“Paulo Freire, Josué de Castro e dona Iolanda estiveram comigo em Moçambique” – Itamar Nobre

Professor Zeca Alberto Pequenino
Foto: Itamar Nobre

Por: Itamar Nobre –  Professor Doutor do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,  Brasil.

Estive na comunidade de Gigune, em Maxixe, na província de Inhambane, Moçambique. Lá estive com Paulo Freire, nosso memorável e mais renomado educador e pedagogo, considerado patrono da educação brasileira;  Josué de Castro, ativista brasileiro do combate à fome, geógrafo, médico,  e dona Iolanda, uma mulher negra e simples dona de casa. Contudo, uma das pessoas mais importantes que já conheci na vida. 

O cenário foi a Escola Primária Completa, onde crianças olhavam para nós, brasileiros, com olhar de admiração e curiosidade. Mas a admiração não foi somente delas, também fazia parte da minha característica observadora, desde  quando entramos no portão daquele microcosmo, um pequeno reino de seres especiais. Ali se assomou em mim a convicção da minha consanguinidade por parte da mãe África. 

Tudo aconteceu durante a segunda missão de cooperação Brasil-Moçambique, entre o Programa Trilhas Potiguares, |Pró-Reitoria de Extensão, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, a Universidade de Save, de Maxixe, e a Universidade Eduardo Mondlane, de Inhambane. Além de parceiros brasileiros como o Núcleo Rondon, da Universidade Estadual da Bahia – UESC, de Ilhéus; o Projecto UFPE No Meu Quintal, da Universidade Federal de Pernambuco e o Instituto Federal do Pará – IFPA, na primeira quinzena de setembro.

Na primeira sala de aulas onde adentrei me atraiu a forma como um professor é recebido pelos alunos. Ao chegar cumprimentei com um bom dia, cuja resposta  uníssona me impressionou: “bom dia, senhor professor”. Responderam todos ao mesmo tempo, levantando de forma harmonizada e quase sincronizada, permanecendo de pé, somente sentando-se após a minha recomendação. Mas a minha observação se dividiu entre essa sala de aula e a sala onde leccionava o  professor Zeca Alberto Pequenino, para onde me dirigi quando ainda acontecia o intervalo  das aulas. A faixa etária das crianças era de cerca de 12 anos.

O professor não estava na sala, estava comendo o seu lanche. Havia poucas crianças lá dentro, pois a maioria brincava pelo pátio da escola muito amplo, com  muitas árvores, em um dia ensolarado e bem iluminado. A singeleza e precariedade daquela sala de aula me atraiu. Entrei e tão logo, em seguida, o professor chegou ao seu espaço sagrado ainda mastigando. Percebi que atrapalhei o seu lanche. Pedi desculpas, mas para não me constranger, notei isso, ele respondeu que já havia finalizado o seu intervalo. 

Na minha presença o professor Pequenino iniciou a sua aula. Era sobre História. Ele falava sobre a chegada do navegante português, Vasco da Gama, naquele País. Pedi licença a ele para complementar a informação sobre a invasão dos portugueses em outras terras, além da moçambicana, terras que não pertenciam a eles e foram violadas. Falei sobre a colonização portuguesa no Brasil, violenta e genocida como são todos os processos dessa natureza. É certo que utilizei  termos acessíveis para contar sobre a escravização dos africanos nas terras brasileiras. Mas a ideia da minha participação era acentuar a resistência dos escravizados, das formações dos quilombos, seus motivos e finalidades.

Não à toa, eu intencionava falar da dona Iolanda, a minha mãe. Ela era uma mulher negra, nascida em uma comunidade chamada Coqueiros, região produtora de cana de açúcar, no vale do Ceará Mirim, município do Rio Grande do Norte, no Nordeste brasileiro. Coqueiros é um quilombo certificado em 2017. Falei da minha ancestralidade africana e do orgulho de estar ali, me sentindo em casa. O que levou o professor Pequenino a inferir:  “então você é nosso filho e nosso neto“.

