Literatura moçambicana… para inglês ler
“As minhas palavras irão ou atrair uma mente forte, ou ofender uma mente fraca” – Anne Sexton
UMA TRAGÉDIA EM DOIS ACTOS
Acto 1º – Usos e costumes, folclore e artesanato
“A nossa literatura não pode ser vista unicamente como peça de folclore, presa a estereótipos que insistem em vesti-la de peles de animais selvagens, com personagens munidos de setas venenosas e azagaias.” – Daniel da Costa, in: lançamento do Livro “Os Peregrinos da Palavra”, de Marcelo Panguana (vide Facebook, 10.05.18)
Pois não! Mas esta é, todavia, a lamentável realidade que se vive na literatura pós-independência na generalidade dos países Africanos, e na de Moçambique, em particular: um livro de literatura oriundo de África, para se afirmar no mercado estrangeiro, tem de apresentar uma sociedade Africana estereotipada e estigmatizada, em que:
- As autoridades locais sejam, todas elas, entidades corruptas, autoritárias, abusadoras, ditadoras a raiar o fascismo mais vil e execrável, pelo que não devem colher o mais básico respeito social. Devem, ao contrário, ser ignoradas, desvalorizadas, desrespeitadas e escangalhadas pela sociedade em geral, e pelas mulheres em particular, claro, sociedade essa que deve, em vez disso, entregar o seu destino às mãos dos dispendiosos cuidados caridosos das ONG e companhia…
- Os cidadãos (todos eles, desde os velhos às crianças, passando pelos adolescentes e todos os estágios de adulto, sejam eles homens ou mulheres), sejam um rebanho de ignorantes crédulos adversos à ciência, para quem todos os fenómenos, naturais ou sociais (e também as histórias, portanto), têm de ter apenas explicações e descrições místicas, mágicas e espiritistas…
- Os homens constituam uma súcia de devassos empedernidos, que são educados, logo desde o berço, para crescerem em amantes libidinosos, praticantes viciosos de sexo, cujo cardápio inclui assédio e violações sexuais, e pedofilia em massa…
- E sejam uma escumalha de preguiçosos inveterados, que não mexem uma palha para o seu sustento, nem o da sua família e vivam apenas graças à exploração desenfreada (inclusive sexual) das suas mulheres e filhas, que sujeitam a casamentos prematuros, através de…
- Lobolos degradantes (só para as mulheres, claro), que são maquiavelicamente perpetrados por toda a família de ambos os nubentes e pelas comunidades a que eles pertencem, essas outras entidades sociais incultas e promotoras de múltiplas práticas atentatórias aos mais elementares direitos, só das mulheres, claro…
- Mulheres essas que não passem de uma corja de fêmeas angelicais, bando de mentes amorfas a roçar a cretinice, vítimas passivas do esclavagismo masculino, inato e cultivado, sem interesses próprios, distintos umas das outras, como acontece com quaisquer pessoas inteligentes, e que nem sequer sabem o que é que é melhor para si mesmas, sendo por isso incapazes de identificarem e lutarem pelos seus próprios interesses sem a omnipresente orientação externa das ONG e companhia; e
- Cujos maridos, cambada de bêbados incorrigíveis, maltratem, agridam e abusem dos filhos, e em particular das filhas, e espanquem selvaticamente as esposas por puro sadismo… (corro o sério risco de ver esta página isolada, retirada do contexto, publicada em várias línguas e, quiçá, até objecto de algum prémio literário internacional!).
Para que a sorte lhe caia, é preciso que o livro “descreve” este estereótipo de sociedade. Esta é a receita para o sucesso de vendas e quantos mais destes ingredientes forem nela incluídos maior será tal sucesso. Não há como falhar.
Ah, livros assim, sim, vendem-se que nem pão quente, Irão mesmo acumular prémios ao desbarato, ainda que muitas vezes não reúnam os mais básicos quesitos literários nem linguísticos, e estejam escritos com paupérrimo vocabulário, e mesmo pejados dos mais elementares erros gramaticais. Tudo junto!
