Uma nota sobre a “Revolução Cultural” do Kloro

Uma nota sobre a “Revolução Cultural” do Kloro

- in Álbum, Opinião

“Revolução Cultural” é o nome do segundo trabalho discográfico do rapper moçambicano, Kloro Killa, sucedendo o “Xigumadzene“.

Do nome do álbum, percebe-se que a missão é revolucionar a cultura ou apresentação de dados que pressupõem isso. A pergunta que se faz é a seguinte: terá o rapper alcançado a Revolução Cultural? Ou, que revolução cultural o rapper pretende apresentar?

Antes de qualquer avanço, é preciso compreender o que seria Revolução e Cultura.

No séc XVIII, ocorreram na Europa profundas transformações na forma de produção e apresentação do conteúdo vendido ao nível das indústrias, o que ficou conhecido como Revolução Industrial. Mais tarde, Lênin guiou o povo russo a um derrube da monarquia do país para a ascensão ao poder do Partido Bolchevique, o que ficou conhecido como Revolução Russa.

Neste sentido, e olhando para os exemplos, revolução é toda uma gama de efeitos propostos por um indivíduo, grupo a um dado público, e ao Cultural o espaço em que a acção realizar-se-á, sendo esta palavra uma “derivação” do termo Cultura que definido pelo Edward B. Tylor é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidade adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Então, qual é a proposta do Kloro?

“Chegou o momento da verdade, manda vir tudo, Killa”, assim abre o álbum o Simon (Manda Vir) convocando Kloro a apresentar a dita revolução cultural, chegando o Hot Blaze (Vamos) pedindo ao público para se fazer presente.

Seguindo, e já ao lado do Thatchus (Liberta-te) a proposta de revolução é apresentada, prescrita da necessidade da libertação, encarar os nossos medos ao mais alto nível para um autoconhecimento das nossas habilidades e quem sabe as limitações “vai estudar para ser doutor, o medo vai sempre dizer…afirma que já és e só o fazes para aprender….” e continua com Ell Puto (Sintoniza) assumindo o medo uma “matrecada projectada pelo sistema”, e há que se seguir os nossos instintos para a possibilidade de Boas Vibrações, cantado ao lado do Guto D’Harculete, advertindo sobre o ‘não escravidão mental’ ou prender-se às ideias que não coadunam com os nossos, um convite que continua até a faixa 16 Barras.

E caso não se tenha prestado atenção, já ao lado do Assa Matusse, Djimetta, Walter Nascimento, Damani, Regina, Verbal Uzula e Roberto Chitsondzo, alerta para “inguissarmos” (ouvirmos), colocar a mão na massa, seguir confiando no Processo, sem esquecer de Tlhangar um pouco com os outros por a vida ser um sopro. E neste processo, é importante reconhecermos alguns pontos históricos, caso do bairro Mafalala, num incentivo ao bom modus vivendi que por lá vai surgindo e se interliga com o passado, e também está a arte maconde que dá vida à capa da discografia.

Dissemos inicialmente, tanto na Industrial e Russa, a revolução é algo colectivo, e Kloro mostra estar ciente, tanto que assume já ao lado do Teknik, na faixa que dá nome ao álbum, que isto não é sobre Kloro Killa, convidando outros a apresentarem os seus ideais, pois, “as melhores causas são as colectivas”, ou seja, a única forma de acontecer a revolução é o cultivo (cultura) das “dicas de luz” por parte de quem escutou o álbum.

É claro que uso da palavra cultura possa remeter-nos que a Revolução seria no sentido da área artística, mas não, a cultura que aqui se apresenta é do cultivo de novos hábitos, repensar nos princípios que nos movem, celebração da vida, tanto que nas vésperas do lançamento em entrevista ao Jornal O País o rapper alertou:

“E quando falo de cultura, não me refiro apenas à música, incluo comportamentos, economia… porque a cultura são os hábitos e é o que nós somos”. Assim sendo, qual é a nossa proposta de pensamento para que possamos contribuir para o desenvolvimento humano? É essa a questão base do álbum”.

A Revolução Cultural que tenta o Kloro fazer prevalecer é a mesma que Azagaia abraçou em seu segundo álbum, Cubaliwa, do qual numa das conversas no extinto programa Music Box/Big Box Show assumiu ser aquele um convite ao público a uma nova forma de encarar a vida, puxando-se aqui, literalmente, o significado do nome do álbum (Cubaliwa-Renascer).

É a música a arma que tem o Kloro para deixar ficar os seus ideais, tanto que para fechar, ao lado do Justino Ubakka rende homenagem a ela.

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