“Entre atmósferas” internas e externas com a Cristina González
Por: Domingos Mucambe
A pintura pode ser um palco onde múltiplas realidades se entrelaçam, tanto entre pincéis como mesmo em quadros que são dispostos numa sequência ainda por se descobrir a narrativa. No final da tarde de quarta-feira, dia 04 de Janeiro, uma parte de Espanha espalhava a sua fragrância entre quadros na Fundação Fernando leite Couto nas mãos da Cristina González com alguns quadros pintados em Maputo, como é o caso da obra onde o leão se esconde.
A exposição intitula-se entre atmosferas e, passando como quem aprecia de facto as mostras, algo aflora-se diante dos olhos e chega até a própria consciência. As atmosferas aqui expostas são várias e variadas, entre atmosferas sentimentais, como é o quadro “vulcão interior”, atmosferas psicológicas/mentais ilustrado pela obra “mente limpa”. Essas são, bem vistas, enquadráveis num conceito mais amplo que é atmosferas interiores, e há, assim sendo, as atmosferas externas/exteriores, como é o caso da tela beleza calma ou mesmo onde o leão se esconde.
No geral, as obras seguem esse ritmo, esses dois grandes eixos em que um deles se bifurca, criando dessa forma essa exposição com uma aura leve, e, diria, esse é o maior êxito da proposta, das mostras e do propósito da exposição, quando consegue imprimir essa, diria Kundera, insustentável leveza, com o interessante jogo de cores meio quentes e frias.
Essa é uma exposição de ver com calma por conta do seu carácter abstracto, havendo entre um e outro quadro com coisas, geralmente da natureza como árvores e flores, que estão para reforçar e sedimentar o conceito proposto como o é para realçar tanto a beleza, o lado frágil e também a própria longevidade da vida com o baobá, como quem assinala que não importa quanto tempo vai passar a vida é sempre jovem e precisa sempre de ser reinventada. No geral, há pinceladas que correm os quadros, e cada pincelada parece ter sido pensada para evitar, às vezes, o excesso como se fosse o Álvaro Taruma jovem, que se deixa levar pelo aflorar dos seus sentimentos. A artista sente mais, como também pensa no conceito que quer transmitir, num constante diálogo consigo mesmo.
O quadro vulcão interior, acrílico s/ painel 61 x 46 cm, é paradoxalmente leve, pela paleta de cores usada, cores mais pálidas, tons mais cinzas, o que, teoricamente, deveria retirar a intensidade, principalmente sentimental, e imprimir menos dinâmica, menos energia e mais placidez; inversamente, sente-se um aflorar profundo, quase que intenso. O gesto com o pincel, de algo como fumo revirando-se de cima para baixo e também de baixo para cima, com um tom vermelho que lembra o fogo, remete-nos nessa força da paixão ou amor que desorganiza tudo dentro das pessoas. Se o formal, que é a cor, deveria remeter a menos intensidade, o gesto leva essa mesma cor para esse lugar de emoção intensa e desfigurante.
A obra mente limpa não é, assim, um mergulho para o psicológico de ninguém, nem um reflexo, como é o quadro vulcão interior, em que há reflexão sobre o amor que desorganiza e desfaz o interior das pessoas, aqui há um ambiente que limpa a nossa mente, parecendo-se a uma caminhada na dez de novembro com a brisa a limpar a mente. Esse quadro é completamente diferente do que, por exemplo, a Lillian Benny trouxe na sua exposição de fotografia “Where do I land?”, em que cada fotografia da natureza era, na verdade, uma tentativa de materializar sentimentos e emoções. Cristina González traz essa mistura de azul e verde, duas cores mansas para trazer essa coisa que nos dá certo estado de espírito, e aqui é a mente limpa.
Os acrílicos s/ tela beleza calma e onde o leão se esconde são exemplos da atmosfera externa, de onde a artista para e olha para o que há no ambiente: eis o campo, com árvores, rio, e um céu onírico. Isso faz a obra beleza calma, em que há uma mistura de cores menos ousadas, mais comedidas, sem vibração, sem dinâmica, apenas silêncio e/ou sussurros que empurram o apreciador ao prazer por contemplar.
Nessa sequência de leveza, mesmo quando há intensidade emocional, é contrastada pelo quadro Outono vermelho que apresenta, primeiro, uma paleta de cores muito vibrante e quente, com um vermelho intenso e um gesto que pode até lembrar violência, no lugar de leveza. A intensidade desse vermelho é diferente da intensidade do vermelho de que alimentam a suas chamas, acrílico s/ tela 90 x 90 cm, por exemplo. O segundo está dentro do conceito e dialoga criando uma narrativa com o quadro vulcão interior, ambos estando nessa atmosfera sentimental/emocional. A obra dialoga com vulcão interior pelo seu gesto e paleta de cores, como pelo seu tom, também pelo conceito que traz, que é sobre reavivar o amor, a paixão dentro de nós a partir dos outros.
Em segundo lugar, o quadro outono vermelho está disposto num espaço em que parece não pertencer à própria exposição, exigindo dos espectadores o jogo de adivinhas. Adicionando a isso, o quadro em questão encontra-se numa sequência em que há quadros como transformar-se em oceano, com um conceito mais para serenidade e calma, com cores frias, o que cria uma certa dissonância.
Uma disposição dos quadros seguindo esses dois eixos, que se transformam em três, serviria como estímulo para criar uma narrativa muito mais sólida, que não foi possível com a junção de temas que, para alguns quadros, pareceu aleatório, como é o caso da disposição do outono vermelho. Dentre essas mostras na exposição há um quadro sem informação concernente ao título, dimensões e mais.
Cristina González é uma artista de gestos leves, cores leves, acima de tudo. Essa exposição tem essas características, esse ambiente, esse espírito leve que acomoda os espectadores de forma gentil e graciosa. Adiciona na sua exposição alguns versos e frases de autores que, não aprofundando o conceito das obras, ajuda a criar uma atmosfera certa para mergulhar nas obras; há linhas de Mia Couto, K. Gibran, A. Machado, Rumi e tantos outros.





