“Temporada de música clássica, uma perspectiva de entoação”- Izidro Dimande
Por: Izidro Dimande
Terminou com os Vagalumes a 2ª série de 2024, da Temporada de Música Clássica em Maputo. Um evento organizado e produzido pela Xiquitsi, grupo de jovens diamantes lapidados que exercem com mestria o tocar de diversos instrumentos musicais.
Em uma perspectiva de entoação, no contexto musical, a entoação é utilizada para enfatizar ritmo e melodia, criando efeitos estéticos ou emocionais específicos, ou ainda, a forma respeitada ao tom ou de se perceber a afinação, do canto instrumentalizado, e não outra significação contrária à esta crítica. É um projecto que já levou para o estrangeiro seus membros, que mais se destacaram, para o ensino da musicologia. Nesta 2ª série emocionante e com perspectiva, foi servida em 4 tons musicais, nos dias 16, 17, 18 e 22 de agosto.
Um evento de gerações, demonstrando o seu espaço no gênero pouco apresentado nos nossos palcos e para a maioria, como foi possível verificar nos concertos a noite fora de série. A sala da Biblioteca Nacional ficou lotada, levando alguns a assistir em pé.
Dois sem o custo do bilhete, despertou na organização, a continuidade de mais séries (talvez 4 anuais) porque a geração de coetâneos esteve presente, viram a diversidade de instrumentos, recordam-se das aulas de músicas no sistema de ensino privado, executadas com prosperidade na continuidade de futuros instrumentistas, coristas, pianistas, violinistas ou outra.
As crianças do ensino público, acompanhadas dos seus pais, estiveram nas duas secções e aproveitaram questionar, a ausência da música clássica nacional, no actual sistema educacional insano. Os adultos cépticos e cheios de respostas não públicas vergaram nos olhos as suas tristezas.
Calaram-se nas palmas e vénias da banda Xiquitsi na noite clássica de abertura no centro chinês, (tocando Felix Mendelssohn Bartholdy – Quarteto para cordas nº 2, em Lá menor Opus 13 – composto em 1827, quando Mendelssohn tinha apenas 18 anos. Esse quarteto é uma das obras-primas do jovem compositor e demonstra sua profundidade emocional e técnica, influenciada pela música de Beethoven; Este quarteto de F. Mendelsssohn tocado pelo Xiquitsi, está dividido em 4 partes ou movimentos como escutamos na noite silenciosa do auditório pequeno.
O Quarteto para Cordas nº 2 de Mendelssohn é uma das peças fundamentais do repertório do quarteto de cordas, e é muito admirado por sua beleza melódica, inovação formal e o equilíbrio entre tradição e modernidade. De seguida, tocaram Dmitri. Shostakovich, Quarteto para cordas nº 8 em Dó menor – dividido em cinco movimentos, é uma das obras mais poderosas e introspectivas do compositor russo. Composto em julho de 1960, é o quarteto mais famoso de Shostakovich e muitas vezes considerado uma de suas obras-primas.
Este quarteto é profundamente pessoal e repleto de significados autobiográficos e históricos, refletindo o tumulto político e emocional que o compositor vivia na época. Para a historiografia musical, este quarteto é importante, à sua combinação de intensidade emocional, complexidade formal e simbolismo pessoal que fazem dele uma peça fundamental no repertório de música de câmara do século XX.
Ele é frequentemente executado e continua a ressoar com novos públicos, tanto por sua beleza musical quanto por sua representação da luta interna do compositor contra a repressão e o sofrimento. Na terceira entoação, ouvimos Telmo Marque em Contrafacção Folclórica.
No contexto do folclore, “contrafacção folclórica” pode indicar uma recriação ou estilização de elementos folclóricos que podem não ser genuínos ou autênticos em termos tradicionais. Não sei ao certo, em que termo Telmo Marques a usa, mas foi possível nas entoações: Cantiga das Malhadas, Niñas vamos el Bira e Chula – Naquele lado D’el Río, perceber a significação de contrafacção folclórica, para designar canções populares, de uma época de colheita e abundância.
No dia seguinte, no mesmo espaço, Xiquitsi esbofeteia-nos os nossos ouvidos com Heitor Villa-Lobos – Bachianas Brasileiras nº 9 – composta em 1945, a última peça da famosa série Bachianas Brasileiras, que homenageia Johann Sebastian Bach enquanto incorpora elementos da música popular e folclórica brasileira.
Esta série é uma síntese do estilo barroco de Bach e a riqueza rítmica e melódica da música do Brasil. Não é por acaso que o Xiquitsi compôs dois movimentos (o Prelúdio Vagaroso e místico e a Fuga), notáveis pela simplicidade de sua forma, o compositor buscou unir a tradição europeia da música barroca com as sonoridades do Brasil rural, criando uma fusão única que expressa tanto suas influências eruditas quanto sua sensibilidade às culturas populares brasileiras.
Em continuidade as músicas de Felix Mendelssohn Bartholdy – Sinfonia para cordas em Mi Benol Maior – escrita por este compositor quando tinha entre os 12 e 14 anos, demonstrando seu domínio precoce da forma sinfônica e sua sensibilidade ao estilo clássico, influenciada por compositores como Haydn e Mozart.
