Uma nota utópica sobre Maputopias

Uma nota utópica sobre Maputopias

- in Eventos, Opinião

Durante 30 dias (28 de Outubro-28 de Novembro), esteve patente a 1ª edição da exposição Maputopias num dos quartos do Hotel Carlton, na cidade de Maputo, Rua do Bagamoyo, em frente à Escola Nacional de Artes Visuais (ENAV).

Maputopias, por outras palavras, foi/é a forma encontrada para nortear o público sobre novos locais por conhecer e redescobrir na cidade de Maputo. Desenhando-se aqui, durante a sua rotatividade composta por três fases, um novo map (mapa) turístico de locais outrora utopias.

Dos pontos alternativos mapeados na primeira fase nomeado “Cartão Postal”, juntamos fotos de outdoors vazios em demostração dos efeitos da Covid-19 no ramo empresarial e consequentemente para o sector publicitário. Poucos investimentos em publicidade por parte das empresas em meio a crise. Sem nenhuma publicidade, os outdoors tornaram-se em verdadeiras portas/molduras para ver locais que antes seria impossível ver.

E porque a exposição decorreu na rua do Bagamoyo, nesta fase, tivemos também fotos de algumas dessas mulheres (prostitutas) que aceitaram pousar para a lente do Ildefonso Colaço e assim mostrar ao mundo a sua beleza, como também tornar possível a nossa homenagem ao fotógrafo Ricardo Rangel que em vida muito manteve o contacto com as prostitutas no exercício da sua arte.

Partimos para a segunda fase, designada “Documentos”, serviu de encontro com a arte do Barimu, nome artístico do artista outsider Manuel Mapiko, o qual apelidamos de “Jornalista de Maxaquene “C”” pela sua incansável documentação de acontecimentos ligados a sua vida, bairro, e Moçambique, como sonhos, corrupção por parte de alguns dirigentes, dono da maior galeria a céu aberto em Maputo, localizado no seu bairro.

Barimu não só regista como também codifica, em proposta a um novo conceito de escrita, onde não há espaçamento e nem encontro com regras gramaticais. Um eterno jornalista à sua maneira.

O desafio em Documentos foi a descodificação pelos visitantes das informações escritas sobre cartazes publicitários pelo Barimu. Se em “Cartão Postal” apresentamos alguns outdoors vazios, em “Documentos” trouxemos as publicidades que constariam, e sobre elas, Barimu exprimiu a sua arte em crítica há poluição visual por eles causados na cidade de Maputo, quando não há um equilíbrio entre publicidade e arte.

Apresentar locais antes utópicos e artes alternativas, desafiou a um encontro com as formas de vestir das pessoas da Maputo (pia): A moda calamidade ou roupa usada vinda de outros países, e foi isso que se apresentou na terceira e última fase que esteve constantemente “Em Processo”.

Comprou-se o fardo de casacos vindo dos Estados Unidos de América (EUA) e mostrou-se um pouco do que aqui se veste. Não terminou por ai, no final, através do mesmo fardo reflectimos sobre os efeitos positivos e negativos por detrás do uso de roupa usada e vinda de fora no desenvolvimento de uma indústria de moda moçambicana.

“Em processo” porque simultaneamente, em “Obrigado EUA” pela atenção e valorização das artes e cultura moçambicana, tivemos na exposição performance dos nossos dois costureiros, produzindo uma ponte composta por bandeiras dos Estados Unidos de América através das roupas vindas deste país. As bandeiras foram apresentadas no último dia (28 de Novembro) e entre os visitantes, esteve presente o representante da Embaixada dos Estados Unidos de América em Moçambique, Larry Burns, e junto dele deixamos cair o pano desta que foi a primeira edição de uma exposição temporária, mas eterna!

Fica a saudade, fica a esperança de que com pouco, ou pouco a pouco, é possível fazer a mudança.

Saudade dos trinta dias de muita emoção, da exposição que mais gerou debate que qualquer outra coisa. Esperança de que em breve será realizada a segunda edição, acreditando-se que foram quebrados os possíveis estereótipos ligados a rua do Bagamoyo. Rua proibida e ou perigosa para as mulheres que não são de lá, pelas mulheres que ali coabitam exercendo a prostituição com todo gosto e prazer, de que a mulher que lá entrar com roupa curta será insultada ou até agredida pelas prostitutas. As mulheres doutras ruas entraram e visitaram a exposição sem sobressaltos. Foram mulheres ao lado de outras mulheres!

Sim, Alcançou-se aqui o objectivo! Claro que não foi fácil, mas se tivesse sido, não teria animado. Viu-se, diariamente, durante o preparo, o conceito ser restruturado, ideias ficando no papel para que no final, coisas com sentido chegassem ao público, acredita-se que se fez chegar a ideia quando naquele quarto 53, os visitantes rasgaram ao elenco elogios “é algo doutro mundo” ou “incrível”….Só quem esteve para completar.

Uma exposição temporária mas eterna, assim define-se Maputopias.

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