  Na continuação da sua aula, atento observei quando caiu um pedaço de giz no chão, cujo tamanho era de cerca de dois centímetros de comprimento.  O professor se abaixou e o pegou para continuar escrevendo na lousa, em um quadro “negro”, como os chamávamos no Brasil há muitos anos atrás.  O seu esforço de escrever com um giz tão curto, de aproveitar cada pedaço, traduzia para mim o valor de se utilizar um instrumento da batalha contra o analfabetismo até o máximo aproveitável, até que essa chaga pudesse ser curada.

Me senti acolhido naquele pequeno forte. Naquela sala de aula  construída com paredes de tábuas envelhecidas, muito espaçadas entre si, completadas com telhas de metal, as quais também compunham  a cobertura. O piso era de cimento já corroído pelo tempo. Embora essa sala possuísse tais características, haviam também salas de alvenaria, espaçosas, mas também bastante desgastadas, em situação precária. Parte das crianças vestiam uniformes com rasgos e bastante usados, mas havia nelas um sorriso e uma alegria que não se mediam. 

Me lembrei da “Campanha de pé no chão também se aprende a ler”, uma acção de educação popular, protagonizada no município de Natal, Rio Grande do Norte entre 1961 e 1964,  durante a gestão do Prefeito Djalma Maranhão. É certo que me lembrei dessa iniciativa em decorrência das minhas leituras e do venerado professor Doutor Willington Germano, pesquisador do tema. Não lembrava por presenciar aquele facto, porque o meu nascimento foi precisamente em 1961. Embora parecesse o Brasil do passado, a data desse momento de vivência foi 11 de setembro de 2025. 

Mas retornemos à narrativa para o professor Zeca Alberto Pequenino, natural da comunidade de Gigune e residente nela. Ele lecciona na escola há 30 anos, mas não só lecciona, ele também zela por ela, varre, lava banheiros, pinta e abre letreiros. Ele, podemos dizer, deve ser considerado em todos os sentidos aquele que zela pela educação dos seus protegidos. Por isso podemos considerar Pequenino como sendo um grande homem, um caráter gigantesco, com uma personalidade invejável. Uma amorosidade professoral pouco percebida, uma resignação  de outro mundo. 

Por certo Paulo Freire, juntamente com alguns Pequeninos transformariam Moçambique. Penso em Pequenino como um ser que planta e colhe diariamente a esperança da cidadania e emancipação social, de uma educação que propicie sair de um cenário caótico, percebido no passado do Brasil por Josué de Castro, em Geografia da fome. Percebido por dona Iolanda, na dura seara de uma dona de casa, quando criava seus 7 filhos, e contava as nossas histórias de precariedade e vulnerabilidade social da família. 

Depois de muita conversa, com muita simplicidade Pequenino agradeceu a nossa visita à sua escola, onde, em outra sala de aula também aconteceu uma discussão sobre desigualdade de gêneros, coordenada pela  Professora Crisalita Funes, da Universidade de Save, em Maxixe. Foi a partir dessa segunda actividade que eu já não me senti mais o mesmo. 

A dimensão na qual submergi parecia paralela àquela na qual eu estava materializado. Foi ao mesmo tempo a da subjetividade de um ser minúsculo, como me senti, diante de tanta expiação suportada por frágeis criaturas acostumadas à escassez e da racionalidade de um algum que um dia provou das dificuldades de uma família pobre, embora não com tanta intensidade, estando na atualidade na condição ´de volver um olhar crítico para essa condição estarrecedora.

Nesse recorte observado, a professora Crisalita Funes, foi a responsável por arquitetar dinâmicas que deixariam Paulo Freire encantado. Ela dividiu a turma em grupos, os quais deveriam preparar uma curta peça teatral para  mostrar o seu cotidiano. Dentre  a turma havia um grupo que escolheu encenar a violência de gênero, expondo o abuso de um pai, diante da vulnerabilidade de uma filha menor. Esse grupo foi liderado por Shisley Alves, uma menina de 12 anos. Havia nessa peça teatral a trágica expressão do supostamente comum. Fui tocado por essa espécie de “naturalidade” com a qual as crianças se desenvolveram tão bem que beirou o real. O real, quando o centro da sua dureza é a criança, dói e atormenta. 

