Sugaya lança o EP intitulado “Lourenço Marques” em colaboração com DJ Nod
Recentemente, o rapper e gladiador moçambicano, Sugaya, lançou o EP intitulado “Lourenço Marques” em colaboração com DJ Nod/Kick Master, nas plataformas digitais.
Segundo uma nota enviada à Moz Entretenimento, “Lourenço Marques” é um EP através do qual Sugaya relata as suas vivências e perspectivas sobre diversos assuntos que fazem parte do quotidiano da população moçambicana.
O EP “Lourenço Marques” é composto por 7 faixas musicais, nomeadamente “Maipipol”, “MPTVille”, “Ele nos salvou”, “Moz Com M”, “Porto Seguro”, “Suportamos” e “Welovehh”, que contam com participações de Nhurexx, Coral Choupal, Eroboh, Fossil, Kuatro Ases e Ray Breyka.
Importa referir que a música “MOZ COM M” contém um texto lírico em que todas as palavras usadas começam com a letra M.
Escute este EP a seguir:
Resenha Crítica sobre a EP “Lourenço Marques”, da autoria do rapper Sugaya Tha Genius e do produtor DJ Nod/Kick Master

Por: Edgar Baroso
Do material sonoro que tem recentemente saído para engordar os anais do Hip Hop Moçambicano, a EP “Lourenço Marques”, da autoria do rapper Sugaya Tha Genius e do produtor DJ Nod/Kick Master, é uma obra que se destaca dos seus lugares tradicionalmente comuns, simultaneamente pela sua originalidade lírica e pela inovação sonoplástica que apresenta. Composta por sete faixas, cada uma aborda de maneira singular as realidades sociais, políticas e culturais de Moçambique, especialmente focando-se na cidade de Maputo. De forma resumida, segue abaixo a apreciação do projecto, faixa por faixa.
1. MAIPIPOL (com participação de Nhurexx)
Nesta música, num fundo musical muito apelativo que oferece a estética panorâmica sobre a qual Sugaya presta homenagem aos seus compatriotas moçambicanos, especialmente das zonas urbanas e peri-urbanas, que têm tentado, mesmo contra todas as barreiras, fazer a sua vida e continuar resilientes num cenário económico sombrio que assola o país nos últimos anos. Com efeito, menção honrosa é feita aos homens – “meus manos são nhonguistas, fazem boladas na via/movem mundos e fundos para terem o pão de cada dia” – e às mulheres – “algumas delas são confeiteiras de mão cheia/para ganhar dinheiro criam tantas ideias/vendem roupas do brechó, revendem cenas da Avon/passam pelas abelhas e tiram o mel da colmeia”. Indubitavelmente, numa descrição cinematográfica com requintes poéticos que bastem, este som é um muito bem conseguido ode à sua capacidade de resiliência e criatividade.
2. MPTVILLE
Neste som, numa perfeita simbiose a dar continuidade discursiva à música de abertura, Sugaya aborda a ânsia e a busca incessante de justiça social que os munícipes da sua cidade natal, Maputo, têm travado diariamente com as estruturas governativas locais. Novamente, homens e mulheres que fazem das tripas coração para conseguirem-se impor nas tribulações estruturais de uma metrópole que muito pouco oferece de serviços básicos como um sistema de transporte minimamente decente, habitação condigna e derivados. Para quem escuta a letra, fica difícil não se rever numa e noutra linha. Com efeito, como Sugaya bem diz em jeito de resignação, “vida adulta, como custa/quem não aguenta com ela só surta/são facturas, são impostos, é o IVA, são multas”. É, portanto, nesse emaranhado de dificuldades em que se cozem as vidas dos maputenses, onde toda a promessa falida de políticas públicas parece ter implicações directas sobre a vida de cada um dos habitantes, que Sugaya vai relatando as peripécias de algumas das personagens que escolheu retratar, por cima de uma sinfonia sonora que, apesar de invariavelmente melancólica, preenche, com uma memorável linha de baixo, e de forma muito bem conseguida, os espaços de reflexão que se poderiam escapar da letra original.
3. ELE NOS SALVOU (com participação de Coral Choupal)
Esta faixa, uma agradável surpresa de palavras e sons, pode ser um dos pontos mais altos deste projecto. DJ Nod continua a roubar algum protagonismo na composição sonora, com variações subliminares que vão explorando a plenitude do potencial lírico de Sugaya. A participação especial do Coral Choupal eleva, de forma magistral, o lugar comum em que se posicionam as propostas sonoras do Hip Hop moçambicano, no seu todo. Uma verdadeira obra de arte, estruturada numa dimensão religiosa em que, não sendo de experiência ou de apreciação generalizável, ao menos apresenta um Sugaya mais introspectivo e filósofo, partilhando, verso após verso, os dilemas existenciais das sociedades contemporâneas e algumas das incidências do seu (e que pode ser também de qualquer outra pessoa) processo de amadurecimento espiritual e intelectual. Três menções especiais merecem destaque, nesse desiderato. Primeiro, quando diz: “pois desde Génesis, esse mundo é uma arena injusta/nem sempre quem planta sentirá o sabor das frutas/nem tudo que se esfola degustará do suor das lutas”. Segundo, quando denuncia: “patrões da sociedade são ladrões da liberdade”. Por último, quando sentencia: “para quem não subiu na vida até ao prazo previsto/é uma competição feroz, que nos salve Jesus Cristo”.