Mas, ai do livro que não obedeça a essa fórmula canibal mágica. Esse jamais se libertará das teias de aranha das prateleiras dos armazéns das editoras mais arrojadas e da poeira nas prateleiras das livrarias mais desventuradas, para a glória de ver a luz de um candeeiro de secretária ou de uma mesinha de cabeceira. Um tal livro nascerá amaldiçoado, fadado ao aniquilamento. Será um nado-morto.
E como, hoje, grande parte daqueles que escrevem (apodados de “escritor” logo ao primeiro livro publicado!) o fazem não por apego à literatura, mas em busca dos seus “15 minutos de fama”, de exposição sob as luzes da ribalta (alheios ao facto de que o brilho não é deles, mas sim dessas luzes), esta é hoje a generalizada natureza da literatura Moçambicana (mas não a totalidade, felizmente – honra seja feita às excepções!).
Assim se pode explicar a propensão instalada destas literaturas (que só merecem ser designadas como pós-coloniais porque perderam toda a qualidade e rigor descritivo que as obras coloniais possuíam, e o substituíram por esta abordagem condenatória apriorística e apressada, feita por encomenda e mal escrita), para, umas atrás das outras, várias em simultâneo, contarem um passado sempre apresentado como pernicioso, e só raramente, muito raramente, ensaiarem uma imaginação do presente, e menos ainda criarem um qualquer futuro.
Isto está sobejamente patente nos seguintes trechos do posfácio escrito à obra “Mulher Sobressalente”: “dá o tom de denúncia do quotidiano de uma sociedade com padrões de comportamento que parecem não se coadunar com o século XXI”. “E tem por traço marcante expor a realidade Moçambicana” (Idem).
E a saga continua:
“São histórias que nos remetem para um mundo que parece inverosímil. Mas que não é. Daí a importância da literatura que produz (…) nos damos conta de realidades aviltantes” (ibidem).
Ou seja, algumas distorções e abusos, absolutamente condenáveis, sem margem para dúvida, dos preceitos culturais, praticadas por alguns indivíduos, coisa que ocorre em qualquer cultura, não são entendidas como comportamentos individuais desviantes ou abusivos, passíveis de condenação e castigo dos seus praticantes, ou eventualmente, como facetas potencialmente negativas de algumas práticas culturais, a apelarem a uma mudança urgente da condição humana socioeconómico e cultural integral que as engendrou e de que resultam (a cultura é essa linguagem), não! São logo apresentadas como a cultura de todo um povo, que a prática por pura malvadez, ou estupidez, culturas que, desta maneira, resultam acusadas no seu todo dá mais vetusta selvajaria e reduzidas ao mais ímpio estatuto de “aviltante”! É a “realidade Moçambicana” por inteiro. E não se trata, sequer, de “selvajaria no passado”. Ela está a acontecer agora!
E, todavia, essa sociedade “maldita” e “selvática” resistiu, evoluiu, foi feliz e sobreviveu, por toda a história da humanidade, incluindo o período da escravatura e a longa noite colonial, e foi até capaz de sustentar uma luta de libertação que quase derrubou o colonialismo. Como foi possível, com essas características generalizadas tão absolutamente “perversas” não se terem há muito degenerado e extinguido?! Como é que ainda estão vivos… a ponto de produzirem esses escreventes que se empenham em condená-la de forma apriorística?
Ou terá sido precisamente graças a essas características, que nos são apresentadas de forma descontextualizada, distorcida e deturpada, que a sociedade sobreviveu, estável e independente… até que chegaram as centenas de ONG & Cia, com as quais surgiram e se massificaram problemas que antes eram apenas pontuais (graves, não obstante, mas meramente pontuais), como as crianças de rua, a gravidez precoce e votada ao abandono, os casamentos prematuros à balda, o assédio sexual, a violência, o abuso de drogas, o alcoolismo, etc., – tudo produtos da desestruturação total e completa desse tecido social que foi engendrada por via da condenação e abolição sumárias de todas as práticas socioculturais locais (uma parte delas, estas mesmas que são distorcidas e condenadas de forma apriorística por estes comentadores, e por muitos destes “escritores”) sem que o ambiente que as engendrou e sustentou tivesse sido alterado? [Nota: isto não é uma apologia de quaisquer práticas. A cultura é a linguagem da interacção com o meio ambiente. Se se pretende mudar a cultura, não é com afirmações condenatórias apriorísticas. É mudando o ambiente que criou essa linguagem. Não falo de belas intenções. Falo de belos resultados].
