Kwiri: o mundo na barriga da mãe de Roberto Chitsondzo

Por: Simião Mahumana

O professor Dadivo José me convenceu um dia a embarcar neste desafio de navegar pelos mares desconhecidos da música, essa elaborada forja de combinações de física nos instrumentos e lírica no canto em aerossóis harmoniosos.

E essa ousadia a convite de um professor, me levou ao contacto com o mundo produzido pela barriga da mãe do meu professor de educação física, Roberto Chitsondzo. Afinal, as inesquecíveis aulas de alongamento e andebol daquelas tardes num dos campos da Escola Secundária Josina Machel não serviram apenas para preparar a nós os alunos, serviram para manter essa eterna tarefa que o professor carrega, a de ajudante das mães na iluminação dos carreiros e carreiras das gerações que um dia acabam nos governando.

Então, o olhar de física educada do eterno bom rapaz olhou a sua volta e viu a diversidade de carácteres que a sua mãe colocou neste mundo: uns apoiando a ela incondicionalmente, outros culpando a ela pelos respectivos insucessos na vida, alguns se esquecendo dela, muitos deles atribuindo a ela nomes e protagonismo funesto que a fizeram um dia se comparar à bananeira, essa erva gigante cuja vida termina com a entrega dos rebentos ao cultivador. A melodia guitarrada em modo nostálgico recita versos sobre a barriga da mamã, qual almofariz no qual se pila alho, matapa, milho, amendoim, ervas medicamentosas…coisas que não são de sabor igual, ganhando apenas o apelido de pilados na mesma barriga, levando efeitos diferentes ao mundo. A esta música, Roberto deu o nome Kwiri como título gráfico, e ainda um bem alto canto: barriga da mamãe! Sentença: mãe não deixe se levar pelas manias minhas e dos meus irmãos !

Em Lirandzo/amor, Roberto cai na mesma caminhada que fez o pai ter um percurso com a mãe dele, se apaixona e faz balada para uma mulher representada pela voz de Yolanda Kakana. A representante da futura barriga confessa que o seu coração é como um livro fechado que você tem que abrir para desvendar os mistérios que te permitirão fecundar a barriga que irá colocar no mundo a inimaginável diversidade da prole. Um desvendar que só é alcançado por quem persiste e provoca mesmo quando a pandora de coração resiste. E nas esteiras e alcovas do rapaz habitaram sonhos que um dia se tornaram realidade, anjos enxugando lágrimas antes de caminhadas sem fim em viagens citadinas destruidoras de quartos sem paredes.

Um dos rebentos, provavelmente o professor Beto, dispara sentenças pedagógicas em Dondza/estude. Olha para a escola como um jardim em que cada criança é uma flor que nunca murcha e diz que somos todos crianças até ao dia em que concluímos o dever de nos formarmos e não aceita desculpas: afinal há quem tem falta de escola, falta de professor, falta de livros,falta de pais, falta de simples sorriso, falta de alegria, falta de tudo…não há desculpa: estude! Seja Criança, mamãe, papai, avó, avô, rapaz, rapariga, hei, estude!

A barriga da mãe do bom rapaz trouxe ao mundo um teólogo apocalíptico: vim ao mundo de mãos vazias e dele sairei sem nada, deixarei meu dinheiro no banco, deixarei meus bens, minha casa. Se acreditas em Jesus salvador, tira a tua mente de riquezas que não serás capaz de levar: mulher, filhos, igreja, pastores…regressarás as origens de mãos vazias, como vieste! Estás de passagem, és muhundzi nesta terra.

Aparentemente, a apocalipse do teólogo não está na cabeça de um dos rebentos, que acaba de contrair matrimônio. No grupo étnico do Roberto Chitsondzo, a construção do lar pela mulher é comparado ao acto de pilar, tão duras são as tarefas e a conquista de aceitação pelos familiares do esposo. Num ritmo que faz lembrar duas pessoas pilando, um dos rebentos da mãe do Beto ensina ao recém-casado que as notas do lobolo (casamento tradicional) são apenas um símbolo de união entre as famílias, não podem comprar uma mulher nem justificar relacionamento cheio de violência, falta de amor e falta de consideração. Teu dinheiro não pode comprar uma mulher, amem-se e construam um lar feito luar. Teus timpondo (pounds) jamais te darão título de irresponsável dono.

Afinal o bom rapaz deu ouvidos aos conselhos e conseguiu arrancar um romantismo que o azedume dos tratos havia enterrado no peito da esposa. Sua Bertina Chitsondzo, inspirada, chama por ele: oh voz do mar, vem acalmar o meu coração, vem devagarinho cantar comigo as canções dos nossos tempos. Os meus pés pisam areia fofa contemplando o por do sol: chamo por ti para juntos semearmos o amor é não te encontro…hmmmm…vamos juntos contemplar e nos apoderar da sementeira do amor ao por do sol.

Uma das fórmulas nas quais o criador de todas as coisas falhou é a multiplicidade de compatibilidades, o filho da mamã do Beto não entende porquê a fórmula não tomou o princípio de exclusividade em que cada homem é compatível a uma só mulher para evitar o provérbio “afiar demais o machadinho (xikaulani) equivale à procurar cortes indesejadas em seu corpo”: andas rebolando as partes no ar entre os homens a procura de o quê? Não sei se a demasiado elaborada participação do Jimmy Dludlu não constitui um demasiado afiar de machado. O tufo da mafalala confirma que “chaleira ferve a noite inteira em esteira de virtuosa”, enquanto SG buzina as que bamboleiam por todo o lado e vêm a sua reputação na boca do povo.

