A CRÍTICA EM: CHILDO TOMÁS NUM REGRESSO TEMPORAL E MUSICAL NO GALERIA
Por: Izidro Dimande
Childo Tomás, é natural de Maputo, é baixista, percussionista e vocalista. Canta por vezes em língua local, o Ronga e toca kalimba(?) e baixo eléctrico. Em 1994 mudou-se para Espanha, estabelecendo-se em Barcelona.
Childo Tomás participou de grandes festivais mundiais, como: Festival de Jazz de Barcelona, Festival de Jazz de Roma, Blue-Note Tóquio – Yokohama – Nagoya e Festival de Jazz de Chicago. (in biografia – internet).
Enquanto esperava-lo e depois do sucesso vocal e bambolear do Radjha Aly, esta figura que começou cantando em espaços fechados de sua casa, transmitindo-nos um cantar de embalar ao colo de parceiras, o Galeria deixou-nos num intervalo longo de troca e montagem de instrumentos que vinham acompanhar Salimo Muhamed. Foi um intervalo para namoriscos. Regressou-se no mesmo diapasão sonoro, nada alterou a qualidade de som, várias são as vozes que sugerem à Galeria contratar um engenheiro de som para colmatar o vazio da sala, a aparelhagem é perfeita. Mas o som não o é. O mesmo acontece com as luzes, parecem-me de discoteca. Nós, fotógrafos profissionais, dançamos a cantiga para captar uma imagem, esperamos pela luz perfeita ou ligamos as nossas. As várias cores simplesmente distorcem-nos. Precisa, o Galeria, de um engenheiro também de luz. Duas figuras que irão deixar os instrumentos já prontos para qualquer que seja tipo de espectáculo, por vezes estes, devem estar presentes no evento. Bom, isso foi só uma introdução sobre a luz e o som.
A sala estava cheia de gente aos pares, sentados e bebendo, conversavam em surdina nas orelhas carregadas de brincos diversos, pescoços com cheiros de abafar o suor masculino de trabalho, casados entrelaçam-se na espera do Salimo ou Childo. Os solteiros, conversam em voz alta, abafando o Galeria, conversas de homens copofonicos rodeados de baldes com diversas marcas. A luz era verde, azul, amarela, vermelha, até se apagar. Um raio focava o centro do palco na voz do Salimo Muhamed que entrou saudando-nos (seguido de um discurso apelativo e de agradecimentos). No piso de cima, sentavam clientes degustando iguarias do mar do Índico e das nossas machambas.
Salimo canta e interpreta poemas, o acompanha um guitarrista e um percussionista (diz-se ser filho do presidente Samora Machel).
Inicia com um poema cantado (o comboio nos vai deixar – tradução livre do changana). O personagem do Salimo vive em uma plataforma sem explicação à vista. Salimo canta com emoção, é voraz, coloca-nos em trânsito com corpos celestiais, traz tristeza, coloca alegria, entra em sintonia com uma acção que tenha hospedado no corpo. Na pausa explica-nos este dom de encantar em várias línguas de domínio, viveu duas épocas (colonial e pós-colonial) que o trazem a cantar superações, seu perfil físico não o deixa movimentar os ossos e músculos como na mocidade, tenta Salimo compassar, levanta o joelho à 10 centímetros, esforça-se e consegue, aplaudimos, deixando a sala em inefável. É a dura velhice que o chega.
Maria, carrega esse coração e vá pegar a enxada para o futuro, o país está a desenvolver, tenha cuidado com os jacarés da sociedade. A música remete-me a um ensinamento, a pessoa muito solfa.
Meu amor foi embora. Nesta música interpreta um momento de vida militar, recordando as fugas de um golpe de estado português, Salimo agitou-nos das cadeiras neste blues ( ela foi embora, caminhando no meio da rua da cidade) cantado na tropa que serviu em lágrimas tentadas a derramar no palco do Galeria.
A entrada demorada do Childo Tomás preocupava-nos a mestria da equipa técnica. É incrível como somos obrigados a ver homens trabalhando no palco sem nada para fazermos, tirando os casais de fresco, os conservadores, a imprensa, foi terrível e desgastante.
Childo Tomás entrou como nunca se tinha visto apresentar no seu país, foi belo. Encantou-nos com um jazz misturado, na primeira e segunda música. O público acordou. Aplausos e assobios ecoaram na pequena sala. Suas músicas de facto acompanham êxitos de grandes cantores da terra, interpretadas na guitarra elétrica com sintonia do coro do vasto público. Childo que não o conhecia, tinha muita energia para aquele seu primeiro show de regresso a casa. Sentia sua dimensão ao levar os mais de 200 curiosos e conhecidos que esperaram às 2 horas e meia. Foi supérfluo. Foi magnífico. Foi um filho demonstrando o que aprendeu cá e lá na Espanha, país onde regressa no fim das férias. Por conhecimento, Childo foi buscar o júnior do Chitsondzo na guitarra baixo e no chocalho, no piano e órgão (Nicolau), na bateria (Stelio Mondlane) já não é uma promessa das nossas praças musicais, é um mestre tocador de bateria. Rapazes conhecedores da música e formados nesta nossa escola (a da vida e a da pedagogia).
‘’Foi uma noite emocionante e cantar em casa depois de muito tempo, foi como um reencontro. Quem ouve deve avaliar o género, gosto de jazz e tocou-o”, nesta noite ouviu-se muito jazz e o sentimento do Childo foi não poder ter cantado com Chico António, músico que ia dividir o palco. ‘’foi um golpe para mim, quando recebi o desaparecimento do Chico, havíamos falado para este concerto”.
Childo Tomás está de passagem temporal, vai à África do Sul em gravações, contou-nos que deseja cantar com Matchume um dia destes. Não é cantor o Childo, é instrumentalista. Foi o que vi. Ficamos loucos naquela noite no espaço Galeria, com promessas de um regresso à terra natal.







