A Crítica: Dezasseis êxitos da Assa Matusse lotam a maior sala de Maputo

Por: Izidro Dimande
Para compreendermos o êxito da cantora Assa Matusse é preciso conhecer sua dedicação ao trabalho musical e, relembrarmos uma nota da importância da crítica musical. O crítico de música não precisa ser um perito, um esmiuçador dos detalhes técnicos (in: PARA UMA INICIAÇÃO À CRÍTICA MUSICAL HISTÓRICA. Vitor Hugo Abranche de Oliveira).
O tema do espectáculo levava o termo Mutchangana, (língua da região Sul de Moçambique que designa os homens e mulheres da etnia Changana) nome do seu segundo disco. Foi pensado na luta do povo Changana que Assa escolheu o tema e nome do álbum, hoje sem seu pai, o António Marcos ocupa esse lugar de ensiná-la os hábitos e costumes changanas.
Passou-se na noite de sexta, dia em que iniciam as comemorações alusivas ao desempenho e dedicação das Mulheres em todas as frentes do saber-fazer, o dia 8 de marco celebra as muitas conquistas femininas ao longo dos últimos séculos, mas também serve como um alerta sobre os graves problemas de género que persistem em todo o mundo.
E Assa Matusse (“Menina do bairro” como é carinhosamente tratada em Moçambique, é cantora, compositora e dona de uma voz inconfundível. Nasceu em 1994, no bairro de Mavalane, em Maputo. Seu talento marcou presença em concursos e projectos musicais nacionais e internacionais. Canta em português, inglês, francês e em changana, onde melhor se expressa. In Biografia) conta com dois álbuns de carreira, o terceiro a caminho, precisou a esbelta mulher vir buscar nas raízes a inspiração para o trabalho que a espera.
Foi uma noite contabilizada em 1500 pessoas. Lotada a sala do Centro Cultural Moçambique-China, fica na história deste empreendimento protuberante, esplêndido, exótico e colossal, sendo a primeira Mulher a atestar o espaço desde a sua inauguração. Lotou os 3 anéis como nunca se verá tão brevemente para cantar e encantar com as dezasseis notas músicas, Mutchangana, Matá ni Tayena, Sombeco, Menina do Bairro, Little Girl, Meu Canto, Nitxintxile, Looking For, Rokotxi, Yinguissa, Aqui Preço, Show Teka, + Eu, Je suis Malade Deja, Aprendes de Aonde e (um mix com António Marcos).
Abertura

foi por volta das 20h50 quando a sala já estava cheia, sentados com os celulares em comunicação, os apreciadores da Assa, esperavam, ávidos de ver conforme praxe em espectáculos com convidados, primeiro o António Marcos ou o Deltino Guerreiro, foram acometidos por um surto violentíssimo de prazer com a entrada em cena da Companhia Nacional de Canto e Dança em um número perfeito de exaltação aos deuses da dança (Apolo, Dionisio ou Musas).
Em coreografia ensaiada, os dançarinos deliravam-nos em movimentos de guerra, de acasalamento, de alegria, soando o chão preto com a transpiração intensa do preto da pele, soletravam um coro de grito de esperança convidando a filha do senhor Matusse (em memória) a se fazer ao palco, vestida de branco (como aparece no vídeo do álbum Mutchangana), em saltos de satisfação, desferiu-se no meio daqueles bravos dançarinos, cantou a primeira do espectáculo – Mutchangana – saiu para se mudar, enquanto o palco era banhado de dois grupos (homens e mulheres) da companhia, continuavam apresentando mais um bailado perfeito para o momento de espera. Ficamos atónicos e com as veias circulando em sangue de arrepios. Foi demais o que esta banda apresentou. Deixou as 1500 ‘’almas vivas’’ em delírios.
Em pé os que sentados estavam, não mais se sentaram, os que estavam nos corredores a entrar, procuravam entre a euforia dos alegres um espaço para aplaudirem e acompanharem o coro dessa linda miúda muchangana, residente em Paris, a terra das diversidades culturais. A Assa no seu esplendor de quem aprendeu a executar na mestria dos franceses, deixou o público em delírios da noite. O que mais me alegrou é ver o coro sem-fim. Enquanto Assa dança, a dança do prazer e do convite da alegria, a qualidade sonora não danificava nossos tímpanos. A luz era lusco para a captação de imagens.
O evento

