) citado por GARCIA (2018: 18) alerta que os diferentes tipos de violência são consequência das relações interpessoais, marcadas pela distribuição desigual de renda decorrente de situações de desemprego e baixa escolaridade, e pela dominação de classes. Portanto, é daí que surge a violência; da difícil convivência entre os seres humanos provocada por fenómenos sociais de diversos géneros. 

A violência fatal contra Mariángela em “Três balas” 

O texto “Três balas” apresenta-nos um evento de violência contra a mulher que terminou em uma fatalidade. Segundo ASSIS et al. (2010) citado por MEDTLER & CÚNICO (2022, p.) a violência contra a mulher mostra-se como um fenómeno persistente na actualidade. Muitas das vezes as mulher que sofrem violência, têm suas vidas ceifadas. Como é o caso da personagem Mariángela:

Três vezes ouviu-se o barulho que irrompeu sobre o silêncio da noite, para invadir as casas recém-construídas e habitadas no bairro que levava o nome um papa São Damásio. Três vezes sacudiu o coração dos residentes o estrondo que, apesar de recorrente, o corpo não habitua. Era ruído de uma arma que alterou o curso normal das vidas da família Mariángela, agora morta e não mais mãe de Yolanda, de 14 anos de idade, Benjamim, de 4 anos, nem mais esposa, pela segunda vês, de Alfeu.” (Op. Cit., p.25)

A passagem acima começa por nos elucidar que a morte de uma mulher não representa apenas o desaparecimento físico de um ser humana, mas de uma mãe, esposa, etc. 

A ideia de que a mulher tem que ficar em casa e o homem ser o provedor rompe-se na sociedade actual, as mulheres buscam por independência financeira, por igualdade de oportunidades, a personagem Mariángela foi morta voltando do trabalho, como podemos ver na passagem que se segue: 

Pouco passava das 21 horas quando Mariángela foi abordada por homens, regressava do trabalho, na rua apertada que ia dar directo à sua residência […] – é a tua mãe, Benjamim, li mataram. Três vezes […] Coitada, lutou até ao fim […] – eu ouvi os tiros, foi tão forte que fiquei em choque, sem saber o que fazer.” (Op. Cit., p.28)

Podemos interpretar nesta passagem que, se as mulheres ficassem em casa estariam mais protegidas dos outros homens lá fora, porque mesmo na realidade factual, maior parte das mulheres é violentada e assassinada regressando dos seus postos de trabalho. 

Para MOURA (2009) citado por GARCIA (2018: 18), a percepção das desigualdades sociais e económicas existentes entre homens e mulheres pode estar por de trás da violência contra a mulher nas vias públicas em período pós-laboral. 

Os índices de violência contra a mulher têm crescido diariamente, violações sexuais, agressões físicas e verbais são registadas e reportadas diariamente e a literatura trás estes fenómenos em representação para protestar contra os mesmos. 

Violência doméstica em “Uma história de família” 

A violência doméstica tem diversas formas de se manifestar, pode ser física, verbal, psicológica, financeira, etc. Segundo NETTO (2014) citado por Garcia (2018: 18), a violência sofrida pela condição de se ser mulher, é produto de um sistema social que subordina o sexo feminino que tem como finalidade intimidá-la para que o agressor exerça o papel de dominador e disciplinador. 

Observa-se na passagem que se segue que o homem exerce o seu poder sobre a mulher, por ser homem, exigindo que ela obedeça aquilo que lhe é imposta, ou seja, ele já não quer a esposa e pratica sobre ela a violência psicológica.

Observemos a passagem que segue: 

Não vou sair desta casa. Também é minha./ – Quem pensas que és, mostra-me o teu extracto bancário dos últimos dois anos e saberemos quem és”/ Quem cuidou das obras, do desenho, das tijoleiras, … Se é para me ir embora levo comigo a casa/ Já mandei tirar toda a tua roupa. Não tem mais nada. O que sobrar vou queimar, pessoalmente. Tudo se transforma em cinzas. Até tu se mantiveres aqui./ – Do pó viemos e ao pó retornaremos. Vamos é ver que nos mete ao fogo./ Nos últimos meses tem sido este o tom das conversas entre o casal. […]”. (Op. Cit., p.38)

O homem, não mais querendo conviver com a sua esposa, exige que ela vá embora, que carregue tudo o que ela e saia da casa. Este evento submete-nos a o que MOURA (2009) citado por GARCIA (2018: 18) classifica de influência masculina em uma relação de poder, ou seja dominação do homem e submissão da mulher. 

A mulher, por sua vez, recusa-se abandonar a casa que construiu com o seu marido, e assim criam-se condições para a rivalidade. No entendimento de MOURA (2009) citado por GARCIA (2018: 18), a percepção das desigualdades sociais e económicas existentes entre homens e mulheres pode criar relações de poder e subordinação.

Para MARQUES et al., (2019) citado por citado por RIBEIRO, et. al. (2022:2) indicam que, o local mais comum das denúncias de violência contra as mulheres são as suas residências e seus agressores predominantemente homens companheiros ou ex-companheiros. 

No trecho “- Quem pensas que és, mostra-me o teu extracto bancário dos últimos dois anos e saberemos quem és”/ Quem cuidou das obras, do desenho, das tijoleiras, … Se é para me ir embora levo comigo a casa”, revela-se que a ideia de dependência financeira da mulher no homem, pode criar situações de violência verbal e psicológica. 

