Resgate Suicida: Uma tentativa cinematográfica vencedora de prémio

Por: Izidro Dimande

Quando vi o resultado da Secretaria de Estado da Juventude e Emprego, em um evento de premiações  dando o prêmio de 155.000,00mt ao jovem Isidro Mangue, na categoria de Criação Artística, levou-me a assistir o filme. Passados os 56’.42’’ de tanta epopeia encarniçada, o córtex cerebral obrigou a não ficar impávido às cenas, que trago neste texto crítico, como alerta ao corpo de jurados do SEJE. É preciso um jurado com olhos de ver os filmes e não proscritas. 

Por outra, acabei tendo a leve conclusão: o Isidro fora o único vencedor e único concorrente, para o estágio do concurso, visto haver uma série de novos cineastas com uma qualidade e edição invejável. Alguns saídos da MFT (Multichoice Talent Factory) com demonstrações de peças de novelas, seriados, filmes, todos eles dentro do pacote inovação exigida. A culpa é de todos!

O cinema nacional neste século tem mostrado melhorias. A edição de filmes é uma parte crucial da produção cinematográfica, onde o material bruto é organizado e refinado para criar a narrativa final. É desta narrativa final onde a criatividade do Isidro fechou-se no despautério cinematográfico. Vejamos cena a cena. Mas antes, este filme conta na sua ficha técnica com um nome sonante: Ivan Barros. Depois explico quem é Ivan Barros.

A melhor cor do Resgate Suicida dura só e só do segundo 41’’ a  59’’ e no minuto 48 quando vão à residência da viúva deixa a parte do 3 mercenário, no fim do filme (o início do filme a imagem é panorâmica de uma parte da cidade de Quelimane, junto ao canal do rio, uma edição de cor para nota 9), do minuto 1, em diante a cor do filme altera-se, todo. De seguida a cena passa para o Shoprite, quando a viatura chega e sai o casal que sofre o sequestro: a cor no meu ponto de vista não técnico é complementar (usada na oposição ao círculo cromático – azul e laranja – para criar contrastes visuais. Esta é muitas vezes usada em filmes de acções para criar impacto com destaques nos personagens e objectos. Até aqui sim, a nota merecida é 4 (na escala de 0-10).

O sequestro inicial: a miúda sequestrada, veste um vestido preto, sua cara revestida de um par de óculos, seu cabelo longo de mexas brancas. No minuto 24, quando a mesma é salva da fossa de águas, está alterada. As mechas viraram cabelo amarelo. O vestido é o mesmo, a cara da miúda é outra. Ou seja, a produção alterou os personagens sem se preocupar com a criação de um dublê (profissional que executa cenas perigosas ou arriscadas em substituição a um actor principal). Ainda nesta cena, a viatura dos sequestradores vem com as matrículas tapadas, vi algo idêntico no filme de Mel Gibson (Arma Mortífera 4) de 1998, hoje, com o advento das técnicas de disfarce, estas matrículas, o Isidro poderia às trocar com falsas, com números e letras. Acontece o mesmo erro nas viaturas da peça de entrega do resgate.

Ao longo do filme há ausência de texto. As falas são curtas em todas cenas, havendo entre o minuto 17 aos minutos 38, ausência completa de diálogos curtos ou longos, assistimos acções com uma banda sonora pobre. Facto que me levou a percorrer a ficha técnica à procura do responsável da trilha sonora feita por Afonso Moq.

O acúmulo de funções dessa equipa levou-os a fraca produtividade pelo tempo curto e esperado em lançar o filme e levá-lo ao concurso, há muitas falhas que se podem melhorar na segunda parte do Resgate Suicida, visto que o filme termina em aberto, a ficha técnica demonstra esse acúmulo de funções que pode ser benéfico quando não se tem pressa, ou pior, quando não se tem orçamento para pagar a um equipa completa. A ficha técnica descreve as funções de Isidro Mangue como, realizador, roteirista, fotógrafo, direcção, coreografia (divide com Nelson do Rosário), edição (coadjuvado com Afonso Moq). Nas câmaras: Matheus (sem nome completo o que suscita desgaste na escrita da ficha técnica), DBS (uso de sigla, subentende-se como uma empresa e não pessoa individual) , Crayz Pitty (uso de alcunhas em uma ficha técnica que será usada em todo o hemisfério onde o filme for produzido), Edson Rafael, Álvaro Emílio, Cão de Caça (espero que seja o nome patente no seu B.I) e Isidro Mangue. Total de cameramen 7. Efeitos visuais a cargo de Afonso Moq, Correcção de cores e revisão, Ivan Barros, fotografia Isidro Mangue. Visto deste prisma de acúmulo de funções, entendo ser um filme feito de amigos. E não uma equipe de colaboradores de uma agência de produção de filmes. Mesmo sendo um filme produzido por amigos, poderia Isidro socorrer-se a todos ao seus em redor (escola, vizinhos, igreja, trabalho) com experiências em técnicas diversas no uso de máquinas digitais.

