Catorze ‘’Eco da Terra”, de Jo Carina: Da exposição à crítica do observador

Jo Carina
Foto: Mike Marroquim

Por: Izidro Dimande

A exposição ‘’Ecos da Terra’’ está patente no espaço Galeria, até 8 de setembro, observando uma pausa no dia 15 de agosto, para dar lugar ao Bazar das Artes, é nestes momentos onde encontro a desvalorização artística. Uma exposição terá de se desmontar para dar lugar a outro evento, com o risco das obras perderem estética na arrumação, amofinadas à parede, ou, a possível destruição.

Tirando a introdução negativa, Jo Carina ( – a artista usa sem o acento circunflexo), é uma artista plástica, expôs 14 obras fantásticas aos olhos de observadores perceptíveis, abstratas, surrealistas e de pintura, aos olhos de jornalistas críticos, usou a técnica mista em todas, com matérias: tinta acrílica sobre tela, ou madeira, ou sobre tecido e, ainda, carvão. Para Alberti (citado por Janaína Laport Bêta, no seu ensaio sobre APONTAMENTOS: A ESCRITA CRÍTICA E AS ARTES PLÁSTICAS), o artista por sua vez, deixa de ser artesão, torna-se profissional liberal da arte, portador de um pensamento intelectual capaz de reproduzir a verdade da natureza. Em Jo Carina, encontramos a construção de sítios, locais, em que suas 14 mentes deambulam na busca da estética, parte essencial das manifestações sociais. Dos títulos, a artista nomeou-os: Liberdade, Moana, Tribo, Proteção, Valente, África, Moçambique, Rugido do Sol, Sopro, Roots, Tsunami, Manto, Marrabenta e Encanto. Deixando a significação ao critério do observador, os títulos tem poesia, tem contos, assim como as ilustrações artísticas, em Sopro, citando uma delas, Jo Carina apresenta a sexualidade, o nudismo, o prazer e, o coito, na observação mas acelerada do observador. Ou simplesmente a continuidade de outro pensamento artístico, do político, do escritor. Ainda em, o Sopro (colectania de contos de) Nelson Lineu, é a observação da sociedade, o custo de vida, o trabalho infantil e o que considera “a ausência de um sonho moçambicano, a dicotomia individualista e colectivista e a supremacia. Para Ana Marques Gastão, poetisa e ficcionista, no seu livro Oníricas, Sopro, é um dos poemas nascido da fusão do real com o onírico (é tudo aquilo que se refere ou faz parte do que é sonhado ou parte de um lugar fantasioso, próximo ao sonho). Em Tribo, um quadro de 140cmx90cm, tinta acrílica + óleo sobre tela de madeira, Jo Carina expõe as tatuagens tradicionais que contêm elementos reflexivos a natureza, figuras geométricas, simbolizando proteção e orientação espiritual. O quadro de fundo branco-preto, apresenta um rosto a metade, calando-se no mudismo inexistente da boca. Quer expressar um silêncio na divulgação dos nossos símbolos e vivências africanas? Segundo Aniela Jaffé, a interligação da história e da arte remonta aos tempos pré-históricos, e deixou como registo símbolos, por nossos antepassados que tiveram especial significação para eles e que, de alguma forma, os emocionaram. A simbologia, em Jo Carina surge do seu EU, natural de uma província onde as pinturas de mussiro são o dia-a-dia da beleza feminina, a artista ‘’tenta’’ partilhar sua contribuição, à divulgação dos nossos rituais. 