Casos destes não existem? Existem, sem dúvida. Lamentavelmente. Mas, que atire a primeira pedra a cultura deste planeta em que não existam casos desses! Quem tenha dúvidas, leia jornais, todos os dias, leia “As Brumas do Avalon”, de Marion Zimmer Bradley (2002) ou leia (ou veja a série) “A guerra dos tronos” de George R.R. Martin.
Estes visitantes criaram, assim, para eles, uma nova realidade aculturada de que, não por acaso, resultaram empregos milionários para uma infinidade de praticantes das suas próprias culturas, que eles mesmos, com arrogância, reputam como o padrão de civilização, bem como de um séquito de serviçais locais, que levam, graças a isso, uma vida abastada (ou deveria dizer, adestrada?).
Porque, não, não se pense que isto é obra apenas de quem vem de fora. Não é! Diz Onjaki (Roda Viva, 15.1.2007 – 27’:21): “Nós recusamos a visão exótica e idiótica que fazem das nossas literaturas e dos nossos livros (…)”.
Nós? Nós, quem? Fazem? Quem é que faz? Eles, quem? Poderiam “eles” fazê-lo sem a manifesta cumplicidade de “nós” (como sempre)? Não houve nenhuma agressão armada desta vez. As portas foram escancaradas a partir de dentro! Como em todos os assaltos, aliás: por cúmplices internos.
Fazendo fé no provérbio Africano “Até que os leões tenham os seus próprios historiadores, a história da caça sempre glorificará o caçador”, seria de esperar que esses escritos pós-independências sobre o passado fossem, ao menos, uma tentativa de o alegadamente libertado contar a sua versão da história, diferente daquela dos ocupantes estrangeiros – que sempre desprezaram e amesquinhar as culturas dos colonizados, apelidando-as de folclore, sem tentarem compreender as origens e as fontes dessas práticas (até mesmo para melhor se poder combatê-las).
“A árvore quando está sendo cortada observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira” – Provérbio Árabe
É surpreendente, porém, que, ao invés disso, em manifesta prova do sucesso das políticas coloniais de assimilação, os próprios nativos vêem agora contar uma versão da sua própria história mais inquinada até do que aquela que era contada pelos invasores do antigamente. É só vê-los, com o mais profundamente arraigado espírito de neocolonizado, a proclamarem com gáudio quando é adjectivada como exótica alguma coisa que fazem ou dizem: “Sabe como somos nós, os Africanos”!
E, com essa auto-minimização à condição de exótico, lá ganham o direito a participarem num qualquer painel de Facebook de terceira categoria, oferta caridosa do patrão condoído ao ver, assim, confirmado, o estereótipo que traz consigo. Prova-se, deste modo, que, afinal, eles se foram embora não porque foram derrotados, como pretende o discurso pretensamente nacionalista, mas, ao contrário, porque venceram: alcançaram o objectivo supremo – colonizaram as cabeças. Uma vez medradas as sementes, agora é só deixar que cresçam. E, depois, é só colher os frutos. Para quê ficar a apanhar calor e mosquitos? Conseguido o objectivo há que partir, para desfrutar: os escravos irão procurar os seus senhores para se despojarem aos seus pés e os servirem onde eles estiverem, enquanto disputam entre si as migalhas que sobram do banquete dos seus amos. E rogar-lhes-ão para que voltem. Desta vez como seus mentores. Como está a acontecer ao nosso redor! Só assim se entende que os “50 anos da Literatura Moçambicana” tenham sido celebrados em… Lisboa – com profusa participação de escribas moçambicanos!
