O Ancoradouro do Tempo: Um Triunfo Estético à Procura de uma alma dramática

Por: Milton Abrão

O Ancoradouro do Tempo, filme dirigido por Sol de Carvalho, é uma obra que se define como uma “fábula criminal”, um subgénero onde a investigação de um crime serve de alegoria para explorar feridas sociais e morais. A trama inicia-se com o inspetor Izidine (Horácio Guiamba) a investigar o assassinato de Vasto Excelêncio (Tomás Bié) numa antiga fortaleza colonial na Ilha de Moçambique, agora convertida em lar de idosos.

O mistério adensa-se quando todos os residentes confessam o crime, enquanto a enfermeira Marta (Maria Adamugy) insiste que a verdadeira investigação deve focar-se no que aquele lugar representa.

Visualmente, o filme é irrepreensível. A fotografia é o seu maior triunfo: consegue extrair uma beleza melancólica das ruínas, e o uso das cores é uma escolha narrativa que conversa diretamente com a proposta misteriosa e contemplativa da obra. Os planos abertos captam essa grandiosidade decadente, elevando o filme a um patamar de “belo em meio ao caos”. Esta atmosfera é amplificada pela banda sonora magistral assinada por Stewart Sukuma: um “dez” absoluto que dita o ritmo emocional da obra.
No centro da narrativa, Horácio Guiamba interpreta um Izidine que é o fio condutor da memória.

O protagonista carrega o trauma de um pai descrito como traidor e covarde, mas a sua estadia na fortaleza revela-se uma jornada de desconstrução, onde descobre que a história oficial sobre o seu progenitor era uma mentira. Embora o personagem funcione mais como um observador reativo do que como um motor de ação, a sua busca pessoal espelha a revelação dos horrores do lar.

A fortaleza revela-se um entreposto de exploração total: do tráfico de pessoas com albinismo e pangolins (abordados de forma lateral) ao confuso contrabando de alimentos — este último, um ponto onde o argumento parece perder alguma clareza narrativa.
Contudo, é na transição do visual para o humano que o filme encontra os seus maiores desafios.

Existe um contraste, em alguns cortes, entre a fluidez da câmara e a “teatralidade” de certas atuações, que gera quebras de ritmo. Maria Adamugy, no papel de Marta, parece revelar-se pequena para a complexidade do papel. Num texto onde a carga emocional deveria transcender a palavra, a atriz entrega um recital tecnicamente correto nas pontuações, mas desprovido da conexão e do “sugestivo” que a personagem exigia.

Em contrapartida, os momentos de maior verdade vêm das figuras que habitam a fortaleza. Isabel Jorge, como Ernestina, domina o ecrã com um monólogo envolvente e trejeitos convincentes que transmitem tensão e fragilidade em pouco tempo de antena. Da mesma forma, Tomás Bié brilha como Vasto Excelêncio.

A direção é astuta ao construí-lo através das memórias alheias, utilizando cortes específicos que estabelecem a sua presença quase como uma entidade narrativa, justificando por que os idosos, vítimas de sistemáticos maus-tratos, optam pela confissão coletiva como um ato de libertação.

No clímax, a direção de Sol de Carvalho revela-se tímida. Ao optar por “contar” em vez de “mostrar” o horror das crianças atiradas na cisterna, o impacto visceral que a cena exigia é atenuado, talvez por cautela com a classificação indicativa, talvez por receio de gatilhos ou mesmo por escassez orçamental, o que esvazia parte da catarse final.

O Ancoradouro do Tempo cumpre o seu papel como fábula ao transformar uma fortaleza em ruínas num espelho de um país que ainda lida com os seus fantasmas. Embora a execução dramática nem sempre alcance a altitude da sua fotografia e música, o filme é um exercício necessário de justiça poética.

Ao reescrever o passado de Izidine e libertar os idosos do seu opressor, a obra sugere que, tal como o protagonista, Moçambique precisa de confrontar as suas sombras para conseguir, finalmente, ancorar-se num tempo de verdade.

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