“Mentiras da Verdade” de Azagaia volta à carga na voz de Kiba, Nikotina e Dice

As eleições presidenciais de 9 de outubro continuam a dominar as discussões em Moçambique, e as reações têm crescido em várias esferas da sociedade. Entre elas, destacam-se os músicos que, indignados com alegadas irregularidades no processo eleitoral, têm usado suas músicas como forma de protesto. Na manhã desta segunda-feira, 30 de dezembro, os rappers moçambicanos Kiba The Seven, Nikotina KF e Dice surpreenderam os seus fãs ao lançar uma nova versão da música “Mentiras da Verdade”, originalmente composta pelo falecido rapper Azagaia, conhecido como “o mensageiro do povo.

Nesta releitura, Kiba The Seven traz versos contundentes que contam problemas sociais do país:

“Imagina matar o artista por causa da sua arte, é engraçado como neste país resolve-se problema. Aqui não se resolve problema, resolve-se quem fala do problema. Já falar do problema? Vamos lá falar do problema. Eu estudei no chão até chegar na terceira, sem contar que neste país educação é dos terceiros. Cresci com Rama e Five Rose, nutrição de terceira. Casa da minha mãe tem teto de chapa, habitação de terceira. A lei parece relativa, Constituição de terceira. Miúdas vendem corpo para comer, prostituição de terceira…”.

Nikotina KF, que recentemente denunciou estar sendo perseguido por apoiar manifestações pacíficas, também deixou sua marca na faixa. Nos seus versos, critica a repressão:

Primeira pessoa do plural, do verbo poder, PODEMOS como camponês deixar a cultura crescer. Aqui só reconhecem depois de morrer… Não alcança liberdade, morre antes da Matola. Mas eles estão prontos para calar cantores com uma pistola. Aqui apagam quadros, nem estou a falar da escola. Não faz como avião de Samora, cai fora… Queremos alto presidente e não presidente alto. Queremos a verdade eleitoral, e quem quer paz são coveiros“.

Para encerrar a música em grande, Dice denuncia a violência policial e pede por justiça às vítimas das manifestações:

Chega dessas balas e do vosso gás lacrimogéneo. Quem um dia fez, agora não faz. Se estás na onda deste barco, tu não cais. Quero saber dos resultados eleitorais. Melhorar as condições, indemnização de quem morreu nas manifestações, de quem está ferido e de quem perdeu membro. Ou não dão braço a torcer porque sabem que não há gesso. Foste uma heroína, Alice Mabote, direitos humanos…“.

Importa recordar que, durante as manifestações recentes, mais de 100 pessoas perderam a vida em confrontos com a Polícia da República de Moçambique (PRM), enquanto agentes policiais também foram mortos. O lançamento de “Mentiras da Verdade” reafirma o papel da música como instrumento de resistência e porta-voz das vozes silenciadas no país.