Tradução literária transforma memórias das cheias de 2026 em narrativas nas línguas moçambicanas

A XII edição do Concurso de Tradução Literária, promovida por ocasião do Dia Internacional da Tradução, distinguiu seis tradutores numa edição marcada pela preservação das memórias das inundações que atingiram a bacia do Incomati, em Janeiro de 2026.

O primeiro prémio foi atribuído a Óscar Francisco Gueza, pela tradução de “Vasos Comunicantes” para ciManyika. O segundo prémio coube a Artimisa André Litsur, pela tradução para português de “L’homme né dans la rivière”, enquanto Nelfa Orlando Tambe recebeu o terceiro prémio pela tradução do mesmo texto.

O júri atribuiu ainda menções honrosas a Manuel Luís Tembe, pela tradução de “Um Dia a Água Virá” para ciChangana; Chitungue Mucara Machai, pela tradução para português de “The Man With the Boat”; e Chaponda Maria Marcos, pela tradução de “Um Dia a Água Virá” para ciTsonga.

Os seis distinguidos receberam diplomas, livros e prémios monetários.

Cinco histórias sobre as cheias

As traduções fazem parte de “Um Dia a Água Virá”, nono volume da Colectânea de Contos Traduzidos da Editora Trinta Zero Nove e primeiro dedicado integralmente a narrativas de não ficção.

A obra reúne cinco perspectivas sobre as cheias de Janeiro de 2026, incluindo o relato de Rabeca Alfredo, uma menina acolhida num centro de acomodação instalado numa igreja; Carlos Tibana, envolvido nas operações de salvamento; e Sarah Matches, coordenadora provincial ligada à resposta à emergência.

O livro inclui ainda dois testemunhos anónimos: o de uma editora que perdeu 15 mil livros durante as inundações e o de um homem que disponibilizou o seu barco de recreio para apoiar as operações de resgate.

As cinco narrativas procuram preservar experiências individuais que reflectem uma realidade enfrentada por milhões de moçambicanos perante a recorrência de fenómenos climáticos extremos. Dados do INGD, citados pelas Nações Unidas, indicam que as cheias afectam historicamente uma média de cerca de 385 mil pessoas em Moçambique, podendo atingir 2,5 milhões nos episódios de maior dimensão.

Traduzidas para inglês, português e sete línguas moçambicanas, as histórias assumem a tradução como instrumento de preservação da memória, permitindo que os relatos ultrapassem barreiras linguísticas e sejam transmitidos entre gerações.

A XII edição do concurso registou 177 inscrições e 40 propostas de tradução, além de reunir 22 tradutores num workshop. Criada em 2015, a iniciativa já alcançou cerca de 5.700 jovens e atribuiu mais de 50 prémios.

O Concurso de Tradução Literária está na origem da Editora Trinta Zero Nove e foi distinguido, em 2021, nos London Book Fair International Excellence Awards, na categoria Literary Translation Initiative Award.

Onze anos depois da criação do concurso, “Um Dia a Água Virá” recupera uma das ideias centrais da iniciativa: fazer da tradução uma ferramenta para que histórias vividas por alguns possam chegar a muitos.

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