Mozal 2026 – O Fim do “Toma que te Dou”, de Zaida Chongo
Por: Celina Jaha
“Ahhh yu, yu, yu, la misaveni…”(Ahh yu yu, aqui na terra…) — essa abertura nos coloca no chão, como quem te chama a realidade para mostrar um facto.
”Toma o que te dou, de Zaida Chongo, à primeira audição, parece apenas uma provocação satírica sobre os costumes, o casamento e o desejo. Contudo, lida hoje, à luz do anúncio da suspensão das operações da Mozal em Março de 2026, a música revela-se um estudo sociológico cantado sobre a fragilidade dos nossos megaprojectos.
Para compreender o peso desta análise, é preciso recuar ao fenómeno Zaida Chongo. A malograda artista, uma das figuras centrais da música popular moçambicana, que se expressava com uma irreverência sem igual, e, às vezes, um pouco atrevida. “Toma o que te dou”, cantada com a crueza e o humor que lhe eram característicos, tornou-se um retrato fiel e por vezes incómodo da autonomia feminina e o choque entre a tradição do lar e a modernidade agressiva.
Ao centrar a narrativa na Matola Rio, onde a fundição se erguia como o novo “templo” do capital estrangeiro, Zaida capturou o momento exacto em que o alumínio começou a moldar mais do que a economia, e passou para o comportamento de uma geração.
Naquela altura, a Mozal era um símbolo: capital estrangeiro, técnicos brancos, salários quinzenais, nova circulação de dinheiro. Em economias periféricas, grandes investimentos reorganizam fluxos de renda, mobilidade urbana e, inevitavelmente, as relações afectivas. É sob este impacto que Zaida canta: “A vavasati ava atsami le ukatini” (As mulheres já não ficam no lar).
O que muitos leram como uma crítica moralista, era, na verdade, a descrição de uma mudança estrutural. O “lar” deixou de ser o centro fixo porque o centro económico deslocou-se para os portões da empresa. A industrialização criou novas rotas de sobrevivência, transformando a região de Beleluane num território social onde o salário quinzenal se tornou o recurso estratégico mais cobiçado.
A artista expõe as “fileiras para ter um homem da Mozal” para evidenciar como a fundição se tornou um ecossistema de sobrevivência. É fila por estabilidade económica, por acesso ao salário industrial, por proximidade com o homem que recebe na quinzena. O ponto de maior agudeza reside na metáfora dos “deuses anti-casamento”. Num plano profundo, estes deuses representam as forças invisíveis que desestabilizaram o modelo tradicional de família. A entrada massiva de capital e a emergência de novos padrões de consumo alteraram o equilíbrio doméstico; o casamento deixou de ser apenas uma instituição cultural para se tornar uma equação económica de alto risco.
Durante décadas, o “deus” que alimentou este ecossistema foi o mercado internacional, sustentado pelo sangue invisível da indústria: a electricidade abundante de Cahora Bassa (HCB). Porém, o comunicado que anuncia a suspensão das operações para Março de 2026 encerra uma era. A decisão, ditada pela falta de energia a preços competitivos e agravada pela seca severa na HCB, revela o colapso de um modelo de dependência.
O novo “deus” que agora se impõe não é anti-casamento; é energético e climático. Ele é mais implacável porque não discute moralidade, impõe limites físicos. Se antes a estabilidade dos lares era desafiada pela autonomia feminina e pela circulação de dinheiro, hoje ela é ameaçada pela ausência drástica desse mesmo dinheiro. A literatura sobre desenvolvimento alerta para a “economia de enclave”: grandes investimentos que inflam o PIB, mas criam dependências estruturais perigosas. A música de Zaida capturou a pulsação deste enclave em tempo real. Quando a electricidade falha, falha o sustento e desmorona-se o eixo identitário de toda uma região.
E então vem o refrão:
“Toma o que te dou.”
Aqui a linguagem escorrega deliberadamente (ou não) para a ambiguidade. É oferta? É provocação? É ironia? É crítica à mercantilização do corpo feminino? Ou é apropriação do desejo como poder?
Zaida descreveu a Mozal como um espaço onde “o mundo está a explodir”. Nos anos 90, a explosão era de expansão. Em 2026, a explosão é a implosão de um modelo excessivamente concentrado. Zaida Chongo, com a sua presença performativa, encena. Ela dramatiza. Ela exagera. A repetição, o ritmo, o “Toma, toma!” criam quase um teatro popular sonoro.
No fundo, “Toma o que te dou” é menos sobre promiscuidade e mais sobre transição. É o retrato de um país que saiu da guerra civil, abriu-se ao capital estrangeiro e viu as suas estruturas familiares serem sacudidas. O “lar” já não é destino fixo. O salário industrial começa a reorganizar o desejo.
O comunicado sobre o enceramento da Mozal é a prova de que nenhum “deus” económico é eterno. E talvez a lição interdisciplinar mais dura seja esta.










