Por que artistas continuam a vender CDs físicos?
Numa era em que o streaming musical já é realidade em Moçambique, ainda é normal ver artistas que optam por lançamento presencial dos seus trabalhos musicais, neste caso álbum físico, e a pergunta que muitos tem se feito é: por que os artistas continuam a gastar dinheiro com isso?
Streaming de música é uma tecnologia que permite que os utilizadores ouçam música pela internet, sem a necessidade de comprar faixas individuais ou álbuns completos.
A questão nem é mesmo pelo gasto em si. Contam-se actualmente as pessoas com leitores de CDs, se não as pessoas que têm um carro com essa possibilidade. Quase que ninguém utiliza esses leitores hoje em dia, foi tudo substituído pelo streaming, pelos JBL (caixas de som) que recebem os sons via conexão sem fio (Bluetooth), uso do flash. São estes factores que fazem com que nos perguntemos, porque tanto gasto?
Bem, para compreender este cenário, precisamos também saber quanto um artista ganha com a produção de um álbum no formato físico. Num CD, com mais de cinco faixas, dependendo da empresa que cuidou da produção do trabalho, o artista pode lucrar de 200 a 300 meticais para cada CD vendido, a assumir quanto vai custar a introdução de cada música e quanto maior for a quantidade mais desce o preço da sua concepção.
E quanto vale a reprodução no Spotify e na Apple Music ?
Spotify e Apple Music são as principais plataformas de streaming musical utilizadas, tanto a nível mundial como em Moçambique. São essas plataformas que nos fazem questionar por que o artista não lança apenas nelas (no digital), onde pode ganhar sem envolver custos de operação?
Os custos de operação podem ser descritos como a produção física do álbum, aluguel de um espaço para a venda e a concepção de material promocional (estampagem de camisetas, impressão de banners, etc.).
Olhando sob essa perspectiva, é claro que há um custo envolvido no lançamento físico de um CD. No entanto, será que os artistas moçambicanos são realmente bem pagos por essas plataformas? Até agora, pouco se sabe sobre quanto os artistas têm recebido dessas plataformas. Além disso, na lista dos seus amigos, quantos têm conta paga no Spotify ou Apple Music? Deve-se contar nos dedos.
Do que é público, os artistas são pagos pelas plataformas a cada reprodução que suas músicas recebem, mas possivelmente apenas pelas reproduções feitas por contas pagas. Se na sua lista de amigos, conta-se aqueles que pagam por esses serviços, quanto você acha que esses artistas recebem?
Outro ponto é que a pirataria está também presente na Internet e tem sido um dos motivos pelos quais ainda não se tem muitos utilizadores do Spotify em Moçambique, pois ainda é possível fazer o download dos álbuns e escutar sem pagar nada.
Então, é bem melhor lançar os álbuns fisicamente? Não sei!
Na história da música moçambicana, ninguém conseguiu lucrar significativamente com a venda de CDs, nem mesmo o cantor Ivo Mahel, que inovou com a venda direta de mão em mão, numa época em que ainda tínhamos DVDs (leitores de CD). Ninguém lucrou porque durante o auge do uso desses leitores, a pirataria prejudicava os artistas, e os lucros de seus trabalhos nunca alcançavam seus bolsos, sendo que muitas vezes terminava com os pirateadores que vendiam as suas músicas por 25 a 30 meticais.
Não se trata sempre apenas do lucro, mas sim da realização de um sonho. O lançamento de um CD é um marco para os artistas, representando uma auto realização enquanto criadores de arte. A venda e a sessão de autógrafos tornam-se os únicos momentos em que o artista se conecta fisicamente com o seu público.
Nem sempre um CD é adquirido para ser utilizado como deveria (para reprodução). Algumas pessoas compram como colecionadores puros e sentem satisfação nisso, considerando-se contribuintes para a cultura em geral, como também uma expressão de pura gratidão ao artista pela sua arte.
Outro exemplo é a impressão de fotografias, uma prática que foi ultrapassada, mas que ainda é realizada por alguns, pois as fotos em formato físico ganham uma importância e emoção diferentes. Uma foto que está no seu telemóvel, ao ser colocada numa moldura física, passa a ter um outro significado.