Este trecho mostra que o homem contribui com o dinheiro e a mulher com os cuidados, logo o dinheiro é que fala mais alto e os cuidados da mulher resumem-se simplesmente em um papel socialmente concebido. 

A violência contra a mulher em espaços públicos em “Destina”

Segundo RIBEIRO et. al. (2022: 1) as mulheres são diariamente vítimas de violência, alvos de assédio sexual, estupro, assobios, cantadas, dentre outros. O género, a raça e a classe são factores que enquadram as mulheres em posições diferentes de vulnerabilidade. Um dos espaços onde essa violência ocorre é o público, com baixo índice de notificações, é necessário assegurar a protecção das mulheres nesses espaços. 

A busca pela independência financeira tem levado muitas mulheres a trabalhar, maior parte delas por querem se separar das amaras masculinas de há séculos de que a mulher tem que depender do homem para tudo, por ser provedor. Mas muitas delas são violentas e mortas neste percurso: 

Destina morreu no dia 13 de Setembro de 2013. Era uma sexta-feira e ela acreditava muitas coisas./ Eram quase dezoito horas. Teria só quinze minutos até à hora da partida do comboio na estacão dos Cominhos de Ferro até Pessene. Correu como uma campeã olímpica […] Correu sem fôlego, já ia como um corpo sem vida, movida pelo espírito” (Op. Cit., p.41)

Os espaços públicos representam um verdadeiro perigo na calada da noite, malfeitores se infiltram no escuro a procura de vítimas, o nosso objecto de análise traz-nos a Destina.

Dois homens surgiram por de trás. Tiram-lhe a bolsa. Tentou, em vão, assustada, mover os pés para correr. Levou uma rasteira, deitou-se de trás e suspirou de alívio. O seu corpo estava cansado. Sua alma desgastada. A cabeça perdia os sentidos. Os homens fizeram o que lhes apeteceu com o seu corpo. Não que fosse preciso, mas tiram sua a calcinhas meteram na boca. Lambuzaram-se até à exaustão” (Op. Cit., p.45)

Segundo STREVA (2013: 53) citado por RIBEIRO, et. al. (2022:2)  a violência de género sob a forma do estupro ou assédio de rua, é um importante instrumento de fomentação do papel reservado a mulher no patriarcado, o de objecto de satisfação sexual masculino. Podemos ver que na passagem acima, os malfeitores que agrediram a Destina, ao invés de roubar o que queriam, aproveitam-se da fragilidade de mulher e violaram sexualmente a ela, este evento alerta a sociedade para que se quebre o preconceito de que a mulher é um objecto de satisfação sexual. 

Representa-se aqui a ideia de que é tempo de começarmos a olhar para a mulher, na sociedade, como um ser que merece protecção e respeito por parte do homem.

No dia seguinte, o corpo da Destina estava à vista de todos, debaixo de uma mafurreira, sobre o capim. Estava de pernas afastadas, a saia rasgada com o cuidado que só expos a parte frontal do corpo. Os seus olhos estavam abertos a encarrar o sol que nascia forte, como se quisesse queimar a terra suja de sangue, de lágrimas e dos fluidos do coito selvagem. (Op. Cit., p.47) 

Na passagem acima, já se tinha consumado violação e o assassinato de Destina pelos malfeitores, enquanto regressava do trabalho. A Destina representa várias outras mulheres violentadas e assassinadas, cujos autores nunca foram identificados e punidos severamente.  

Bibliografia 

Bandura, Albert. (2008). Teoria Social Cognitiva: conceitos básicos: São Paulo: Artmed.

Bourdieu, Pierre. (1992). A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves.

Camacho, Luiza Mitiko. (2001). As sutilezas das faces da violência nas práticas escolares de adolescentes. São Paulo: Educação e Pesquisa.

Dadoun, Roger. (1998). A violência: ensaio acerca do “homo violens”. Rio de Janeiro: Difel.

Garcia, Yohana de la Caridade. (2018). Violência doméstica contra mulheres e assistência prestada: um projeto de intervenção. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais.  

Medtler, Jéssica & Cúnico, Sabrina. (2022). Violência Contra a Mulher: Onde Começa e Quando Termina?. Brasília: Universidade Feevale. 

Oliveira, Edileusa & Casimiro, Ana. (2009). “Re(a)presentando” as faces de uma palavra: breve estudo sobre o conceito “representação”. Bahia: Universidade Estadual de Sudoeste da Bahia.

Palma, Moacir Dalla. (2008). A violência nos contos e crônicas da segunda metade do século XX. Londrina: UEL.

Pires, João Davi. (s/d). O fenômeno da violência: algumas abordagens conceituais.__. 

Quive, Eduardo. (2024). Mutiladas. Maputo: Catalogus. 

Ribeiro, Tamires da Silva. (2022). Violência contra as mulheres no espaço público: um debate necessário. Paraná: Universidade Estadual do Paraná. 

Silva, Maria Sabrina. (2023). A representação da violência ou a violência de representar. Rio de Janeiro. Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Laisse, Sara. (2024). Cartografia da miséria: “o desamparo das flores”. 7Margens, disponível em: https://setemargens.com/cartografia-da-miseria-o-desamparo-das-flores/ acesso em: 24 de Maio de 2026. 

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