Por: José dos Remédios

Conheci Álvaro Fausto Taruma há milhões de anos. Na altura, como poeta, um bom poeta! Por isso mesmo, não fiquei nada surpreendido quando, em 2018, o seu Matéria para um grito foi laureado Prémio BCI de Literatura (ex aequo). Bem mais tarde, fiquei a saber que o nosso autor também é copywriter, guionista e, recentemente, escritor. A primeira vez que li uma história dele foi na antologia Espíritos Quânticos, organizada pela escritora Virgília Ferrão. E quando achava que já não haveria mais surpresas de sua parte, eis que me convida para apresentar o seu primeiro infanto-juvenil. Quer dizer, de tantas coisas que o poeta faz, ocorreu-me apresentar-lhe uma proposta de alteração do seu nome. Ao invés de Álvaro Fausto Taruma, bem que poderia passar a chamar-se Álvaro Faz Taruma. É uma pequena ideia. Para ser analisada com cuidado e sem pressa. 

Quanto ao que mais importa, atribuí a esta intervenção o título “O sentido simbólico do tempo”. Pois, durante a leitura de Moya e o pequeno gigante solitário, visualizei que o plano temporal do conto é das construções estéticas mais impactantes na solidificação do enredo. Sem muito interesse em seguir um trajecto cronológico na enunciação dos eventos cardinais, Álvaro Fausto Taruma opta por diluir a história num movimento paralelo que se projecta do presente ao futuro e do passado ao presente. Para o efeito, o escritor inventa um diálogo entre um pai e um filho. O primeiro, como autor moral que justifica a activação de analepses. O segundo, como protagonista de um suspense que mantém o desfecho indefinido até ao fim. 

Editado pela Escola Portuguesa de Moçambique, este conto infanto-juvenil aproveita-se do estranho ou do maravilhoso para instalar, nos mais novos, a imaginação de que necessitam para aceitarem a história como um universo encantado, no qual se pode aprender a sonhar sobre tudo o que a realidade angustiante impede. Assim, ambas as experiências fantásticas (estranho e maravilhoso) concorrem, igualmente, para situar Moya e Inkulo (o pequeno gigante solitário) numa dimensão em que os argumentos discursivos das personagens ultrapassam as ocorrências normalmente explicadas através das leis da natureza. Por essa razão, quando lemos a obra de Álvaro Fausto Taruma, não procuramos interpretar a origem e o destino dos protagonistas e das personagens secundárias conforme o que julgamos saber. A história, na verdade, afirma-se como uma paisagem para aprendizagem de outros significados, que, não obstante o efeito místico, ajudam imenso a tornar a literatura um recurso tão importante para a compreensão do quotidiano. A literatura cumpre e muito bem esse papel de, por exemplo, estimular nas crianças a rápida compreensão sobre quem são na ligação com o ambiente. Consequentemente, quanto mais histórias uma criança ouve, mais possibilidades tem de se relacionar com mundo através do conhecimento proporcionado pela palavra. 

Mesmo a propósito do poder das histórias, há dias, numa caminhada nas ruas do Bairro Infulene, onde vivo, impedi o meu sobrinho Liam de pisar capim. Mas, à medida que a caminhada prosseguia, ele reaproxima-se desordenadamente ao capim. A certa altura, farto de ouvir a mesma proibição, ele parou e enfrentou-me para elaborar a maior pergunta do mundo: 

– Tio Remédios, o que é capim?

Bem, num país em que se defende que o cabrito come onde está amarrado, encarrei o meu sobrinho com empatia, na certeza de que ele nunca se tornará um quadrúpede, isto é, um cabrito. Mas, ainda assim, não consegui espantar um sorriso malandro que se prolongou por uns segundos nos meus lábios. Antes de qualquer resposta, entretanto, formulei a seguinte pergunta como quem se certifica do que acaba de constatar:

– Liam, tu não sabes o que é capim?

O Liam, 5 anos de idade, que vive no primeiro andar de um prédio, aqui na Cidade de Maputo, fez uns tantos gestos com a cabeça. Para cima e para baixo. Então mostrei-lhe o que era capim e mesmo assim ele não quis ser cabrito. Fiquei contente pela integridade do meu sobrinho, que, logo a seguir, perguntou-me: 

– Tio Remédios, porquê não posso pisar capim?

Para não revelar o meu verdadeiro receio, inspirado na leitura de Moya e o pequeno gigante solitário, feita naquela mesma tarde, improvisei uma história sobre os animais bons e maus, verdadeiros e falsos, e ainda defini o capim como caminho preferencial dos animais que foram expulsos da convivência humana, por serem cruéis. Enrolei-me tanto que até sou incapaz de repetir a história completa. Mas o Liam não reparou nos meus improvisos. Pelo contrário, o miúdo não só entendeu a minha proibição como também ampliou o seu vocabulário e a sua capacidade de imaginar. Hoje, tenho certeza de que se lhe perguntarem como foram as férias na nossa casa, ele dirá algo assim:

– Foram muito boas! Aprendi o que é capim.

Ora, uma das ocorrências interessantes de contar histórias tem a ver com o seguinte: enquanto contamos, aprendemos alguma coisa sobre o que contamos e sobre nós próprios. Quando respondia às perguntas do meu sobrinho, reparei que a curiosidade é o requisito para o conhecimento da mesma forma que a invenção ficcional constitui, geralmente, um teste à nossa maneira de recorrer à língua e à cultura para, no caso do conto infanto-juvenil, redefinir a realidade. 

Com efeito, na leitura de Moya e o pequeno gigante solitário, naquela tarde de sábado, captei as possibilidades criativas que me permitiram ensinar ao Liam os limites do Homem na relação com os outros bichos da natureza ou com o meio ambiente em geral. Nesse aspecto, o conto de Taruma é uma proposta ecológica, uma vez que nos desperta para a necessidade de cuidarmos do que o ser humano tem de preservar para as futuras gerações: o planeta Terra. Este tema não é nada furtuito, pois vivemos numa época em que os grandes decisores mundiais rasgam ou boicotam protocolos climáticos por questões meramente económicas e egocêntricas. 

O infanto-juvenil de Álvaro Fausto Taruma é uma história para gerar mudanças positivas de comportamentos. Numa comunidade aterrorizada pelo imbatível poder do pequeno gigante solitário, por exemplo, cabe ao herói, o menino Moya, a difícil missão de vencer o medo, como assegura o narrador do romance Ku Femba, de João Salva-Rey, o parente próximo da loucura. O herói da história, não obstante a sua pouca idade, representa a determinação que, nas nossas sociedades, tem faltado no ataque às questões que comprometem o bem-estar colectivo. Moya é uma personagem que personifica o altruísmo, a justiça e a paixão pela liberdade. Tomando o problema dos outros como seus, a personagem inspira-se no pai e no que há de melhor à sua volta para que, numa situação em que Inkulo e a comunidade encontram-se afastados, possa aproximar as partes contrariadas. Desse ponto de vista, esta também é uma história de reconciliação. Mas não na perspectiva da que os políticos nos habitaram. A reconciliação vigente em Moya e o pequeno gigante solitário é oportuna e genuína, o que nos faz pensar sobre o poder da pacificação e da harmonia social. 

Aos que se preocupam com a integridade dos seus filhos, sobrinhos, netos ou alunos, a todas as crianças que estudam nesta ou noutras escolas, se calhar, têm mesmo de ler este conto infanto-juvenil. Quem sabe, tal como o meu sobrinho Liam, poderão aprender numa palavra o universo que se esconde à nossa volta. 

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