40 anos de carreira de Stewart Sukuma festejados em chuvas de alegria
Por: Izidro Dimande
Foram 30 músicas cantadas. Foi uma aprovação possível para as mais de 4h30 meias em palco. Foi mais que um treino. Foi uma boa realização. Com o apoio que vai já há cinco anos do Mozabanco, realizou-se o espectáculo, para os presentes, para os ausentes e para os incapacitados, diz Stewart Sukuma que há um rio provocado pelas chuvas que caíram há dias, que impediu as pessoas de viverem, cantou para estas pessoas.
‘’Nós temos a obrigação de resolver os problemas causados pela natureza, porque nós vivemos no mesmo país que os que sofrem. O problema de um, é um problema nosso. E nós é que temos que resolver, todos juntos. E tirar este país da verdadeira pobreza. A educacional. Nós precisamos fazer isso. Conto com cada um de vocês. Não deixemos de estudar. Porque para ser bom músico, também precisamos saber muitas coisas. Precisamos ter cultura geral, para fazer boas letras, para escolher bons temas. Precisamos saber usar um instrumento. Mas, acima de tudo, dedicarmo-nos, praticarmos muito.’’ Stewart Sukuma fala do seu talento como sendo uma percentagem pequena para o sucesso que, hoje, carrega, a maior parte é aquela em que as pessoas têm, partilham, colaboram, e surge de um trabalho imenso ao esplendor.
Não se pode chegar aos 40 anos ou mais de carreira sem um trabalho, feito com dedicação e esforço. O concerto dos 40 anos de Stewart Sukuma e Banda Nkuvu, realizou-se debaixo de uma chuva, abençoada, como afirma a gíria popular. Uma chuva que não impediu as várias almas de se afastarem do recinto do Porto de Maputo, um temporal de amor, um cantar debaixo da chuva para lavar os males da vida, a chuva trouxe prosperidades, uma chuva misturada em lágrimas de emoções, a gente mira no amor e acerta na solidão, como escreve Ana Suy.
Caía a chuva, ora parava a chuva, o público mantinha-se, retiravam as capas de chuva e fechavam os guarda-chuvas, aplaudiam as duplas, assobiavam de satisfação, cantavam, voltava a chuva e voltam as vestes de protecção. Em luzes de fresh, os celulares à prova de água iluminavam o cenário, as máquinas fotográficas tiravam imagem para a prosperidade. Os homens da Vv em estatueta, molhavam o dorso, gemiam de uma leve briza fria, hirtos, captavam cenas e actos para o ecrã gigante do espectáculo. A equipa da Top Produções foi exímia, debaixo daquela chuva de horas, continuamos a ouvir o som na mesma afinação, os instrumentos colocados em vários cantos do palco, tocados com mestrias, um trabalho de equipa que conseguiu colocar o espectáculo em ‘’pé’’, para que os demais possam continuar a exaltar bem alto o nome e o coro das várias músicas cantadas, ao respeito do público molhado.

O espectáculo de celebração da carreira de Stewart Sukuma contou com músicos não anunciados, uma estratégia de marketing perfeita. Músicos que não arredaram o pé para outras agendas, cantaram uma música, permaneceram no evento, para um fim em apoteose. Uma final contagiante e alegre de rever em outras latitudes. Foi nestas apresentações sem anúncio que o público ficou em arrepios, ver e rever seus ídolos naquele palco, deixou-os com esperanças. E isso, soube a produção fazer. Gritavam de euforia na guitarra de Nelton Miranda, na voz aguda de Xixel Langa, no mezzo da Sizaquel Matlombe, ficamos atônitos ao soprano da Lena Bahule. As mulheres, sem pausa, ficaram loucas com a entrada triunfal de Deodato Siquir, a quem molhou-se quando o rapper K9 saltou ao palco. A chuva deixou de ser a culpada. Foi incrível. Um elenco acompanhado pelas crianças do coro da Escola Portuguesa, àquela hora da noite, foi o triunfo. Em passos alternados de chassé com Lock Step, a bailarina Emelva Dine encantava-nos, excitava-nos os olhos para uma aprendizagem, calculava cada minuto para uma pirueta, ou para um suzy Q. Uma bailarina que a memória roubou-me o nome, fez companhia em algumas coreografias tradicionais em músicas próprias de uma planificação, com vestes alternados, a mulher Meny (Emelva Dine) como é coreograficamente chamada, deixou de existir no cisne negro do bailado. Os artistas portaram-se muito bem, as pessoas vibraram, gostaram. Os três principais momentos que mais marcaram o palco dos 40 anos de carreira de Stewart Sukuma, foi o início do espetáculo. A chuva. Onde cai chuva, e as pessoas não se vão embora, não há argumentos. O videoclipe que abre a cena do espectáculo alterou nossa percepção sobre o trabalho profissional da produção. A música da paz, para lembrar as pessoas que nós estamos e somos solidários com os que sofrem com a guerra, que sofrem com as mudanças climáticas. Foi muito importante para as pessoas aprenderem como viver. Este é o único planeta que nós temos.