o cenário do palco era simples, de quem não queria adornos para o mal da fotografia. As luzes aceitavam qualquer aparelho fotográfico captar imagens com nitidez, seus rostos estavam à vista, não havia uma contradição com a maquiagem dos presentes. O som equalizador dava a compreensão das letras e da mensagem que se queria perceber. Houve um trabalho ensaiado dos técnicos para um trabalho perfeito. Sabia-se que Assa Matusse entraria vestida de preto, a contradizer com brilhantinas na roupa, o que em si já era belo. O cabelo em pontas de um penteado afro, os braços foram revestidos por um decote de mangas bufantes e luvas.
As 16 músicas representam uma compilação de dois álbuns seus e foram em ritmos contínuos apresentados a um público que não queria sentar-se, a cada apresentação ouviam-se interpretações e coros, foi buscar o Valter Mabase para a guitarra, o Stelio Mondlane para a bateria, o Nicolas nas misturas electrónicas e o Albano Dove no baixo, é nesta variação da técnica que todos os parâmetros musicais, como duração, timbre, altura e intensidade são ordenados segundo os princípios elaborados por Schoenberg. O público adorou e adornou Assa Matusse com vibrações de entusiasmo. Sua apresentação com Deltino Guerreiro em Rokotxi lembrou o amor que sentimos por alguém, um amor incondicionado que se perdeu e que se pode recuperar, Rokotxi uma música encantada aos abraços e dança da dupla, deixou mulheres angelicais, como diz Bruna Martins – A felicidade foi quando ela encontrou sua própria verdade e descobriu que dentro de si havia muita força para lutar!
“Por que há uma sensação agradável ou incómoda nesta ou em outra parte da música?” ou “Quais os sentidos que palavras ou frases específicas de uma canção nos remetem?” “Qual o sentido de silêncio?” “Qual o sentido da (ou da não) repetição?’’
Estas perguntas não precisam de uma resposta no momento em que entramos em trânsito com nossa espiritualidade emotiva, as respostas divagam no quotidiano do saber e recitar o trabalho da artista. Viver em Paris trouxe a beldade Assa um profissionalismo jamais esperado, na companhia do seu produtor Nicolas, segredou-nos que a arte tem o poder de conectar as pessoas, foi preciso abrir o ano de trabalho na sua terra para que o terceiro álbum saía com atraente, a música é um caminho de transporte cultural, mesmo sendo cantada em línguas diferentes e apresentadas em países diferentes.
Conhecer as circunstâncias nas quais os compositores produziram suas obras não apenas enriquece a compreensão das obras como possibilita ao crítico musical (esteja ele vinculado a uma ciência ou não) estabelecer um caminho, um roteiro por meio de uma linguagem extra-musical, uma narrativa que é menos “esclarecedora” e “explicativa” do que propriamente reconstrutiva: dá sentido.
Assa confessou-me em entrevista que o mercado francês pode ser assustador e muito diferente, a França tem uma indústria e política muito séria e dedicada, precisou de mudar como trabalha a música, chegou num país com diferença linguística o que a obrigou a adaptar-se seriamente no trabalho valorativo. Em quaisquer países onde manifestamos nossa cultura deve o músico entregar-se e ter paciência, saber que propósito deseja alcançar na língua que apresenta na música. A música oferece um conjunto de investigações particularmente rica, que não se reduz a um criador e a uma obra (CHIMÈNES, 2007, p.26).
Os integrantes de cartaz

‘’escolhi-os a dedos por serem pessoas que fazem muita diferença na cultura, amo bastante o António Marcos, faz parte de um período da Assa, sempre aprecio o músico, por aí veio o desejo de dividir o palco.”
Para Assa, António é daquelas escolas que sempre, que for possível, um músico deve consultar. Foi nessa perspectiva que a dupla no palco reviveu êxitos do António levando o público ao rubro. Uma noite de nunca esquecer ficou patente na mente dos demais. É como se pagasse uma dívida, referiu-se Assa sobre a pessoa de António Marcos, que contará com ele no seu terceiro álbum, caso as condições se mostrem. Tem esperança no trabalho do Deltino Guerreiro, adora a forma cantada que sonoriza as músicas, é popular e possui ferramentas para sagrar-se na arena.
O fim
Por volta das 22h30 caiu o microfone da Assa Matusse nesta sua primeira intervenção musical em Moçambique. Esperamos um regresso dela com o 3º álbum. O público, para não se deixar incauto, comprou os mais de 200 discos presentes à venda no pátio do centro, a um preço simbólico de 1.500mt – esgotaram!








