“A crónica de um Museu da Revolução cantado no Franco” – José dos Remédios

Por: José dos Remédios

Nota prévia. Museu da Revolução é o título de um romance de João Paulo Borges Coelho. Quando o escritor publicou o livro distinguido no Prémio Oceanos 2022, que cobre meio século da história do país, nem poderia supor que, tal como ele, um grupo moçambicano invocaria, no caso em jeito de espectáculo, uma narrativa designada “Moçambique 50 anos”. Na passada sexta-feira, no Franco-Moçambicano, Cidade de Maputo, foi exactamente isso o que 45 artistas do TP50 fizeram.

Numa sala bem concorrida, o espectáculo começou com uma espécie de analepse. Através da música, TP50 activou a memória de um tempo em que a liberdade foi a maior “utopia” de uma geração consciente e determinada. Logo no princípio, Onésia Muholove foi a primeira intérprete no leme de uma navegação calibrada, com exímios instrumentistas (Zé Pires, Valter Mabas, ou Cheny wa Gune) a suportarem a performance num cenário ousado.

Quando soaram os primeiros acordes, os relógios dos espectadores marcavam 20h23, mas ninguém pareceu importar-se com isso. A noite estava mesmo no princípio e, numa vibração imprevisível, todos mantiveram-se atentos ao que estava por vir. Sem demora, percebeu-se, uma vez mais, que TP50 não é só música. O teatro e o audiovisual são disciplinas igualmente apreciáveis pelo grupo. Por isso, também estiverem no palco Nélia Gilberto e Horácio Guiamba.

No início, naturalmente, coube aos actores contextualizarem uma viagem emocionante pela maior aspiração de um povo, que, na segunda metade do séc. XX, iniciou a marcha para a independência nacional. Talvez, contaminado pela euforia de um tempo, Guiamba trocou a lembrança do 25 de Junho de 1975 pela de 24 de Julho de 1976. Confundiu-se o actor, porém sem nunca comprometer a qualidade que o coloca na distinta lista dos melhores artistas nacionais na actualidade.

Nélia Gilberto e Horácio Guiamba foram terríveis! Na primeira de várias aparições, recuperaram alguns bastidores da cerimónia central do dia da proclamação da independência nacional, no Estádio da Machava, e ainda fizeram da arte uma importante fonte de conhecimento.

– Parece que vamos aprender muito neste espectáculo.

Disse uma mulher de uns 30 anos de idade, que não sabia que a independência moçambicana, ao contrário das expectativas, foi proclamada bem depois das zero horas do dia 25 de Junho de 1975.

– Afinal, “Às zero horas de hoje, 25 de Junho de 1975, o Comité Central da Frelimo proclama, solenemente, a independência total e completa de Moçambique”… Tudo isso é uma mentira?!

Aquela mulher não conseguiu disfarçar o espanto. Para a confortar, o companheiro aproximou os lábios ao ouvido dela e sussurrou algumas frases. O jornalista ali ao lado não ouviu o suficiente para citar o homem calvo nesta crónica. Mas, atento, ainda viu-o morder delicadamente a orelha da mulher.

O que se seguiu, numa representação teatral, foi a projecção cronológica da História de Moçambique, no limiar de uma nova era. Nélia Gilberto, Fernando Macamo, Samuel Nhamatate, Josefina Massango e/ou Horácio Guiamba, suportados por demonstrações audiovisuais, deram voz à azáfama causada pelas nacionalizações, a 24 de Julho de 1976. Nesse momento do espectáculo, nem a mais bela comédia grega seria capaz de recriar o que se passou no país um ano a seguir à independência como o fizeram os actores.

À semelhança dos romances Os narradores da sobrevivência, de Nelson Saúte, ou Nós, os do Macurungo, de Adelino Timóteo, TP50 recuperou histórias hilariantes ocorridas nos prédios das cidades moçambicanas, nos quais os moradores que substituíram os portugueses desterrados, fizeram hortas nas banheiras, partiam parqué para acender lume ou pilavam amendoim no nono andar.

– Mas isso aconteceu, mesmo?! Pilar amendoim no nono andar?!

À pergunta da Alice, adolescente de uns 16 ou 17 anos de idade, Xixel Langa respondeu com música. Na interpretação convicta da cantora, que mais tarde honraria a memória do pai, ao interpretar o tema “Mayvavoo”, visualizou-se o entusiasmo de um povo que, até hoje, ainda tem de aprender o real sentido da cidadania. Toda reluzente e vaidosa, a autora de Inside me imergiu no seu ser e “provou” que já não tem mais nada a “provar” a ninguém. A cantora tornou tudo fácil e, mesmo quando foi interrompida por Horácio Guiamba, num lance ensaiado, manteve o ritmo e a descontracção.

– A Xixel é, definitivamente, uma das melhores intérpretes moçambicanas!

A mulher do homem calvo concluiu que o comentário encerrava mais do que admiração. Contrariada, encarou-o com intensidade, obrigando-o a voltar a dizer alguns sussurros no ouvido. No entanto, dessa vez, não houve mordidela na orelha.

Ao Franco os TP levaram uma narrativa aberta, na qual couberam eventos factuais inerentes aos primeiros anos da tão almejara independência, com recurso às LED colocadas no palco e aos cenários da época reconstruídos com e sem IA.

