Actor e professor de teatro, Dadivo José, fala do estágio do Teatro em Moçambique

Actor e professor de teatro, Dadivo José, fala do estágio do Teatro em Moçambique

- in Notícias, Teatro

 Dadivo José na novela Maida

O teatro foi uma das áreas artísticas mais afectadas pela pandemia da COVID-19, em todo o mundo e Moçambique não foi a excepção. Entretanto, com a diminuição das restrições impostas para evitar a propagação do vírus, as coisas foram melhorando aos poucos e os actores começaram a ficar aliviados.

Em 2022, várias actividades teatrais foram realizadas em Moçambique, provando que o teatro estava de volta em peso, mesmo depois de ter sofrido um grande golpe da COVID-19 e a expectativa é que, em 2023, as coisas melhorem ainda mais. 

Para ter uma melhor visão sobre esta arte no nosso país, a Moz Entretenimento entrevistou Dadivo José, um renomado actor e professor do teatro, na Escola de Comunicação e Artes da UEM, que começou por dizer que estamos num bom caminho, levando em consideração que ficámos quase 3 anos “parados”, 2020, 2021 e 2022.

“(…) mesmo que tenham aberto as salas (de teatro), ainda havia um bocadinho de receio, então foi se voltando gradualmente. Em 2022, tivemos o Festival do Inverno, Festival Kuphanda, algumas salas de teatro a abrirem e o Gungu voltou a fazer os seus espectáculos (…) Tivemos grandes produções, dou exemplo de “Chovem Amores nas ruas de Matador”, um texto de Mia Couto, muito bem adaptado, encenado por Vitor Gonçalves, que teve uma digressão na Europa. Isso é uma amostra daquilo que pode vir a ser o 2023, porque parece que o medo por causa da COVID-19 já desapareceu. Neste momento, estamos numa fase de preparação e acho que, em 2023, teremos um “boom” em termos de grandes realizações teatrais, porque se acredita que podemos voltar aos palcos sem problemas”, avaliou o actor.

Plalco de "Chovem Amores nas ruas de Matador"

Desafios do teatro em Moçambique

Nesta volta aos palcos, o teatro moçambicano continua a enfrentar sérios desafios que, de acordo com Dadivo José, são os seguintes:

“(1) Temos a questão do espaço, neste momento, temos apenas o Teatro Avenida, Cine Teatro Gilberto Mendes, Centro Cultural Franco-Moçambicano e depois temos pequenos espaços (…) então os grupos devem se reinventar criando espaços alternativas. Para ter acesso aos espaços grandes ainda é um pouco complicado para a maior parte dos grupos. (2) Condições técnicas, não há equipamento de luz e para tê-lo são valores muito grandes para aquilo que é a realidade dos grupos. (3) A questão da publicidade na televisão. Graças a Deus, os grupos tiveram que aprender a superar, com o advento da evolução das tecnologias e redes sociais, agora, fica mais fácil fazer a comunicação e divulgar os espetáculos, sem recorrer às grandes televisões. (4) Depois temos questões técnicas de actuação, acho que os grupos devem aprimorar as mesmas. Se nós tivéssemos festivais consistentes e sistemáticos, provavelmente teríamos workshops, mais convívios e os grupos iriam aprender um bocadinho mais, teriam um choque de realidade, iriam ver grupos mais evoluídos que outros e aprender uns com os outros, mas os grandes festivais ainda são uma miragem, só temos um festival, que é o Festival de Inverno e que não é profissional, então fica um pouco complicado superar estas lacunas.” – finalizou.

Apoio do Ministério da Cultura e Turismo ao Teatro

Em meio a tantos desafios, a Moz Entretenimento ficou a saber que, felizmente, os actores têm recebido bom feedback do público e uma certa valorização por parte do Ministério da Cultura e Turismo, mas esta instituição poderia fazer muito mais para os artistas. 

“Somos valorizados pelo público e acredito que também pelo Ministério da Cultura e Turismo…agora, gostaríamos de ver esta valorização materializada de forma palpável na vida do artista, por exemplo, o ministério criando condições e regulamentos que forcem ou possam persuadir o sector privado, os mecenas a patrocinarem o teatro e ver esta arte com uma actividade que os possa permitir ter ganhos sob o ponto de vista da imagem”, apela o actor e acrescenta que “Há uma percepção de que o ministério deve nos dar dinheiro, não, nós não queremos dinheiro, mas sim que crie políticas e mecanismos que nos permitam chegar em quem tem dinheiro para podermos trabalhar.”

Venda de espaços culturais para fins comerciais

Ainda sobre o governo, Dadivo comentou sobre a crescente onda de venda de espaços públicos que foram concebidos para as artes para fins comerciais, que tem tomado conta do país, dizendo que tem que intervir.

Eu acho que o governo  tem que colocar a sua mão nisso. Não se pode vender teatro ou sala de cinema para um indivíduo que depois vai transformar aquilo em supermercado ou armazém. Nós artistas até podemos não ter dinheiro para fazer o uso e maximização do espaço, mas deve-se exigir que quem for a comprar o mesmo tem que usá-lo para o fim que foi construído, que é meramente artístico. Se eu pudesse, comprava o cinema Império e o Cinema Charlot, mas não tendo capacidade para isso e exista alguém que tenha, que seja orientado a usar estes espaços para fins culturais artísticos”, concluiu.


Assim foi a nossa a entrevista com Dadivo José, esperamos que tenham gostado.

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