Em proles significativas há sempre um que tem dificuldade em dizer amor, ganha estatuto de amostra do mundo onde a doença do ódio abunda. Quanto sentimos tenaz e  saliente procurar uma casa em toda a gente e diluir-se em raiva e em pudor …custa dizer amor na terra regressiva onde a distância é feita de silêncios! Custa ainda mais dizer amor conscientes do metal que grama a grama integra uma granada. A doença do ódio anda tão viva, há vidas esquecidas das machambas, emuladas a antigas aras, penhores avais, créditos e dívidas…que sílabas abertas declarem amor, mesmo perante quimeras em marés enchentes. O bom rapaz um dia explicará porque é que colocou tanta poesia na cabeça incapaz de declarar amor!

A prole da mãe do Chitsondzo teve um épico amigo Português cantado em Waxukuvala (anda deprimido). O deprimido foi consumido pelo amor por África. Está deprimido e perdeu norte, não mais consegue ver o sentido da vida. A mulher dele só percebeu a verdade quando a morte do marido chegou ao eminente de sua mente e ele se desviou das ideias. Ideias que o haviam deixado amar uma negra moçambicana entre muitas pretendentes multicolores desiludidas, muitas com ele apenas perderam beleza, entrou em templo de rituais negros (ndomba) e consultou os destinos de sua vida nos tinhlolo (dispositivo de consulta da situação espiritual e de destino, geralmente constituído por búzios, vários tipos de ossos de vários animais e partes de plantas). Bebeu de fontes locais, usou incenso local e deixou seu corpo ser vacinado via cortes de lâmina e colocação de medicamentos. Agora, desviado das ideias, quer morrer na terra natal Lisboa, e nem se importa com os sentimentos da esposa, enraizada na prática de visitar campa de marido, que poderá passar a estar a milhares de milhas e esforços de nave aérea! Waxukuvala merece, em si própria um álbum, uma novela, um filme e um seriado de debate televisivo. O homem esteve aqui enquanto pôde amar e quer morrer em Portugal, para se transformar num Deus distante e invisitável, verdade que a mulher desconheceu durante toda a vida de frenético amor.

O mundo que irá endeusar o Português, já endeusa Samora, cujos progenitores de adoração procuram a verdade sobre a sua morte nos tinhlolo. Querem saber quem foi o feiticeiro que o matou: sim, meu filho, morreste, agora queremos conhecer o feiticeiro que te matou, se os suspeitos negarem, que sejam submetidos ao mondzo (poção da verdade), provocaram leão lançando pedras, agora o leão ruge a partir do além. Tiraram da terra o nosso líder para dominar a terra e pilharem nossos recursos. Provocaram leopardo à pedrada. Sejam eles bôeres, russos ou ex-colonizadores, não importa, enfrentarão a fúria do gato!

O mais novo dos irmãos grita em Hafa, estamos morrendo, as calamidades destes dias. Os larapios matam sofrido pobre, assaltam e matam, pilham gado e vão vender nas cidades, a rádio anuncia estatísticas do HIV/SIDA, a malária mata, as epidemias ganham formatos e nomes novos em coro funesto com os assaltantes. Morremos feito galinhas, cagamos água feito patos! São tão impiedosos que nem os corpos que se debatem enquanto abandonam as almas os comovem. Isto nem parece um continente cuja boa parte dos seus melhores filhos entregou a sua vida pela liberdade, paz e melhor vida. Foi mesmo para isto que os heróis permitiram que suas vidas fossem sacrificadas? Freedom!

A procissão de azar da prole da mãe do bom rapaz Beto não para por aqui, a riqueza/Tsomba de sua terra lhes traz mais azar. A terra na qual produzem comida lhes é tirada contra o seu apelo em não ser deixado sem nada. Ficaram anos à espera de dias de grande e bíblica lavoura, mas a sua terra/riqueza/ fertilidade só lhes traz guerra! Minha riqueza, juro! Tínhamos pastagem para nosso gado, está sendo expropriada para implantação de empresas que não deixam trabalhar gente como nós. Irmãos, escola é riqueza, sem escola estamos sujeitos a perder nossa riqueza a favor de empreendimentos nos quais nem poderemos trabalhar. Hospitais são construídos, mas a vida nos deixa a favor da morte que domina os que não dominam o saber. Minha riqueza é minha pobreza!

No tema Golfo, um dos viajados filhos da mamā do Chitsondzo consegue interpretar o efeito global da luta pelas riquezas deste mundo. Vê granizo de engenhos explosivos, sangue jorrando num formato descrito por aqueles que tendo visto Jesus Cristo escreveram a Bíblia, e pelos que tendo convivido com Maomé escreveram o alcorão: virão os tempos de guerra. Estamos em apocalipse minha mãe, tempo das revelações ! Remata o filho avisado. Quando ele escreveu esta canção, a guerra estava no golfo.

Obrigado Djaha do lago Ghorwane, fonte que vence estiagens!

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