Todas com tonalidade de cores (preto, castanho, cinza, dourado, laranja) que para Chardin, em seu pensamento, a cor era mais capaz de “dar conta” da “alma da pintura”, têm o significado, vem de ‘’Ecos’’ – para esta crítica é repetição ou imitação generalizada, e – da Terra’’ – espaço habitado por nós, que são alguns tons (cores) da terra, mas também realçam diferentes tonalidades de pele, tanto que uma das obras, Moçambique, com o nosso mapa no centro da tela, em dourado, interpreta a cor da sabedoria interior, da qualidade e da riqueza, e é associada ao prestígio, luxo. Contrariando os dizeres de que somos um país paupérrimo de riquezas, a artista plástica, apresenta neste quadro o inverso, ainda em Moçambique, o mar é preto (demonstrando o luto pelo pescado que não conseguimos pescar com a falência das empresas, de pescas), substitui o azul do Índico, o verde das nossas florestas e savanas, substituído pelo Laranja, a alegria que acalma as tromboses da vida, é a vitalidade, prosperidade e sucesso à vista. Mas só com a criatividade nossas ideias terão um fim. O castanho é a maturidade alcançada pela artista, a consciência e responsabilidade dada a criação das obras, traz uma fusão de várias tonalidades de pele, que é muito importante para uma reflexão, onde para Jo, o ser humano tem várias cores. Não simplesmente a cor que está patente sobre a pele, mas várias cores. E as cores também não interessam, o que interessa é a harmonia no seu todo.

Jo Carina
Foto Mike Marroquim

A tela – Liberdade, transmite emoções de apreço visual, na observação do autor do texto. É um quadro sem rosto, a beleza dos seus lábios dá-me essa característica. O corpo negro da mulher, em fios de cores, sobre a testa escondida, coloca-me no desejo de oferendas, um colar africano, uma admiração pela obra. O tempo de olhar a imagem é rápido, dando uma interação dos elementos da obra e a linguagem. É na técnica utilizada pelo pintor que também podemos influenciar as emoções transmitidas pela obra de arte. Pinceladas rápidas e soltas (em Multidão, Rugido do Sol e Proteção) podem transmitir energia e movimento, enquanto pinceladas suaves e delicadas (Roots e Foco) podem transmitir tranquilidade e delicadeza. A pintura pode ser uma poderosa ferramenta de terapia emocional, permitindo que o indivíduo expresse suas emoções de forma criativa e não verbal. Ao pintar, é possível liberar sentimentos reprimidos e encontrar alívio emocional.

No estilo individual de cada artista está, o germe dos “estilos artísticos”, nascendo, neste momento, a ideia de maneirismo – o homem começa a perceber individualidades, peculiaridades artísticas. Mas para Vasari, o juízo crítico sobre a arte deveria ser um pensamento (olhar) à posteriori, para ele, o pintor deveria retratar o que via e apenas isto, o que não fosse visível não seria do âmbito da pintura. Em ‘’Ecos da Terra’’, a artista é autodidata, pinta arte moderna, mesmo, na medida que vai dando cor e luz a cada obra. A minha observação deu-me para além do seu modernismo, o expressionismo (em Marrabenta), abstrato (em Multidão). Sua biografia menciona uma técnica, usada, a Pop Art. Para Rousalind, obras contemporâneas (como a Pop Art) seriam obras “informes”. Para realizar leitura crítica de tais obras seria necessário a articulação de leituras filosóficas. Mas elas têm estética, como mencionado acima, este gosto e génio pelo belo em Jo Carina, assemelha-se a sua individualidade. Artista de uma airosidade, trabalha não só as telas, mas sim, as molduras e os cavaletes, são as mesmas vestes do corpo, combina as cores em todo corpo da arte. Ao comprar um quadro de Jo Carina, o observador, compra ainda a tela e a cavalete, adornos acompanhantes. Em certas exposições que visitei nesta minha existência, o tecido apresenta na estética uma costura ‘’desassociada’’, aqui em ‘’Ecos da Terra’’, pude apalpar os contornos da madeira, verificando falhas no agrafo, inexistentes, deram à luz, para que a considerasse uma mulher com estética. Para Kant, a ideia de estética não poderia ser teorizada e o conceito não poderia ser estetizado. Cambiando o “Isto é Belo” de Kant, por “Isto é Arte” resolve assim a antinomia do julgamento estético moderno, onde o problema não está no “isto é arte”, mas sim no “isto”.

Mesmo que discordem entre si, sobre a legitimidade de ‘’Ecos da Terra’’, Jo Carina expôs, belas obras de arte com significação social.

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