Hoje, como no passado. Sempre graças a um punhado de comparsas infiltrados, que se encarregam de levarem eles mesmos os escravos desde o interior até aos navios negreiros à beira-mar! Antes por miçangas e espelhos. Hoje por uma viagenzita como “representante” da literatura Moçambicana – sem que se saiba quem outorgou a esses auto designados “representantes” (tantas vezes “escritores” de um livro só), um tal mandato. E por uns minutos numa tela de TV, esse novo pedaço de espelho. Sempre a troco de um benefício zito individual, obtido à custa de outrem. “Caranguejo wééé, mauêê, porquê você está me puxar?” (Stewart Sukuma, “Caranguejo”)
Como demonstra o caso que se segue: “Está a minha figura do ano. (…), a figura que escreveu sobre o que se passa na sociedade (moçambicana). (…) É um livro de dez contos. Um mais interessante e real que o outro. (…). Parabéns (…), espero pelas novas letras pintadas com a tua caligrafia do pensamento e leitura das realidades que vivemos. in: https://m.facebook.com/ story.php?story_fbid= 2135322366513495&id= 100001072574445 Figura do ano 2018. [referência à obra “A Mulher Sobressalente”, Malê, 2018]
Estes comentários elogiosos atribuem relevância, afinal, não às qualidades literárias destes textos, ou seja, ao enredo criado, aos artifícios e artimanhas literárias utilizados, à estética do texto, à arte da escrita, à riqueza vocabular, enfim, a nada daquilo que importa num livro no Ocidente “culto e civilizado”, não, mas tão somente a essa denúncia dessa “realidade aviltante”, em que vivem os pobres selvagens Moçambicanos – por isso, tão absolutamente dependentes de ajuda externa, para os aliviar desse mal que é a sua própria maneira de ser, a sua génese inculta e selvática, a sua identidade. Até para venderem os seus livros. A fazer fé nestes comentários seríamos levados a concluir que estas pretensas obras literárias são, pois, tudo menos literatura de ficção. São crónicas. Se, ao menos, fossem bem escritas!
Para tornar este canibalismo ainda mais alienado, com frequência, esse passado que é desta maneira “contado” e descontado até à condenação sumária, não o é sequer com base nas vivências desses autores. Ele é alicerçado naquilo que eles ouviram dizer, de um modo geral de maneira deturpada e desfasada da compreensão da realidade e do contexto, àqueles que lhes encomendam as obras, imbuídos de preconceitos e presunções civilizadoras, pretensamente cultas e modernas, que medram no desconhecimento da parte de quem ouve e a seguir reconta (recordando que “quem conta um conto, retirara-lhe sempre uma mão-cheia de pontos e de vírgulas”).
Donde resulta que aquilo que é contado é, afinal, quase imaginação pura! Generalizam coisas que são pontuais. Descrevem coisas como elas não são. Que são imaginadas. Para Inglês ler. E se satisfazer. Pena é faltarem absolutamente os recursos literários a esses rascunhos, para se poderem constituir em literatura de ficção, com o mínimo de qualidade.
Perante toda esta difamação, eu, abaixo assinado, indígena, declaro solenemente ao mundo: não me reconheço nesse tipo de contos; não sou o selvagem libidinoso que esses contos pretendem vender; o meu avô não foi esse preguiçoso devasso e abusador inveterado de quem estes textos falam; a minha avó não foi essa vítima oca, amorfa e tonta como estas pessoas a descrevem! E são raríssimas as pessoas que conheço que agem e se comportam impunemente da maneira como essas que esses textos inventam e generalizam abusivamente. E se os parentes daqueles que contam essas histórias foram assim como eles contam, têm o meu dó. Mas saibam que são casos isolados, os vossos.
N.A. Em várias circunstâncias omiti os nomes das pessoas porque as questões que coloco não têm a ver com pessoas, e sim com conteúdos (não importa quem o fez ou disse).
Por: Jacinto Pena – Advogado





