“As Madames” livro da escritora sul-africana Zukiswa Wanner traduzido e lançado em Maputo
A escritora e editora sul-africana Zukiswa Wanner, lança nesta terça-feira, 05 de Setembro, às 18h, no Cine-Teatro Scala, em Maputo, o seu romance de consagração “As Madames”, uma edição da Ethale Publishing e da editora Kacimbo.
Zukiswa Wanner é uma das mais importantes escritoras da actualidade na África do Sul, publicada em vários países africanos, chega finalmente em língua portuguesa em Moçambique, numa tradução feita pelo jornalista e tradutor José Sá.
Livro que marcou o início de carreira da escritora Zukiswa Wanner, As Madames (2006) foi indicado em 2007 para o prémio K.Sello Duiker Memorial, da África do Sul, a mais importante distinção literária na África do Sul, na categoria de autores com menos de 40 anos de idade.
De acordo com o comunicado de imprensa enviado à Moz Entretenimento, em Maputo, o livro que já está disponível, terá a apresentação feita pelo filósofo José Castiano e pela escritora Virgília Ferrão que, aliás, já conhece o trabalho literário da autora.
“Pelas linhas da sua escrita tão acessível quanto elegante, Zukiswa Wanner brinda-nos com narrativas que contemplam o nosso quotidiano, a nossa existência humana, com humor, beleza e profundidade incontornáveis. Com certeza uma das vozes mais vibrantes da literatura Africana”, escreveu Virgília Ferrão.
Sobre a tradução do seu romance para língua portuguesa, Zukiswa, disse ter sido relevante o facto de ser traduzida por uma editora africana. “Muitas obras africanas são traduzidas fora do continente. E isso interfere na originalidade. O português de Moçambique caminha com as expressões e os hábitos culturais locais. Não será o mesmo em Portugal. A minha preocupação tem que ver com a acessibilidade das minhas estórias pelo povo moçambicano. Sentirem o ambiente e os enredos de acordo com os seus hábitos culturais.”
“Esperamos que os moçambicanos, sobretudo as mulheres se inspirem com o livro, o conhecimento e o engajamento da Zukiswa Wanner que sem dúvidas, é um farol da literatura africana. As Madames é um livro que demonstra o poder das mulheres, a sua capacidade de transformar o mundo, mas denuncia a pretensão que algumas mulheres têm de explorar outras. Esperamos que Moçambique seja uma verdadeira capital da literatura africana e aumente a cobiça de vários autores africanos em ver seus livros traduzidos e publicados em Moçambique”, disse o editor Jessemusse Cacinda.
“As Madames” conta uma história fora do comum numa África do Sul feita de diferenças extremadas, também uma herança da segregação racial do regime do Apartheid. As Madames, levanta um novo cenário de vida para as mulheres e na relação entre as suas ocupações ou representação social em função das raças.
A crítica considerou o livro como uma verdadeira demonstração de como a literatura pode ser usada como uma ferramenta revolucionária para imaginar uma nova sociedade e propor a revisão de injustiças sociais do passado. “Wanner demonstra que a divisão de cores cruzou uma nova ponte, resultando em novas oportunidades, novas relações e novos olhares para a figura feminina. Isso, portanto, fornece novos insights para entender o lugar da figura feminina na África do Sul do século 21 e na literatura africana em geral”, analisou a professora de literatura africana Colômbia Kaburi Muriungi, da Chuka University, no Quénia.
Esta é a quarta tradução de uma obra importante da literatura africana. A Ethale Publishing já trouxe para os leitores moçambicanos os clássicos do nigeriano Nobel de Literatura, Wole Soyinka, do queniano Ngũgĩ wa Thiong’o e da senegalesa minata Sow Fall.
“A Ethale foi pioneira na tradução literária em 2017. Quando começamos notamos que o intercâmbio entre africanos precisa de uma intermediação da Europa. O que de certa forma perpetuava a nova dependência criativa. Usando das tecnologias, rede de transporte e capacidade logística que se desenvolve no continente para tirar dividendos culturais. O continente pode ser culturalmente dinâmico se nós os africanos nos emprenharmos”, considera o co-fundador da editora, Jessemusse Cacinda.
Zukiswa Wanner já se encontra desde dia 28 de Agosto em Maputo a participar de várias actividades. Entre elas, um encontro com artistas na Incubadora de Negócios Criativos, X-HUB e um encontro com estudantes da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane. Em ambos encontros, a mensagem forte da escritora foi para a necessidade de uma acção conjunta entre os fazedores de arte para uma indústria criativa sustentável.
“Precisamos de ser criativos para encontrar formas de nos traduzir e nos lermos uns aos outros. E é preciso que os artistas independentemente da sua área de actuação participem nos trabalhos de todos, fazendo despertar a todos os públicos o interesse pelas artes.” Afirmou Zukiswa, que dirigindo-se directamente aos estudantes de licenciatura nos cursos de Teatro e Música especialmente aconselhou “Mergulha na arte na sua plenitude, não fiquem numa ilha. Conheça outros fazedores de arte para criar conexões, saber como funcionam as outras artes e acima de tudo criar laços”.
Autora, ensaísta, editora e curadora, Zukiswa Wanner nasceu em Lusaka, na Zâmbia, filha de um sul-africano exilado e de uma zimbabweana. Cresceu no Zimbabwe e formou-se em jornalismo na Hawai’i Pacific University no Havai, EUA.
Em 2018, fundou a editora Paivapo, que assina a antologia de contos infantis africanos Story Story, Story Come (2019) traduzida para isiXhosa, tshivenda, kiswahili e shona, de forma a chegar ao maior número de crianças.
Em 2020, fundou e fez a curadoria do primeiro festival virtual Afrolit Sans Frontieres, no qual entrevistou autores brasileiros e a levou a editar a sexta edição da revista Periferias “Raça, Racismo, Território e Instituições” (2021).
Também em 2020, Wanner foi a primeira mulher africana a receber a Medalha Goethe, pela sua actividade e contribuição ao intercâmbio cultural internacional. No mesmo ano, foi considerada Pessoa Literária do Ano pelo blog literário Brittle Paper, além de ter sido nomeada uma das 100 personalidades africanas mais influentes pela revista pan-africana New African.