O plano B dos 40 anos de carreira de Stewart Sukuma
Não há um planeta B. Mas nós podemos ter um plano B. Para quem não conseguiu estar naquela magnífica festa musical, a produção produziu e vendeu no local e outros fora, CD e pen drive, contendo os concertos de carreira, para este em específico, está patente nas plataformas digitais. Na emoção da noite, Stewart Sukuma cogita a ideia do espetáculo ‘’dava para fazer um documentário. Mas apresentar uma história. Um espetáculo dentro de uma história.‘’ Neste plano, as vendas dos CD e das Pen drives são revertidas as causas que abraça, o contributo à melhoria de uma educação, os esforços para as vítimas das calamidades, os refugiados das guerras, o combate a casamentos prematuros e a protecção da rapariga e mulher. São estes aspectos pequenos que constroem a figura ícone do músico.
Para onde foram parte das doações do show dos 40 anos de carreira de Stewart Sukuna
Para uma instituição importante, a Associação dos Bons Sinais, gerida pelo António Barros, com sede em Quelimane, é uma associação sem fins lucrativos, que tem por objectivo Identificar, Reabilitar e Requalificar, monumentos históricos na província da Zambézia. É uma associação que engloba pessoas de todos os partidos políticos, que engloba pessoas de todas as religiões. A primeira actividade da associação foi reabilitar a Velha Catedral. O terceiro monumento histórico foi construído em Moçambique, em 1776. Em 1975 foi abandonado, porque foi construída a Nova Catedral e o edifício ficou a ‘’Deus dará’’. O local virou um antro de bandidos, latrina pública da cidade, roubaram os sinos, partiram os vitrais, tiraram tudo que era possível tirar. Quando a cidade de Quelimane fez 75 anos, um grupo de amigos, cerca de 60 pessoas vindas de Portugal passeando pela cidade, viram o monumento, que foi considerado monumento histórico em 1946, estava em total ruína. ‘’E nós dissemos, os nossos pais foram baptizados aqui. Os nossos pais casaram aqui. Muitos de nós fomos baptizados e crismados aqui. E nós temos a responsabilidade moral de fazermos qualquer coisa para recuperar isto’’. Disse António Barros emocionalmente. E fizeram as chamadas, a solicitação mundial, conseguiram amealhar fundos sem apoio das grandes marcas industriais moçambicanas, sem os bancos usarem parte das suas responsabilidades. Foi a partir de Maputo que surgiu o primeiro mealheiro, em um evento de caridade com mais de 300 amigos e naturais de Quelimane, do leilão inicial surgiu 900.000,00 mt. E pegando no poema do António Gedeão, o grande poeta português que diz que quando o homem sonha, o mundo pula e avança, a Associação dos Bons Sinais conseguiu.
Conseguiu e valeu o apoio incondicional de Luis Pereira, que trouxe da Associação dos Amigos de Moçambique em Macau, uma doação substancial para chegar-se aos 500 mil dolares. Mealheiro à mealheiro, construção à construção, a Catedral ficou pronta, hoje é tem um centro cultural a parte, local apoiado pelas acções do Stewart Sukuma. Local onde várias gerações poderão passear a classe musical e de representações diversas da cultural, vender objectos de adorno, vestuário tradicional, saraus culturais e de leitura colectiva ou individual, um centro. A Catedral agora é um centro cultural, chama-se Centro Cultural de Bons Sinais. De Portugal foi possível, graças a promessa do Presidente de Portugal com quem foram ter, a possibilidade de consultarem os arquivos da Torre do Tombo, o arquivo do Ultramar e o arquivo de Braga, para que toda a história do Vale Do Zambeze esteja patente nas vitrinas do Centro Cultural dos Bons Sinais, onde Stewart Sukuma tem como proposta ser nomeado embaixador da Associação dos Bons Sinais.