No minuto 4, quando o aspirante a músico entra no gabinete do pai da sequestrada, o som desta cena fica em eco. Os planos de filmagens alteram cada fala dos personagens, atrapalhando a concentração de quem assiste. Foi essa minha secção. Outra é a falta de estética ao longo de todo o filme, o vestuário é deficitário. Na cena do gabinete, do homem considerado endinheirado, a arrumação é extravagante. Quando sai o músico é possível ver-se uma caixa arrumada ao acaso no topo do guarda-fato. A própria sala deste é apertada e sem luz, cor e beleza.

Quando se vai ter com o sargento na sua oficina, o diálogo sobre a defesa da pátria e outros símbolos, não deviam constar para uma situação privada, no meu ponto de vista é usada para questões de socorro humanitário em que temos governantes, políticos, heróis de guerra, detidos e não uma simples filhinha de papai. E o diálogo inicia ao barulho da máquina de corte, deixando os personagens em gritos desnecessários. 

Quando o grupo de mercenários está unido, Isidro Mangue, deveria ter os preparado fisicamente (meses de ginásio com preparadores físicos e nutricionistas), coloca-nos em uma posição de fraqueza nos olhos de militância internacional (que os nossos soldados são todos tão magros), são comandos (como descrevem no grupo). Gostei da execução técnica das lutas, foram treinadas e executadas com mestria para o nosso nível. Há ainda a reter os efeitos das feridas após disparos, o sangue está lá, em demasia em algumas cenas e ausência em outras como no baleamento ao peito do 1 mercenário. Vê-se que os mercenários tiveram noções de preparação militar para as cenas de ataque, nota 6.

A pior cena que vi neste filme, deixando-me em risos, foi no minuto 23’5’’, os três entram em um espaço de troca de tiros, pendurados estão 5 figurantes, 3 deles são abatidos enquanto 2 ficam em sentido, como se alí não estivessem, não ouvem os tiros e não reagem. Mas acabam abatidos. A bomba de fumo lançada, não percebi para que fins era, porque aquele tipo de fumaça é lançada para resgate aéreo.  Algo meio bizarro, nota 2.

Faltou neste filme um técnico de imagem facial, profissional que trabalha na manipulação, análise e criação de imagens faciais em diversas cenas do filme. Um técnico fascial é retocador de imagens, é ainda técnico de captura de movimentos facial, é ainda um especial em CGI specialist (cria ou manipula imagens faciais usando computação gráfica, cria rostos, altera rostos), faltou um técnico de reconhecimento facial, técnico de efeitos visuais, faltou um maquiador, um fotometrista, faltou um especialista em realidade aumentada. Culpa da nossa pobre indústria cinematográfica. Para um outro Isidro, a produção deste filme com o pouco orçamento disponível, não se realizaria, para este Isidro, jovem e amante da indústria do cinema, avançou com os precários recursos e fundos.

Foi-lhe difícil gravar na doca, pelo cenário que oferece, lama, água, pedras, ferros, tanques, um exercício onde o personagem principal não mediu esforço na interpretação e ultrapassagem de obstáculos. E ficamos a assistir o 2 mercenário com a sequestrada andando de cenário a cenário até que são atacados em um confronto seco, ela, ainda entra para salvar, foi fraca esta cena, nota 3. E nota 7 para o efeito de baleamento na cara.

Fico aqui me perguntando, porque a edição não cobriu a marca PUMA (em um tanque cisterna) em uma cena? Não sendo patrocinadora do filme, ganhou visibilidade eterna.

O bom deste filme é ser um autêntico filme de artes marciais bem-ensinadas do país, todo elenco executa as artes com mestria e conhecimento de katas (movimentos de ataque e defesa presentes em diversas artes marciais). Fiquei ainda perplexo, na agilidade da cena última de luta nos contentores, o Isidro (personagem principal) foge das balas em um movimento militar (rastejar). 

E porque não se confia em ninguém nestas operações, a entrega da sequestrada é feita sob fortes medidas de segurança entre o pai e os mercenários, e entre as falhas esquecidas o realizador coloca as médicas do bandido a retirarem-lhe 2 balas do abdome, enquanto este só levou 1 bala pela sequestrada no fim da luta. Nesta cena hospitalar clandestina, houve muita pressa em terminar com o filme!

E na segunda parte, espero melhorias.  Quem é Ivan Barros? Um dos melhores directores e editores que o país criou. Um mestre!

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