“Mc Roger e o drama da má companhia” – Por Elcídio Bila

“Mc Roger e o drama da má companhia” – Por Elcídio Bila

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Por: Elcídio Bila

É incrível o talento do Mc Roger. Mais do que arte, o mano Rogério Dinis está carregado de muita energia, qual uma bateria de alta voltagem, daquelas que fazem funcionar máquinas industriais.

Não devia, nem tão pouco, assim ser mas a praga do embaixador da auto-estima reside exactamente nesse quesito. É que os que estão à sua volta são baterias minúsculas, apenas capazes de ligar um rádio, um televisor e uma ventoinha.

Os que rodeiam Mc Roger fazem-me lembrar os tempos em que a rede eléctrica ainda era uma miragem na zona. E quem tivesse uma bateria era, realmente, o herói e tinha o seu quintal inundado de gente para ver futebol e telenovelas e filmes. Nesses tempos, caso existisse uma bateria com a mesma potência que o Mc, além dos televisores, um quarteirão inteiro seria iluminado juntamente com todos os seus electrodomésticos.

Mc Roger sempre nos fez dançar… e dançar bem; dançar com gosto e animação, dançar como se aquela fosse a única música ou como se fosse o último dia. Os passos de dança que Mc nos fazia investir eram capazes de despertar uma paixão inexistente numa rapariga, uma amizade arrefecida num miúdo bem-sucedido ou toneladas de bolos e refrigerantes nas festas de fim de ano.

Sempre que uma bandeja farta viesse a pista, acidentava primeiro o bailarino da noite. Caso alguém quisesse enfiar a sua mão a servente sacudia-a sem reservas.
Lembro-me, mesmo com algumas nuvens de hesitação, que num desses finais de ano em casa do vizinho da minha avó, dancei até me acabarem as forças. Justifica-se pelo facto de a minha frente estar uma menina muito bonita. Para que conquistasse a sua atenção devia fazer os passos certos na sei lá que música de Mc Roger.

Acredito que o investimento de dança tomava-nos a todos nós. Ou seja, o bom Mc Roger facilitou-nos algumas incursões para o universo feminino e facilitou-nos ingressos em grupos de amigos da elite. Daqueles grupos que normalmente tinhas que fazer um requerimento bem detalhado para puderes fazer parte e mesmo assim, as vezes, era indeferido.

Sempre gostei das músicas do Mc Roger. Falo com toda a sinceridade. Cada música, tal como é com Mr. Bow hoje em dia, era um hit. Mc Roger vinha todo o santo verão, tal como o Pai Natal no Natal. Ansiosos, contávamos o tempo a gotas para que o nosso repertório fosse enriquecido. E o mano Mc nunca decepcionou. Com ele vinham músicas boas, fatos de luxo, videoclipes de alta qualidade e ainda um novo artista.

Digam o que quiserem, mas Mc Roger nunca foi egoísta. O mano projectou muitos artistas que tinham carreiras congeladas como se fossem carne no frigorífico. Zito Doggystyle, Swit, Mr. Arsen, Doppaz, Flash e Zico são alguns exemplos da nova roupagem que Mc deu a sua carreira.

Em contrapartida, os seus convidados davam tudo para que as músicas fossem um espectáculo de sucesso, a título de exemplo: “Em Maputo Eu Me Sinto Bem”, “African Lover Man”, “Baby Boo”, “Tu És bela”, “Mexe Esse Mambo” e o sucesso dos sucessos “Patrão é Patrão”.

Ele cantava (ou falava ou repava) apenas quatro versos e depois dançava mas a música tinha a sua assinatura. O outro, aquele que fez o coro e cantou até a voz “desaguentar” continuava com o seu magro estatuto de convidado. Esse troféu, ainda que ingrato, ninguém o poderia arrancar.

O que muitos não percebem é que, ainda que ele cantasse pouco, já tinha feito muito pela música e não precisava de mais. Quem pensava nos vídeos de helicóptero ou de Mercedes Benz descapotável ou com miúdas bem moldadas à volta da piscina? Quem pensava nos fatos importados e garrafas de champagne com o mesmo preço que do rancho?

Foram muitos anos de sucesso. As premiações são testemunhas. Queiram vocês ou não.

A minha geração cresceu a consumir Mc Roger. Foi o nosso Danone perfeito, uma espécie de vitamina. E considero um erro crasso o facto do Ministério da Saúde e da Cultura não terem assinado um memorando de entendimento para que as músicas do Mc Roger fossem de consumo obrigatório para que todos nós pudéssemos crescer são e saudáveis. É que, para além das valências de saúde, o repertório do Mc alimentava-nos emocional e espiritualmente.

Rio-me com todas as forças quando em programas televisivos inundam jovens que se auto-intitulam “coach” para questões emocionais, financeiras, espirituais e sei lá mais o quê. Dizem que fazem palestras, feiras, aulas de sapiência, etc. Rio-me desvairadamente pois o meu eterno Mc Roger foi tudo isso em suas músicas, mas em contra-partida recebia sacos de pancada. Mc o fazia de forma voluntária e artística, sem cobrar nada, nada mesmo, para além de um humilde respeito.

De há anos para cá, infelizmente, a reputação do meu bom Mc caiu por terra. Nem mangas podres caem desse jeito. E o seu declínio mirabolante apertou-me a vista e dois fios infinitos caíram-me dos olhos. Enquanto uns aplaudiam vivamente seus problemas com a família Guebuza ou com os bancos, os seus velhos amigos faziam festas ininterruptas noite após noite, como se a graça divina passasse a distribuir milhões de euros diariamente.

Desengane-se quem pensa que o auge do Mc Roger foi roubado pelos escândalos. Isso não, até porque depois dessa vingativa tempestade a auto-estima em pessoa voltou ao estúdio, aos palcos e aos vídeos de qualidade inquestionável. O que houve, no meu certo entender, é que as companhias de Mc Roger baixaram de predicado. O homem sugeria bons temas, bons vídeos e boas abordagens, mas os seus companheiros enfiavam-lhes pepinos. E pelo que as coisas estão, tristes, são pepinos gigantes.

Os últimos verões sabem a outono. As suas músicas anunciam temperaturas negativas. Estão abaixo de zero todas as suas últimas incursões. Mas a culpa, toda ela, é de M Family, D Fresh, Juvenal e alguns novos talentos que não preciso os nomes. Zico e Dopaz também entram no pacote.

O que eles foram há tempos hoje já não se vislumbra. Um sinal inequívoco de sabotagem. Aliás, estes dois – bem entendidos na matéria de música e de show bizz – têm mais culpa no cartório. E se Mc Roger quiser reconquistar a sua honra, o melhor mesmo é se desfazer desses dois, pois as músicas recentes que fizeram com o pai do entretenimento não deixam dúvidas de que havia acções maléficas, uma espécie de terrorismo musical.

Por isso, os novos singles – excluindo a que tem a participação de Mr. Bow – são uma tragédia internacional. A guerra na Síria e as músicas dos últimos anos de Mc Roger tem o mesmo impacto belicista.

Para terminar, sou da opinião que Mc Roger devia ou parar de chamar sabotadores nas suas ideias geniais ou investir em participações internacionais. Pois, ainda que a piscina do Radisson e do Polana estejam a sua espera a cada verão, a marrabenta ou pandza ou, o que mais sabe fazer, o reggaeton, não terá o mesmo sabor.

Nota: Façam o favor de escutar algumas (novas) músicas este fim-de-semana vão me dar razão.

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