Em Maio no Bushfire
Em termos de repertório, Stewart Sukuma e Banda Nkuvu vão escolher as melhores músicas para o FESTIVAL BUSHFIRE 2024, com cerca de 50 minutos em palco, espera-se uma apresentação nunca realizada, algo acima dos vários concertos realizados, porque é mais uma plataforma de apresentação mundial aos outros festivais. Uma oportunidade que Stewart deseja aproveitar com sabedoria e conquistas, tendo dito ‘’a consistência do músico, vê-se no decorrer do espetáculo. E neste espetáculo notou-se muito. Que ainda precisamos de mais trabalho. Não é trabalho para tocar melhor, não. É trabalho para aguentar a pressão. Um espetáculo de 3, 4, 5 horas seguidas sem parar, causa nas pessoas algo exotico. Então, eu acho que isso hoje foi uma boa preparação. Mas ainda bem que fizemos este espetáculo em casa.’’ No FESTIVAL BUSHFIRE, Stewart Sukuma, não vai ‘’tentar’’ encantar as várias etnias, vai sim, demonstrar porque ser considerado o melhor e maior músico de África, de Moçambique e do mundo. Vai impressionar os empresários e agentes presentes para futuras apresentações com banda. Demonstrar o potencial que Moçambique tem na arte de cantar e encantar.
40 anos de carreira de um artista carismático
O conceito de carismo já nos remete a classificação deste músico, com os parceiros foi possível escalar diferentes cantos de Moçambique e mostrar a sua música, a beleza da cultura e tudo o que influencia uma carreira inspirada no cotidiano dos moçambicanos. Acima de tudo, dar de volta essa inspiração toda à sociedade, que Stewart Sukuma busca e canta, discutindo sem dúvidas vários temas importantes através da arte. Um marco relevante ao longo destas celebrações dos 40 anos foi o lançamento do livro o Alfaiate e a arte de costurar o amor, prefaciado e apresentado por José Eduardo Agualusa. Foi a estreia de Stewart Sukuma como escritor. Platão acreditava que a música tem o poder de influenciar a formação da alma de uma pessoa. Esta influência criou na pessoa de Luís Pereira uma figura carismática, usando metade da sua vida para causar impactos positivos, através de mensagens e ritmos. Luís, proveniente de uma família modesta, iniciou o gosto pela música ainda na infância. Hoje seu nome artístico é Stewart Sukuma, nascido em 1963, o cantor, escolheu ser chamado de Sukuma porque significa “levantar-se” em Xitsonga e “empurrar” em suaíli. Stewart Sukuma levantou e empurrou-nos para festejarmos o seu sucesso de 40 anos de carreira, uma demonstração que teve início à meses pelo país, pelas participações estrangeiras, pelos trabalhos sociais desempenhados em sua pátria amada e em especial a província da Zambézia, seu adorno para à vida em lazer e confraternização. Facto que lhe marcou a atribuição do Prémio Personalidade Cultural do Ano, 2008 e 2012, da maior parada de sucesso de música moçambicana o Ngoma, recebeu prémios de Canção Popular do Ano, em 1994, com a música “Julieta”, Melhor Canção do Ano, em 1996, com “Afrikiti”, Canção Popular do Ano, em 2008, Canção Popular do Ano, em 2010. Cidadão honorário de Quelimane, um reconhecimento importante atribuído pelo Conselho Autárquico de Quelimane, pela sua contribuição para a valorização da cultura e preservação. A paz é a nossa cultura. É um movimento lançado em parceria com a Secretaria Técnica de Apoio a Moçambique, no processo TDR, reunindo diversos artistas nacionais, fazendo da música, da arte, uma forma importante de salvaguardar a paz. Este movimento não consistiu apenas em lançar uma simples música, um simples videoclipe. É um movimento de activismo, um activismo que advoga valores importantes sobre a manutenção da paz no nosso país. Envolvendo vários artistas, músicos, profissionais de outras áreas importantes do sector criativo. Outro projecto de parcerias é Chuva de Afectos, nasceu de uma parceria com a Sociedade de Desenvolvimento do Porto, o MPDC, e o Espaço Galeria, em 2023, visando apoiar as dezenas de famílias vítimas de inundações na província de Maputo.

