A sentença da Yara da Silva

Por: Filipe Tumbo

Desde ontem, rola nas redes sociais uma frase polémica que envolve a Yara da Silva, apresentadora do programa “Manhãs Alegres”, da STV.

Segundo os internautas, a apresentadora teria pronunciado as palavras que a sentenciaram duras criticas, no programa por si apresentado em directo e logo caíram mal para o gosto do público que as considerou preconceituosas e racistas.

Trajada de capulana, que é um pano que, tradicionalmente, é usado pelas mulheres para cingir o corpo, fazendo as vezes de saia, podendo ainda cobrir o tronco e a cabeça, a cantora disse “Apesar de eu não ser negra amarrei a capulana como as negras”.

Segundo se pode constatar nas discussões que rolam na internet, sobretudo no facebook, as opiniões são diversas e dividem opiniões. Por um lado, há os que condenam de forma veemente a atitude da apresentadora, considerando-a racista e preconceituosa contra as pessoas negras.

Pois, segundo os mesmos, no lugar de ela falar que trajou um adereço que as negras usam, apesar de ela não ser negra, denota que ela não se considera negra e a capulana é uma vestimenta apenas para pessoas negras.

Por outro lado, há os que consideram a atitude da apresentadora um acto leviano e inconsequente. Ela não tinha consciência do impacto que as suas palavras teriam nas cabeças do público e, portanto, os racistas são as pessoas que a condenam. Porque, para estes a sua atitude não é tão relevante que mereça a atenção para ser discutida. Estes consideram ainda que há assuntos mais importantes por se debater e que a discriminação racial em África, em nada se compara com o tratamento que é dado aos homossexuais.

Entretanto, para mim, uma opinião pessoal, diria que a apresentadora foi irresponsável, inconsequente, preconceituosa e racista. Ora vejamos: “Apesar de eu não ser negra amarrei a capulana como as negras”. Parece que, nesta frase, ela nos quer dizer que a capulana é um adereço para negros e, ela, não sei de que raça é, não se considera negra.

No entanto, teve que descer do salto alto como as negras. Por outro lado, podemos considerar que Moçambique é um país multirracial, tanto a sua cultura. Portanto, a capulana não tem cor da pele, pessoas de todas cores e raças (apesar de reconhecer que apenas existe uma única raça) a podem usar e a usam como se pode constatar no dia-a-dia.

Ela foi infeliz e infeliz são os seus defensores que consideram esta discussão irrelevante. Pode parecer insignificante, mas é um problema serio, mesclado de coisa pequena. Os que consideram esta discussão desnecessária tem medo do debate que isto pode levantar, que o racismo existe em Moçambique e está presente em todas as esferas da sociedade e até na media televisiva.

Há demais, se ela não tinha noção da repercussão que isto levaria, mesmo assim, não deixa de ser racismo. Mesmo que hajam outros assuntos relevantes a se discutir, como o tratamento dos homossexuais que nada se compara a discriminação racial, não deixa de merecer a atenção para ser discutido.

Ainda mais, sobre a questão de que ela não tinha noção do seu acto, por isso, não pode ser considerada racista. Não concordo. Porque mesmo na lei, o desconhecimento de uma certa regra, no caso de a infringirmos, não deixa de recair sobre nós as devidas sanções. Por isso, ela é sim racista. Não importa se ela tivesse ou não, no momento, a noção de que estaria cometendo um acto racista.

Para finalizar, vou partilhar uma simples definição daquilo que pode ser considerado racismo. Racismo, consiste no preconceito e na discriminação com base em percepções sociais baseadas em diferenças biológicas entre os povos. Muitas vezes toma a forma de acções sociais, práticas ou crenças, ou sistemas políticos que consideram que diferentes raças devem ser classificadas como inerentemente superiores ou inferiores com base em características, habilidades ou qualidades comuns herdadas.

Portanto, tomemos atenção naquilo que falamos, principalmente em público. Pois, apesar de tão bom que seja o objectivo das nossas palavras, se nos expressarmos mal, poderemos ter perdido a oportunidade de ficar calados e não merecer duras críticas. Sobretudo na televisão e em programas feitos em directo, os apresentadores devem ter muita atenção porque podem manchar as suas carreiras numa fracção de segundos e nunca mais ter volta.

(Filipe Tumbo)

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