Esta sinfonia, se destaca por sua energia, elegância e forma concisa, características que continuam a fazer dela uma obra frequentemente executada em concertos de música de câmara, celebrando a genialidade precoce de Mendelssohn.
Após o intervalo, a série deu-nos o privilégio e a perspectiva esperada por uns e por outros, ouvir Franz Schubert (Rondó em Lá Menor, D 438), compositor fundamental na transição do Classicismo para o Romantismo na música. Sua vasta produção inclui mais de 600 canções, 9 sinfonias, 21 quartetos de cordas, e muitas outras obras em uma carreira que se destacou pela profundidade emocional e inovação. F. Schubert teve uma carreira breve, mas sua música continua a ter um impacto duradouro e significativo. Suas obras são frequentemente executadas e celebradas por sua profundidade emocional, beleza e inovação.
O Rondó em Lá menor, D. 438 é uma obra que exemplifica o talento precoce de Schubert e seu desenvolvimento como compositor. Embora não seja uma das suas peças mais famosas, ela oferece uma visão valiosa de suas habilidades técnicas e expressivas em um estágio inicial de sua carreira.
A noite serena e com o corpo hirto de emoções, o zênite estrelar, casados e curiosos saíram do auditório pequeno, recordavam notas acima descritas, com perspectivas de dias contínuos de música clássica no solo maputense, escutamos Benjamin Britten – symphony, opus 4. Esta sinfonia foi uma das primeiras obras importantes do compositor britânico e foi escrita em 1934. É frequentemente referida como sua Primeira Sinfonia e marca um ponto significativo no início de sua carreira como compositor. A sinfonia foi escrita enquanto Britten estava estudando com Frank Bridge e ainda era um jovem compositor em desenvolvimento. Apresentada em quatro movimentos, carregadas de serenidade e tristeza no exílio do movimento dos integrantes da banda Xiquitsi.
Emocionalmente a música derrama lágrimas significativas dos vários momentos que ocorrem no momento de escuta e foi assim, que pude perceber o conceito e concerto de música clássica.
No Concerto Para Pais e Filhos, houve a repetição dos compositores, Mendelsson, H. Villa-Lobo, Benjamim, tocando-se outras sinfonias numéricas, destaque neste dia dou a Antonio Vivaldi – Concerto para dois violinos em Sol menor, RV 531 – uma obra notável dentro do repertório de concertos para violino do compositor barroco italiano.
Composta por volta de 1720, esta peça é um excelente exemplo da habilidade de Vivaldi em explorar as possibilidades expressivas e virtuosísticas dos violinos. A peça exemplifica a habilidade de Vivaldi em explorar as possibilidades do diálogo entre solistas e orquestra, oferecendo uma rica experiência musical tanto para os intérpretes quanto para o público.
Este concerto para crianças o Xiquitsi apresentou aos coetâneos o Khanyile Dimande, violoncelo (violoncelista), 13 anos, com larga experiência na banda Xiquitsi, foi o espelho de gerações presentes, levando imagens conjuntas no fim do evento para os quadros de fotos digitais.
Do Quarteto de Matosinhos, intérpretes de clássicos como Vivaldi, Villa Lobos, Britten, fecharam-se na promessa contínua de levar não só as crianças, mas sim, os adultos, jovens e adolescentes próximos, para assistirem a 3ª série da Temporada de Música Clássica.
O Quarteto de Matosinhos, com base na cidade de Matosinhos, Portugal, o grupo tem se destacado por suas performances de alta qualidade e sua dedicação ao repertório de quarteto de cordas, fundado em 1996, tem um repertório diversificado.
Eles frequentemente encomendam e estreiam novas composições, contribuindo para o desenvolvimento do repertório moderno para quarteto de cordas. Tem uma discografia que inclui gravações de obras clássicas e contemporâneas, muitas das quais têm sido bem recebidas pela crítica. Estão envolvidos em actividades educativas e de divulgação, oferecendo masterclasses e workshops para jovens músicos e estudantes de música.
O grupo tem ajudado a elevar o perfil da música clássica em Portugal e a promover a cultura musical portuguesa em um contexto internacional.
A música clássica é tocada com vários instrumentos e dá este privilégio interpretativo, uma música com pouca voz, facto que pode levar poucos ouvidos aos palcos. É um silêncio, uma mensagem instrumentalizada, uma música que se estuda para ouvir? Antes o ouvinte deve treinar seus tímpanos (nome que leva também um instrumento musical) e fazer uma auscultação ao sistema auditivo.
Em Noite Fora de Série, ouvimos o fim de uma série esperada. Os Vagalumes, um conjunto de diferentes origens, estiveram no palco, apresentando 12 entoações musicais clássicas e misturadas de ritmos. Foi agradável o texto de Fernando Pessoa, ouvir a abertura com AGORA.
Seguida de PAZ de Alfosinho Stoni e terminando com Bolas de Sabão. As músicas foram interpretadas por uma dócil voz feminina da holandesa Sylvie Klijn. As letras e poemas, baseiam-se em criações inspiradas de poetas, escritores e músicos (Fernando Pessoa, Caetano Veloso, Pablo Neruda, Jaime Silva, Florbela Espanca, Tom Jobim), o trio deu vida ao jazz latino poético.











