Vidas submersas: A crise esquecida do Ricatla – Marracuene
Em Ricatla, uma localidade do Município de Marracuene, na província de Maputo, a crise ambiental deixou de ser uma previsão futura para se tornar um retrato quotidiano. A combinação das alterações climáticas, com chuvas cada vez mais intensas e imprevisíveis, e o acumular descontrolado de lixo, transformou bairros inteiros em zonas de risco. Casas submersas, ruas alagadas, lixo a flutuar dentro e fora das habitações, e infelizmente esta é a nova realidade de dezenas de famílias que, sem alternativa, vivem cercadas pela água e pelo abandono. A cada estação chuvosa, a comunidade vê-se forçada a resistir, reinventar-se e, muitas vezes, a abandonar as suas casas.

Mais de 100 casas permanecem alagadas em Ricatla. A água, que deveria escoar para canais naturais, agora ocupa quartos, cozinhas e quintais. Uma consequência directa das alterações climáticas e da ocupação desordenada de zonas de risco.

As famílias que não conseguiram abandonar a zona vivem entre ferrugem, humidade e lixo. As casas, mesmo de alvenaria, cedem lentamente à deterioração.

Em meio ao caos, as crianças assumem tarefas adultas. A água que destrói as casas é a mesma usada para manter vivas pequenas machambas, isso quer dizer que a água ainda garante alimentação para muitos.


As inundações não deslocam apenas famílias, mas criam focos de doenças. Lixo, plásticos, roupas, e restos de comida flutuam no interior das casas, misturando-se com memórias e móveis encharcados.

A água parada, sem rota de escape, acumula-se ao longo das bermas, entre as casas e até dentro delas, carregando lixo e odor. O que antes era caminho, hoje é território de abandono.
“Nós estamos nisto“, disse um morador. Muitos já fugiram. Outros, como ele, ficaram por não ter alternativa. Crianças brincam e pescadores arriscam-se nas águas sujas, mas todos pedem o mesmo: dignidade, segurança e acção urgente.











