“Lutar Para Perder: Farda, Fome e Fé”- Júlio Magalo

O soldado deixa os seus sonhos de lado para servir o país. No meio do barulho de tiros e ordens que não param de chegar, vê os seus amigos caírem um a um. A guerra continua. A missão tem de ser cumprida. Dizem-lhe que o inimigo está entre nós e tem de ser eliminado.

Enquanto isso, gritos de vítimas misturam-se com os números de notícias. A população vira estatística. Vira manchete. Dizem que a luta contra o terrorismo está a avançar. Mas a que custo?

O soldado guarda tudo na cabeça: rostos, palavras dos chefes, o medo que carrega no peito. Sozinho, fala com os seus, com os vivos e com os mortos. Dentro de si, trava uma batalha contra ordens que vão contra o que sente, contra um sistema e contra o medo que cresce a cada dia.

Noutro lado da guerra, em casa, a sua esposa chora com o filho ao colo. Ameaçada de despejo por não conseguir pagar a renda, liga-lhe em desespero. Do campo de combate, o soldado responde:

“Olha, eu vou pagar a porra da tua renda. Não há necessidade de expulsar a minha família. Tu pensas que hei-de fugir? Sabes o que está a acontecer aqui? Eu estou aqui a combater, a proteger esta nação dos invasores, e tu só pensas em expulsar a minha família. Tu não podes fazer isso. Nunca mais ponhas os teus pés sujos no meu quintal para cobrar renda à minha mulher. Se fores homem, liga para mim. Fala comigo sobre isso.”

É com este retrato que Ailton Zimila nos apresenta “Lutar Para Perder” uma peça de teatro que mistura drama, crítica social e momentos do dia-a-dia de quem vive a guerra. A última apresentação aconteceu no dia 8 de Maio, no Espaço Cultural 16NetO.

Com músicas, cenas interactivas e imagens da vida militar, a peça convida o público a sentir por dentro o que é estar numa guerra, não só nas trincheiras, mas também em pensamentos, casas e escolhas difíceis.

Segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), cerca de 1,4 milhão de pessoas foram deslocadas pelo conflito armado em Cabo Delgado desde 2017 (OIM, Relatório de Situação, Março de 2024). Já o número de mortos ultrapassa as 5.000 vítimas, segundo estimativas da organização de monitoria de conflitos ACLED – Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED, 2024).

Além disso, entre Janeiro de 2023 e Janeiro de 2024, as mortes de civis aumentaram em 300%, de acordo com o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), em nota publicada a 7 de Fevereiro de 2024 (OCHA, ReliefWeb).

Em Março de 2025, a violência intensificou-se, com pelo menos 153 pessoas raptadas num único mês, incluindo mulheres e crianças . Estes números refletem a gravidade da crise humanitária em curso e a urgência de soluções duradouras.

O espectáculo ainda está em processo de criação. E, segundo o artista, em breve novas apresentações irão trazer mais fragmentos desta história, que fala de guerra,  coragem, dor e da humanidade que se tenta calar.

Texto e fotografia: Júlio Magalo

  • 5185 Posts
  • 46 Comments
Fique informado sobre os famosos moçambicanos e tudo o que acontece no mundo de entretenimento em Moçambique.