Shirley Alves
Foto: Itamar Nobre

No destaque da peça teatral estava Shisley, com um pedaço de galho na mão, simulando um microfone, com  movimentações parecendo calculadas, discurso coerente, bem argumentados, expressões corporais convincentes e passos precisos. Ela representava uma repórter noticiando uma violação de um pai, tendo como vítima a sua filha pequena. A sua desenvoltura revelou a sua inteligência, e a sua maturidade acima da média. Contou o que aconteceu de maneira impressionante. Não era sensacionalista. Era realista. 

Na trama as personagens eram uma âncora que chamava a repórter ao vivo;  era a criança violada, estando o tempo todo com o rosto encoberto pelas mãos, em sinal de vergonha; era o pai violador,  com o rosto encostado na parede e as mãos para trás como se estivesse algemado.  Havia também a mãe, depondo e defendendo a filha, falando da surpresa de flagrar  o desagradável ato; havia a mulher policial, rigorosa e séria, prendendo o violador e uma platéia curiosa.

Do ensaio para a sala de aula, o momento foi de apresentar os resultados. Foi quando a ofereci o microfone de mão do meu projecto de extensão, o Projeto Comtrilhas, para expusesse a sua peça. Gravei a encenação do início ao fim, sem cortes, totalizando mais de cinco minutos de falas e expressões, pausas no momento certo, uma dramatização que só uma repórter treinada teria tanta facilidade para executar sem um roteiro na sua mão,  sem sequer escrever uma linha e sem ao menos titubear. Confesso que  lacrimejei. Não me contive. 

O contexto daquele espectáculo era muito comovente. E me perguntei: se nesse cenário de pobreza, escassez e precariedade há uma criatura com essa qualidade, o que seria dela em um ambiente favorável para ela? Confesso que o meu encantamento me fez desejar tê-la como filha. Como lembrança, fiz fotos minhas ao seu lado, como se fosse um tietê. Não gostaria de retornar ao Brasil, sem uma recordação.  Saí da sala realmente emocionado, de rosto atravessado para que não percebessem o meu desaguamento. 

Mas a história ainda não terminou. Notando o carinho e o apreço que nasceram  em mim, em tão pouco tempo por aquela menina, a professora Crisalita, sendo tão humanista e sensível como é, preparou uma surpresa para mim: convidou Shisley e a sua mãe para se fazerem presentes na missa organizada pela Congregação da Sagrada Família, parceira da nossa missão de cooperação, momento em que aconteceria uma antecipação da nossa despedida em Maxixe e Inhambane, em Moçambique. Cheguei atrasado para cobrir e fotografar a missa, porque o barco que nos levou para atravessar a baía de Inhambane, e nos trazer de volta retardou a sua partida. 

Ao chegar à igreja  Shisley estava lá com a sua mãe.  Mais uma vez não me contive. Reservadamente a professora Crisalita me entregou uma sacola plástica com algumas guloseimas e uma agenda da Unisave. Entreguei o mimo para ela e conversamos. A minha sensibilidade já não era a mesma em relação ao que eu senti pela manhã,  superdimensionou de tal maneira que eu não conseguia falar com clareza. Após respirar pausadamente me apresentei à mãe de Shisley. Quando eu pensei que estava estabilizado, o emocional reaflorou quando a mesma falou o seu nome: Iolanda, o nome da minha mãe. Percebi que por alguma razão as nossas ligações estavam forjadas. Isso foi real, mas, de fato, parecia uma história de filme, cujo roteiro já estava pronto. Como comunicólogo e documentarista resolvi escrever.  

Escrevi essas linhas no bloco de notas do meu aparelho  celular, meu smartphone, durante o voo de quase 10 horas de Joanesburgo, África do Sul, para Guarulhos, São Paulo, o nosso trajecto Brasil-Moçambique-Brasil. Contudo, ao mentalizar as imagens para convertê-las em texto, parecia que tudo estava acontecendo novamente.  Por isso escrevi com a mesma carga emocional que tive ao conviver poucos momentos naquela escola com Shisley. As luzes do avião estavam apagadas, por bem. Talvez quem me visse de rosto molhado se questionasse: porque um homem de barbas brancas estaria escrevendo no celular, com os olhos lacrimejando? Só eu sei. E agora vocês também.

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