Instalação “Fragmentos de memória” abre Semanas de Cultura e Língua Alemã

“Fragmentos de memória” é o título da exposição individual de Maimuna Adam (n. Maputo, 1984), que será inaugurada a 01 de Outubro, no evento de abertura das Semanas da Cultura e Língua Alemã, no Centro Cultural Moçambicano-Alemão, às 18h.
A mostra, que estará aberta até ao final do mês, pretende evocar as vivências dos ex-residentes da extinta República Democrática Alemã (RDA) e os significados gerados em torno dessas experiências de contacto intercultural e humano, sobretudo.
Com efeito, Maimuna Adam que pesquisa a migração e viagem através de narrativas pessoais, histórias e memórias colectivas com técnicas de livro-objectos e vídeo arte. É da conjugação destes elementos que a exposição é feita.
Segundo o comunicado de imprensa enviado à Moz Entretenimento, serão projectados dois vídeos que fazem parte da instalação “Writing (a future with remnants of the past)”, encomendada pela Haus der Kulturen der Welt (HKW) em Berlim, para a exposição “Echos der Bruderländer” (01.03- 20.05.2024), curadoria de Professor Doutor Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, Marie Helene Pereira e Paz Guevara.
Noutro vídeo, intitulado “The Story of Regina Madgerman” (3’24’), Maimuna Adam colabora com Regina Madgerman* (*nome artístico da activista Regina de Vera Cruz) para contar uma parte da sua experiência na República Democrática da Alemanha (RDA).
Em “Fragmentos de memória”, igualmente, fez-se uso de material audio-visual e fotografias digitalizadas e gentilmente cedidas pelo projeto Dezentralbild. Em “Mr Deisler Visits Mozambique” (11’13) (2024), a artista mostra parte do processo de abrir, ver, e voltar a guardar alguns livro-objectos do arquivo do artista Guillermo Deisler (b. Santiago, 1940- d.
Haale (Saale), 1995) que foram encarregados em 2022 pelo Centro de Arte Contemporânea de Cerrillos em Santiago, Chile. O artista Chileno esteve em exílio com sua família na República Democrática da Alemanha (RDA), França e Bulgária depois do golpe militar no Chile em 1973.
Os livros-objectos são da série “¡Toma!” (2014), esculturas feitas no antigo Instituto Cultural Moçambique-Alemanha (ICMA) com livros descartados, todos em língua Alemã. O título do projecto refere-se à designação das ocupações de estudantes em escolas no Chile em 2012 quando lá esteve a visitar a sua mãe, Wenke Adam, que fazia parte da equipa que ajudava a Laura Coll e sua família a criar o Arquivo GD.
Em 2014, enquanto frequentava uma aula de Alemão no ICMA, Maimuna Adams encontrou livros que de seguida propôs transformar numa residência informal ocupando o espaço de entrada/galeria KunsTraum do Instituto, montando depois a exposição no mesmo espaço com a curadoria de Mariana Camarate.
Os livros-objetos foram feitos em momentos de contemplação sobre o papel do livro nas nossas vidas, como meio de partilhar ideias e memórias, mas também explorando a sua fisicalidade e materialidade num mundo que faz cada vez mais uso do texto digital.
Em “O início (encontrei-me)” Maimuna pinta uma das primeiras frases que constrói em Alemão, uma língua que está a aprender, sentindo uma mistura de optimismo e fragilidade, como a pequena planta que aconchega no espaço minúsculo do livro, como se de um ‘caranguejo eremita’ com uma nova concha se tratasse.
Em “De Madrugada” e “Processo de crítica (estagnado)”, objectos de uso diário como o saquinho de chá e a caneta de feltro parecem ter sido abandonados, acidentalmente. Cabe ao público especular e imaginar a sua narrativa e interpretação a partir da sua própria ‘bagagem’ de experiências com estes objectos ou cenários a que remetem.
Será que são vestígios de horas passadas a ler para melhorar o domínio da língua Alemã? Em “Mão” a artista usa a técnica de papier mâché com papel e cola branca, criando uma mão em que só o polegar e parte do dedo indicador se vê nitidamente, remetendo alguns ao trabalho manual, ou até o ato de ler e virar páginas de um livro físico.
Ao escolher trabalhar com livros, é possível ver que a artista foi influenciada pelo trabalho de seus pais- sua mãe trabalhou como documentalista (ajudando a criar o Arquivo GD), e seu pai é um Historiador e professor universitário reformado.
Analisar e contextualizar a história, seja ela uma em que a narrativa é pouco ou muito contestada, é uma forma de nos sentirmos em controle do nosso arredor, um exercício que a artista acredita ser importante para cada individuo e grupo sentir que pertence a um determinado sítio ou cultura.
Transformar livros para Maimuna tem um poder curativo no que concerna a auto-biografia/experiência subjectiva de cada um, e tem um poder simbólico com um potencial energético maior em comparação com o acto de deitar fora os mesmos livros.
Ao transformar a forma e o significado de cada livro, Maimuna tenta reflectir em como o ser humano pode estar num processo constante de interpretação do nosso redor- seja ela no ato de olhar e pensar no que vemos, ou na tradução de uma linguagem ou idioma para outra.