4. MOZ COM M
Outro lugar incomum no panteão artístico até agora explorado pelo Hip Hop moçambicano, o spoken word oferecido nesta faixa facilita a divagação retórica que Sugaya vai fazendo, fotograficamente, do que se pode registar do nosso país, Moçambique, apenas usando criativamente palavras, verbos e referências com a letra “M”. Destaque especial vai para a originalidade aqui patente, revelando, eloquentemente, as imensas possibilidades abertas pela cultura Hip Hop no processo de criação de realidades objectivas (ou subjectivas), reflexões sociológicas ou referências socioculturais apenas com jogo de palavras e rimas. Um exemplo: “Moçambique, moeda: metical/mosaico multiétnico, multicultural”. Outro exemplo: “mulheres macuas moem mussiro/montam mathunas/muitos murmuram/mera mutilação, martírio”. A esteira sonora poderia ser um bocado diversificada, como um recurso estético para fugir da recorrente monotonia e explorar ainda mais a interpretação vocal, mas tal ausência não compromete, em circunstância alguma, a beleza criativa do produto final.
5. PORTO SEGURO (com participação de Nhurexx)
Uma dedicatória à sua musa inspiradora, esta é uma das músicas mais bem conseguidas de todo o projecto. Especialmente pelo sublime jogo de palavras, pelos recursos estilísticos e a colocação de voz dos executantes, numa instrumental que é, incontestavelmente, uma verdadeira obra prima. Tudo parece encaixar perfeitamente, numa fusão de sons e vibrações que transportam o ouvinte à essência do tópico: uma declaração de amor suis generis, com referências memoráveis como “ela é bela, é uma bala, tem um cérebro culto/meu fel, ela nunca fala falácias em seus discursos” ou “é tão valiosa como prata, essa preta é a porta do meu porto mais seguro/e quando a vida aperta e o meu coração se parte, eu parto para perto dela, me aparto de quem é impuro”. Indubitavelmente, esta música é uma balada envolvente e que convida sempre a colocar replay, onde todo o homem verdadeiramente apaixonado pela sua cara-metade imediatamente se poderá rever e adicioná-la aos anais predilectos da banda sonora do seu relacionamento amoroso.
6. SUPORTAMOS
De todas as músicas deste projecto, esta é a minha preferida. Por uma razão simples: Moçambique vive, actualmente, um dos períodos mais sombrios da sua história política, económica e social. Esta música é apenas uma de tantas outras que são feitas como radiografia iconográfica desses tempos; não obstante, e sem roubar nada das outras, esta parece ser, simultaneamente, a mais actualizada, a mais cinemática, a mais simplista e, notavelmente, a mais profunda de todas. Numa instrumental onde o DJ Nod que não foge à linha habitual das anteriores do projecto, dando uma margem de manobra suficientemente confortável para despontar o génio criativo que superiormente tem caracterizado a caneta do Sugaya, saltam ao ouvido, de forma quase que automática, muitos versos memoráveis: “suportamos viver com muito menos do que o necessário/suportamos contas superiores aos nossos salários/suportamos, suportamos fraudes eleitorais/suportamos esses impostos que são altos demais”; “suportamos as facturas, suportamos as multas/fomos nós que suportamos as dívidas ocultas”; “suportamos quando a FIR molesta o pobre cidadão/sempre que esse se faz presente na manifestação/suportamos tantas coisas, nós merecemos um prémio/suportamos cães, jactos de água e gás lacrimogéneo”; “suportamos ver o Inocêncio numa situação crítica/perdendo o olho por causa de uma marcha pacífica”; “governantes que não sabem as nossas reais condições/suportamos o Celso dizendo que temos 3 refeições”. Para além do reconforto em jeito de catarse que a música proporciona, fica muito difícil não ficar sensibilizado e engajado com o som, especialmente quando nos associamos cognitivamente ao que tem estado a acontecer no país: autoritarismo crescente, cleptocracia organizada, atropelo sistemático do Estado de Direito democrático, dos direitos humanos essenciais e das liberdades civis e políticas dos cidadãos moçambicanos, especialmente nos múltiplos pleitos eleitorais.
7. WELOVEHH (com participação de Érebro, Fóssil, Kuatro Ases e Ray Breyka)
Faixa de fecho, uma singela homenagem ao Hip Hop como escola de educação alternativa de parte significativa das gerações urbanas e periurbanas de todo o mundo, nos últimos 50 anos, apresenta participações especiais de rappers que surgiram em diversos momentos do processo evolutivo do movimento Hip Hop moçambicano. A instrumental a condizer magnificamente nas letras laudatórias de cada um dos rappers sobre como a cultura os impactou ou tem impactado, é no geral sólida e faz a devida interligação há muito merecida por Sugaya para se constituir como uma referência actual no cenário musical urbano desta década.
Em suma, pelos pontos arrolados acima, a EP “Lourenço Marques” é, sonoricamente, uma lufada de ar fresco no Hip Hop moçambicano (muito por causa da inovação sonoplástica do DJ Nod) e testemunha o gigantesco salto qualitativo, ao nível de escrita e performance, que o rapper Sugaya deu na constelação hierárquica dos melhores rappers da nova geração.





