Wazimbo encanta no Ntsindya: Um regresso emotivo ao palco do seu “Baptismo Artístico”

Wazimbo

Por: Gil Gune

Na última sexta-feira do mês, 27 de Junho, o lendário músico moçambicano Wazimbo brindou o público com um espectáculo memorável no Centro Cultural Municipal Ntsindya. Um momento carregado de emoção, história e ritmo que reuniu cerca de 150 espectadores, numa noite em que a Marrabenta voltou a pulsar com intensidade.

O concerto teve um sabor especial: há exactamente 53 anos, naquele mesmo palco, em 1973, Wazimbo fez a sua primeira aparição pública, ao lado dos também icónicos músicos Horténcio Langa, Miguel Matsinhe, Jaimito Machatine, Pedro Nhantumbo e Domingos Macuácua, na fundação da mítica banda Jeiser, momento que o artista considera o seu “baptismo artístico”.

Embora a sala não estivesse lotadíssima, a energia emanada do público foi suficiente para transformar a noite numa verdadeira celebração da música e da história. Entre aplausos, danças espontâneas e cabeças ritmicamente balançadas, os presentes embarcaram numa viagem musical de 90 minutos, ao som de clássicos comoMakwero”, “Alisandzu”, “A Ka Machava”, “Mafalala”, “Sapateiro”, “Provinciano”, “Maninja” e outros temas.

Wazimbo a actuar

No palco, Wazimbo foi acompanhado pela banda residente da casa, formada por Jorge Cossa na bateria, Ismael na guitarra solo, Mafil no baixo, Dinho no piano, e o veterano Matchote no saxofone — companheiro de longa data de Wazimbo, com quem partilhou os tempos do histórico grupo Marrabenta All Stars Moçambique. A actuação da banda encantou o público, entre fusões de Marrabenta, Blues, Kwassa, Jazz e discretos toques de Xigubo, criando um ambiente rítmico e culturalmente rico.

Contudo, nem tudo foi perfeito. O evento foi manchado por falhas na acústica da sala, com destaque para a fraca qualidade sonora e a necessidade urgente de colunas de som adequadas para espectáculos daquele nível. Muitos dos presentes sentiram que, apesar da qualidade artística da actuação, o som comprometeu o brilho de um espectáculo que poderia ter sido ainda mais grandioso.

Além de um momento de partilha musical, a noite serviu também para recordar a trajectória discográfica de Wazimbo, com destaque para os álbuns “Beat Apartheid” (dois volumes produzidos pela editora Piranha em 1986), “Makwero” (1997), “Raízes” (2012), “Grupo RM” (2012), e a aguardada produção “Mafalala Roots” — projecto que o artista sonha lançar em homenagem ao emblemático bairro que o viu crescer.

Infelizmente, Wazimbo revelou estar envolvido num conturbado processo judicial: há mais de sete meses, foi burlado por uma organização à qual confiou os fundos angariados para a gravação, masterização e publicação do Album “Mafalala Roots”. O caso foi reportado à polícia e levado a tribunal, mas até ao momento, não obteve respostas claras das instituições de justiça. Visivelmente agastado, o artista confessou estar desiludido com a morosidade e ineficácia do sistema judicial moçambicano, mantendo, ainda assim, viva a esperança de um dia ver o seu projecto concretizado.

O espectáculo de Wazimbo no Ntsindya foi mais do que uma actuação musical — foi um regresso à génese de uma lenda viva, uma ponte entre gerações e uma noite que reafirmou o seu papel como guardião da memória musical de Moçambique. Fica, no entanto, o apelo para que os espaços culturais estejam à altura dos artistas que acolhem e que a justiça acompanhe com seriedade aqueles que dedicam a sua vida a enriquecer o património cultural nacional.

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