Vidas submersas: A crise esquecida do Ricatla – Marracuene

Em Ricatla, uma localidade do Município de Marracuene, na província de Maputo, a crise ambiental deixou de ser uma previsão futura para se tornar um retrato quotidiano. A combinação das alterações climáticas, com chuvas cada vez mais intensas e imprevisíveis, e o acumular descontrolado de lixo, transformou bairros inteiros em zonas de risco. Casas submersas, ruas alagadas, lixo a flutuar dentro e fora das habitações, e infelizmente esta é a nova realidade de dezenas de famílias que, sem alternativa, vivem cercadas pela água e pelo abandono. A cada estação chuvosa, a comunidade vê-se forçada a resistir, reinventar-se e, muitas vezes, a abandonar as suas casas.

Casas inteiras continuam submersas semanas após as últimas chuvas. A água invadiu os lares e transformou a zona residencial numa extensão do rio.

Mais de 100 casas permanecem alagadas em Ricatla. A água, que deveria escoar para canais naturais, agora ocupa quartos, cozinhas e quintais. Uma consequência directa das alterações climáticas e da ocupação desordenada de zonas de risco.

O tempo deixa marcas profundas: as estruturas corroídas e os portões enferrujados são prova de uma convivência forçada com a água.

As famílias que não conseguiram abandonar a zona vivem entre ferrugem, humidade e lixo. As casas, mesmo de alvenaria, cedem lentamente à deterioração.

Uma criança aproveita a água da inundação para regar a horta da sua família. Uma forma de sobreviver diante do colapso ambiental.

Em meio ao caos, as crianças assumem tarefas adultas. A água que destrói as casas é a mesma usada para manter vivas pequenas machambas, isso quer dizer que a água ainda garante alimentação para muitos.

À porta de casa, o lixo é o primeiro a ser visto. A convivência forçada com os resíduos é diária e perigosa.

As inundações não deslocam apenas famílias, mas criam focos de doenças. Lixo, plásticos, roupas, e restos de comida flutuam no interior das casas, misturando-se com memórias e móveis encharcados.

A paisagem em Ricatla mudou. Onde antes havia caminhos secos, agora há charcos. A água parada já não encontra saída.

A água parada, sem rota de escape, acumula-se ao longo das bermas, entre as casas e até dentro delas, carregando lixo e odor. O que antes era caminho, hoje é território de abandono.

Nós estamos nisto“, disse um morador. Muitos já fugiram. Outros, como ele, ficaram por não ter alternativa. Crianças brincam e pescadores arriscam-se nas águas sujas, mas todos pedem o mesmo: dignidade, segurança e acção urgente.

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