Stewart Sukuma é um artista que nasceu em Moçambique e tornou-se um filho dos Palcos do Mundo, com passagem por Linz, na Áustria, São Paulo, Brasil, Zanzibar, Tanzânia, a mostrar a sua música. Um músico que esgotou a bilheteria no Sesc Pompeia Jazz Festival, na sua última aparição no Brasil, na cidade de São Paulo. Recebeu reconhecimento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, como campeão dos direitos humanos para as Nações Unidas. Nomeado embaixador do projecto, o Nosso Futuro Brilhante, que promove o acesso ao ensino bilíngue e também ao acesso à alimentação escolar sustentável, um projecto lançado pelo Stewart Sukuma. Participou na produção da música Planet Resolution, um hino pelo meio ambiente, que clama por esta participação colectiva para a preservação do meio ambiente, uma luta universal, uma luta de todos. Para finalizar os 40 anos de carreira, Sukuma apresenta-nos o Let’s Party, um regresso dos anos 70, a vibração, o calor de Lourenço Marques, uma cidade em desenvolvimento social e cultural livre da exploração, nesta música – Let’s Party – somos convidados à dança, mas também à preservação da história de Lourenço Marques, a história de Maputo, a história de Moçambique e essa geração toda que ficou marcada por esses tempos. Do Ezamany Kim’bediwa, que é também um regresso às origens marca a apresentação à tradição que sempre foi um lugar importante, um porto onde sempre desaguou a arte de Stewart Sukuma, Ezamany Kim’bediwa é essa revisitação da tradição e da cultura. É um convite aos mortos para explicarem aos vivos aspectos tradicionais.
INÍCIO DE UMA CARREIRA CHEIA DE SUCESSOS
Os artistas são egoístas, nós compomos, escrevemos na solidão. In Stewart Sukuma. Foi empurrado para Maputo, em 1977, onde aprendeu a tocar percussão, guitarra e piano e, em 1982, começa a cantar numa banda. O seu primeiro trabalho discográfico foi gravado, em 1983, pela Rádio Moçambique. Nesse mesmo ano, recebeu o Prémio Ngoma para Melhor Intérprete Nacional. Rapidamente, tornou-se num músico popular, ouvido nas estações de rádios moçambicanas. Sobre a sua trajetória, há dados de 1987, onde gravou o álbum Independência com a Orchestra Marrabenta Star de Moçambique. Tendo realizado vários concertos pela Europa, como o Festival de Berlim, em Londres, no Hackney Empire, na Finlândia, na Noruega, na Dinamarca, Suécia, Holanda, entre outros. Pelo facto de ser um músico com bastante sucesso e dedicação à música, às causas, a dignidade humana, um músico que empresta sua beleza pelas passarelas da moda e dos ecrãs publicitários, valeu-lhe participações com outros artistas, tal como Bhundu Boys, Mark Knopler, Youssou N’Dour, Miriam Makeba e Hugh Masekela. De nacionais, várias participações perdem-se na sua discografia, Lena Bahule, Xixel Langa, Deodato Siquir, K9, Otis, Valter Mabas, uma lista de mais de 40 anos de canto e dança. Deixou a sua pátria amada em 1995, para viver na África do Sul, onde produziu o álbum “Afrikiti”, juntamente com outros músicos moçambicanos e sul-africanos. A sua música conjuga ritmos africanos, brasileiros e da música pop. Além de cantar em português, Stewart Sukuma encanta-nos com um inglês perfeito na sonorização, usa línguas tradicionais das províncias de Moçambique. Diz-se ser de todas elas o dom de interpretar factos, aspectos, hábitos e costumes tradicionais, através do canto musical. Em 1998, vai para os Estados Unidos da América estudar no Berklee College of Music, em Boston, tornando-se no primeiro moçambicano a estudar nessa escola. Nesse mesmo ano, ganhou o Prémio de Música da UNESCO, em Moçambique. Em junho de 1998, realizou três concertos na EXPO’98, em Lisboa, e actuou no Houston International Festival, no Texas, em 1999, juntamente com outros artistas, como Angeline Kidjo, Abdullah Ibrahim, Oumou Sangare e Hugh Masekela. A 26 de abril de 2016, foi feito Oficial da Ordem do Mérito de Portugal, aquando da visita do Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, a Moçambique.
Stewart Sukuma e Banda Nkuvu a Caminho De Mais Anos De Carreira
‘’Nós conseguimos comunicar com o público à nossa frente, temos um bocadinho de maior facilidade. Eu iria até dizer que somos comunicadores naturais. Então gostaria de vos agradecer que sem um encontro sequer, sem eu ter que convencer-vos que o trabalho que nós estamos a fazer é genuíno e é mesmo para ajudar as pessoas, vocês meteram-se nesta plenitude com amor, reciprocidade e autenticidade.’’











