“Faltamos com o respeito os Mambas, desonestamente” – Elcídio Bila

“Faltamos com o respeito os Mambas, desonestamente” – Elcídio Bila

- in Notícias, Opinião

Por: Elcídio Bila

Eu até pensei que aqueles adeptos – entre os que deram a cara às câmeras dos jornalistas e os que falam por aí – o fizessem pelo facto dos Mambas merecerem o nosso calor e pelo facto de anteciparmos a solidariedade. Os nossos irmãos iam à guerra, lutar pela pátria, e não podíamos fazer publicidade da chacina que iria advir dessa viagem ingrata. Então, quando em prognósticos ouvi que Moçambique iria vencer a duas, três ou mesmo a uma bola contra os Camarões recolhi-me ao silêncio, não querendo me assumir como enteado da pátria, um insurgente desportivo, vaticinando o óbvio.

Ora, 90 minutos depois, estarmos a lamentar pela derrota e estarmos a insultar os Mambas pela goleada ou mesmo estar aos prantos, chorando lágrimas de sangue porque a nossa nação foi humilhada desportivamente é, no mínimo, uma desonestidade e falta de respeito para com os nossos.

Não precisamos fingir mais dor. Em nós já não dói nada e estávamos preparados para não sentir nada. Todo o moçambicano sério está dopado em relação aos Mambas, uma anestesia infinita – não há nenhuma agulha que nos fira a pele, uma acção que nos perturbe o cérebro ou um sentimento que nos incomode o coração. Estamos feitos aquela mulher constantemente traída, que já não se abala ao descobrir uma nova concubina e preocupa-se em cuidar dos filhos.

Se calhar ninguém tem coragem de gritar isto: a COVID-19 foi-nos generosa ao proibir que assistissimos chacinas no Zimpeto sempre que pessoas vermelhas, feito tontas, corressem pelo relvado. Os que têm camisetas usam-nas nas barracas aparentemente fechadas e fazem seus golos alcoólicos pela noite adentro.

Se alguém, em algum momento, esperou um resultado contrário, imediatamente, deve ser evacuado ao hospital psiquiátrico mais próximo, pois a sanidade dessa pessoa está em risco de provocar danos maiores a si e aos seus.

Portanto, deixemos de lágrimas de plástico, pois sabíamos que os Mambas já tinham perdido antes mesmo de subir o avião. Mas porque eles deviam correr e transpirar, nossos irmãos coitados, devíamos fingir que esperávamos vitória. Aliás, até eles mesmo sabiam. Portanto, julgarmos que são tolos e que a nossa esperança é que voltassem com três pontos é uma falta de respeito a uma selecção que insiste existir.

Quanta desonestidade!

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