“Que mal farias se mais um ano ficasses connosco ó Chico” – Izidro Dimande 

Foto: Emidio Josine

Por: Izidro Dimande 

A tua voz e guitarra acompanhada do seu amor peculiar, deixaram um vazio neste país a partir do último sábado 13 de janeiro, todos os males que uma noite carrega, ficaram preciosos na nossa alma. Uma noite sem lua, sem estrelas, é uma escuridão.

E foste Chico, e deixaste uma parte de si. Vamos ficar bem um dia, precisamos desse tempo ó amigo Chico. O studio BOM DIA de Inhambane onde no período inicial da COVID, foi o último recanto profissional do Chico, gravações em cima de gravações, para um projecto discográfico seu de músicas e instrumentos tradicionais estudados e aperfeiçoados para uma nova geração de ouvintes e amantes possam deliciar-se, chegará a nós um dia, antes de partirmos. 

Ó Chico, a sua abertura e pensamento de uma comunidade harmónica viveremos com ela, em sua honra, o povo contará e cantará seus êxitos dia após dia, de glórias e tristezas. A sua fuga de casa ainda criança de 6 anos, de Magude à Maputo, “Essa migração de corpo e alma aconteceu literalmente: o pequeno Chico passou a viver na rua. Foi criança de rua durante dois anos. A rua não é lugar para crianças. 

E Chico António inventou, dentro da rua, um lugar onde fosse criança. Até que foi preso pela polícia de segurança pública do regime colonial. Prenderam-lhe o corpo. Não lhe aprisionaram a alma: nas ruas onde viveu, Chico António aprendeu a criar as suas próprias regras“, in TP50 (António Prista). Criaram a imagem que foste, preço pela polícia e aprisionado viveste na carne e na alma a desumanidade da prisão. 

Adotado aos 8 anos pela senhora Leonila dos Santos e seu marido José Ferreira do Santos, Chico, na sua teimosia educacional passaste a viver em centro de acolhimento (aos cuidados da Missão de São José onde cresceu até ir para o Khovo Lar e mais uma vez, o jovem Chico teve que inventar um mundo onde ele descobrisse a sua própria alma migratória. A música tornou-se um modo de ele contar as duras, mas férteis vivências da sua atribulada infância e adolescência, ibidem), graças a família adotiva, tocaste e cantaste melodias criadas pelo seu dom de músico ainda que na idade dinamavam-se. 

Sem qualquer condescendência com modas, sem qualquer compromisso comercial nem facilidade para agradar, os seus temas musicais permanecem dentro dele, numa longa gestação. Ao contrário do que lhe aconteceu, as suas composições têm longas infâncias. Mesmo nos momentos de mais dificuldade, o músico não cede. A sua obra tem essa verdade: são a casa que lhe faltou enquanto criança. 

As letras chegam depois. As palavras são convocadas pela música. Como se fossem tradutoras de uma primeira e mais antiga linguagem. E hoje a casa de Chico António alberga todos os que lá quiserem morar. O espaço doméstico que devia ser privado é transformado num espaço comunitário. Essa generosidade sem fronteira custou ao Chico alguns dissabores. Mas a música não prescinde desse partilhar das suas paredes. Como se estivesse reparando o tempo em que sobreviveu na rua ou num lar para crianças. No peito do Chico António batem mil tambores. E nós cantamos e dançamos nessa sua casa que não tem fronteira. A música é o compasso da vida. E ele, Chico António, recebe-nos à porta dessa sua casa para nos convidar a entrar na alma da música.” Ibidem.

Chico convidou-nos e entrou em sua casa sem nunca se desviar de nada, olhava a vida em sociedade como a arma para o bem desejado, não era de politiquices desportivas, por isso viverá como nosso herói. Um homem de carácter simples, inteligente, amigo dos seus amigos e com capacidades para partilhar com os demais o que melhor existe em seu redor. Parte num reencontro repleto de amor para se juntar a Ana, sua única esposa e mãe dos seus filhos. Nos anos de guerra civil, Chico percorreu quilómetros no transporte público a caminho de Inhambane para enterrar seu pai. 

Na aldeia, Chico, na calada da noite silenciosa, começa a tocar melodias, enquanto suava um ritmo do batuque, seus familiares na admiração da vida, juntaram-se em coro pela alegria do morto que partiu com o espírito livre e alegre. Na verdade Chico nunca se zangou, seja com o que fosse, era um homem profundo com privilégios na família: sua música era para não se vender, dar de oferta o baila Maria e outros êxitos a uma sociedade culta. 

Foi solista, trompetista, fê-lo pelo prazer de aprender o que lhe valeu aparições em vários grupos musicais e uma bolsa de estudo para França, em musicologia. Seu sucesso fez-lhe chegar distante, num universo de culturas e gostos. Na Rádio Moçambique, Chico foi um contador de histórias magistrais, suas narrativas eram melodias que comunicavam mundos. 

Seu instrumento era uma intenção da sua alma, pelas confidências do seu filho carregando-o pelo seu ombro, olhava nu a noctura noite fria, contava estórias do vovô: somos o que moldamos do passado, somos um reflexo dos nossos pais e passamos o conhecimento para nossos netos, a vida é assim meu filho. Sua escola de ensino musical em Marracuene ficará no graúdo da terra a espera de continuidade, esperamos só Chico, que seu sonho de ensinar crianças a tocar instrumentos musicais tradicionais não morra consigo.

Vamos celebrar-te sempre ó Chico e não chorar-te desta vez

Foto: Emidio Josine
Foto: Emidio Josine

Chico António, nosso patrimônio, músico consagrado nos palcos nacionais e internacionais, lutador da preservação da cultura nacional através do cantar, encarar e partilhar seu saber com os cidadãos moçambicanos. Projector de um país para além fronteira, o seu desaparecimento encontrou-nos desprevenidos, porque estávamos a pensar na sua recuperação, calou-se a voz de um verdadeiro artista, pai, companheiro, amigo, um património. Deixou um vazio no panorama cultural nacional enquanto seu legado estava ainda em exceção aos olhos de muitos admiradores. 

De talento almejado era um homem talhado para a inovação, render essa homenagem não estará a altura da sua obra, em tenra idade descobriu o valor da cultura, crescendo no meio de influências nacionais e internacionais, Chico decidiu entender a culta moçambicano e criar estradas para ser uma lenda da cultura. Pessoa versátil e multigeracional e de vontade de sempre aprender, cumpriu o seu legado. 

Dessa forma contribuiu para a consciencialização pacífica dos povos. No leito da cama do hospital Chico ainda expressou sua pessoa num abraço fraterno a visitantes e deixou um pensamento para as instituições culturais: por mais que queiram é preciso vontade. Continuem com a batalha. In Eldevina Materula. Embora sejas imprescindível e insubstituível nós temos agora de pegar a tua música, as tuas palavras e sobretudo o teu exemplo de artista e ser humano que nunca se desviou a troco de nada que não fosse tua generosidade e humanismo elevado ao extremo. 

Assumiremos o acordo de continuar com as lutas do Chico e imortalizaremos o seu legado. Com garantias de transmissão de geração para geração, como um activo econômico.

A ti, ó tio Chico, as lendas não morrem, só partem, vai em paz, para sempre amigo Chico António.

Foto: Emidio Josine

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