No espectáculo “Moçambique 50 anos”, uma das cenas mais interessantes teve no palco Nélia Gilberto, Horácio Guiamba e Josefina Massango. Os dois primeiros formam um casal e a decana do teatro moçambicano interpreta o papel de uma velha rural, mãe da dona da casa. A idosa não compreende por que uma enxada não deve estar num apartamento. Contra todas as recomendações do genro, a velha insiste e fica sentada na sala com o seu leal instrumento de trabalho. Não tarda nada até que as más notícias são reportadas num telejornal. Revoltada com o que vê, a idosa (Josefina Massango) precipita-se a usar a enxada para quebrar o televisor, acreditando acabar com o mal.

Intertextualidade

Suspirou aquele homem calvo, sem disfarçar alguma vaidade.

– Como é que é?

Perguntou a mulher.’

– Esta cena da velha quebrar a TV lembra o filme Sangue da vovó, de Gabriel Mondlane.

 – Intertextualidade é isso?

O homem não teve tempo para argumentar. Mal os actores saíram de cena, sensual e cintilante, Thandi Prista apresentou-se em palco para interpretar a música “Dona”, de “Roupa Nova”. Encantada, a pequena cantora pronunciou os célebres versos da banda brasileira: “Não há pedra em teu caminho, não há ondas no teu mar. Não há vento ou tempestade que te empeçam de voar”. E aquela cantora, feito “mulher da criação”, voou como sabe e como quis…

– É minha filha! 

Gritou, toda orgulhosa, uma mulher que até aí ninguém dava importância. Com efeito, Thandi Prista tornou Mafalda Mussengue famosa, ganhando, consequentemente, a consideração de quem, como ela, não se importava nada em ter uma filha nos TP. Há-de ser por ter percebido isso que, no fim da actuação da filha, Mafalda Mussengue levou as mãos ao peito e suspiro de alívio, como quem celebra e agradece…

– Não está a cansar este concerto. Há muitas coisas diversificadas. Além disso, esse figurino dos artistas acaba comigo. Viste os vestidos da Onésia, da Xixel e o dress dos bailarinos? Investiu-se muito nisso e na qualidade dos actores, bailarinos e interpretes. Esse Pauleta também é muito bom! É irmão da Onésia, né?

De tantas observações feitas, a mulher perdeu a piada relacionada às filas de pão marcadas com pedras, nos anos 80. Perguntou ao companheiro, mas este também foi incapaz de recorrer a um Replay. Contentaram-se em ouvir “Katchaça”. Apesar de a letra dos Gémeos Parruque conter uma mensagem adequada ao actual momento político no país, inclusive com lições de democracia, a seguir às peripécias relacionadas à fila de pão, impunha-se a interpretação de “La famba bicha”, de Jeremias Ngoenha, igualmente, com uma dimensão sociopolítica muito actual.

– Esquece lá. Este espectáculo é uma aula! Como é que a arte consegue tecer melhor essa relação histórica entre Moçambique e os países da região mais do que os manuais escolares? E o que dizer dessa frase proferida pelo personagem de Fernando Macamo: “O maior problema de uma nação pobre é que ao invés de produzir riqueza, produz endinheirados”? 

Depois daquela afirmação, o homem calvo abraçou a parceira. Orgulhoso!

Ora, um dos momentos mais altos de “Moçambique 50 anos” foi quando os TP interpretaram a célebre cancão da paz. Êxtase no Franco. Parece que num país com mais empresários do que empresas, ideia de uma personagem, a paz ainda é o bem mais ambicionado.

Foi logo a seguir ao apelo à paz que se viu um dos momentos mais caricatos da noite. Em palco, Josefina Massango e Fernando Macamo. Os seus papéis formam um casal. Um ministro é exonerado pelo Presidente da República e só fica a saber através da mulher, que viu a notícia no Telejornal. O ministro, igualmente empresário, que abriu tantas empresas em nome da esposa, desvaloriza a exoneração e promete usar as suas influências para fazer da esposa uma ministra, pois, assim, ela também poderá abrir empresas em nome dele. No Franco é que a piada teve mesmo muita graça. Só mesmo a cena sobre o terrorismo em Moçambique é que silenciou as gargalhadas.

– Museu da Revolução…

– O quê?

– Este espectáculo é um verdadeiro Museu da Revolução…

Disse o homem calvo, deixando a frase prolongar-se no cérebro da companheira como estratégia para nela despertar a curiosidade.

– O que este espectáculo teria a ver com Museu da Revolução?

– Meu doce de kakana, no extinto Museu da Revolução, não fosse a desvalorização da memória nacional, teríamos os feitos do nosso povo (que culminaram com a independência) e retratados, com certeza, tudo o que Moçambique é nesses 50 anos.

– Parece que diante do desinteresse político a memória colectiva é só uma chama acesa na obra dos artistas.

– Que o diga João Paulo Borges Coelho e, já agora, TP50…

Rendida à incrível prestação dos TP, a mulher de 30 anos humedeceu os lábios carnudos e deu um beijo na careca do companheiro. Depois disso, só lhes coube aceitar que um espectáculo-aula, por melhor que seja, tem hora para terminar.

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