“A vizinha sozinha de Zinha e Sabina” – Simião Mahumana

“A vizinha sozinha de Zinha e Sabina” – Simião Mahumana

- in Crônica
Por: Simião António Mahumana, in Facebook
A leitura de estórias proporciona múltiplos e diversificados sentimentos, a reboque da multiplicidade de idiomas, linguagens, personalidades, carácteres e situacões. O que é que esta afirmação leiga pretende fazer? Tentar enteder o que é que a Zinha e a Sabina andaram a usar como sofá equanto liam Uma senhora sozinha de Dario Fó, o que é que andaram a confecionar depois de criar uma receita de contar estórias, e como é que decidiram servir a mistela.
Pegaram numa senhora que estava sozinha em casa, rodeada de pessoas que não a entendem e a esvaziam do senso de estar, e a puseram nos limites em que a casa olha para fora; e ela gritou: Olá Vizinha!. E espaço se expandiu a bloco de casas, diriamos que, no contexto Moçambicano, o assunto virou ponto de agenda para chefe de bloco de 10 casas!
Desprevenidos, lá fomos munidos de lentes e ouvidos sem tampões para bisbilhotar uma senhora que só poderia estar falando sozinha, sem vizinhança, montada por mana Zinha naquela casa, quando muito falando com os utensílios da cozinha. Coisíssima nenhuma, dúvida nenhuma se vislumbrou, quando a senhora sozinha pulou imediatamente para fora de casa, gritando que a esquecida de com quem se casa, de casa se descasca e se alimenta dos odores vizinhos que chegam a casa. Olá! Gritou, e todos nós olhamos para as nossas costas.
Pretexto para uma causa não muda, que fala, sorrindo de corpo e alma, a senhora sozinha subornou nossa atenção com confissões que não queria que fossem denunciadas, porque significavam vantagens cuja razão só ela podia admitir; assim pensei até ouvir a voz de uma espectadora em lugar muito próximo, que invadiu o silêncio com que a disciplina instintiva dos que vêem actuação dramática de coração seguem o enredo e adiam a gargalhada que responde à satira, aos punhos que batem os peitos em revolta e aos ahhh que confirmam a razão, compaixão e paixão. Depois da vizinha recém chegada, numa mistura de trabalho de voz de dicção enciclopédica e poeira do obstinado trabalho de limpeza, a senhora sozinha acabava de nos integrar no espectáculo.
A roupa da senhora sozinha clama por companhia, feita molas que içam uma mulher cujo marido a abandonou de manhã no chão colhendo a indiferença das bofetadas e pontapés que denunciam a indefinição dos sentimentos que ditaram a união matrimonial. As cores chamam por companhia de sexo masculino, aquele que a biblia sagrada dita que deve ser fonte da razão de ser de uma auxiliadora, cores de uma bandeira cujo dono se desgoverna porque pouco sabe que tem auxiliadora a quem recorrer e, sem egoismos, a dá emprestado como auxiliadora ao irmão portador de deficiência. O marido da senhora sozinha, tanto sentiu os desafios do irmão, que pegou em parte de si mesmo, que não sabia ser parte de mais ninguém e a depositou na jaula de quem necessita da ajuda de alguém que nunca foi ensinado a estimar. E a solidão da senhora se aprofundou a fundiu sonhadora e acompanhada. Sem admissão aparente, o sonho se consumou consumindo dia após dia.
As cores do vestuário se intensificaram e alcançaram prontidão para atenções alternativas, descodificando avanços de afecto até no vizinho, no agiota que só chega via telefone e na vizinha que acabara de chegar. As cores do vestuário consumiram a personalidade das paredes e se adonaram da soberania da casa, uma casa de afecto que procura, que está procurando.
O autor destas linhas teve o privilégio de acompanhar a primera década da carreira da actriz Sabina e pode com firmeza proclamar a manifestação de grandes conquistas e maturidade no trato com o texto, com o gesto, com a palavra, com a preocupação em comunicar envolvendo o público sem que a intervenção emocional deste com a estória distorce as previsões da encenação, assim como de usar ações aparantemente inofensivas para transmitir grandes mensagens, sem cair no redundantemente óbvio. E nisso ela conseguiu o famoso triangulo de forças.
O triangulo de forças não foi devidamente convidado pelo título de Dário Fó, que sugere um espectáculo em que o espectador será um conteplador cheio de compaixão. Ao dizer olá vizinha, a encenadora e a actriz tiveram a malícia de colocar os espectadores no emarranhado da vizinhança. Chega a parecer que estamos num flat que se encontra entre a casa da senhora sozinha e a recém chegada vizinha, e assim embarcamos na sociologia da vizinhança, como que a deixar testemunho aos que irão narrar as coisas depois da nossa morte: “ai vai o segredo que não deve ser revelado agora, mas que voçes devem conhecer”.
Esta é a peça dos adereços inofensivos e atacantes. Apenas lá mais a frente é que percebemos que o actor (Edmundo Matsiyelana) que estava no canto esquerdo do palco não estava ali apenas como músico, na altura em que serviu para a materialização do jovem amante professor de língua Inglesa. Afinal, a senhora não vivera completamente sozinha! Cheio de possibilidades, o marido criara condicões para um romance entre a carente senhora sozinha e um jovem professor cuja mãe distante ganhou a alegria de ver alguém que cobria o filho de alcova e maternidade. A mãe do professor foi também professora da senhora sozinha, que passou a ter saidas de salto alto, roupa extrovertida e cigarro. Sim, o cigarro deu estilo; quantos não o adoptam para o resto da vida em resultado da busca de um estilo.
A catarse estava, indubitavelmente, destinada a estar ligada à resolução de um ambiente de injustiça em que a senhora se encontrava, mas a falsa segurança que o matrimónio parecia lhe garantir (roupa, comida e utensílios domésticos) impedia a denúncia, desencorajava a punição do maridão e até almofadava as dores que ela ficava a gerir quando o marido partia para os seus compromissos.
O espectáculo revela ser fruto de um trabalho intenso de criação, num processo em que o original serviu como um pretexto. É um espectáculo que consome os seus fazedores na forma como os aspectos psicológicos dos actores são exercitados e buscam as mentes da audiência. Fica a sensação de que se pedirmos dois espectáculos por dia, a equipa nos pode pedir licença para se ausentar. A intensidade alta que caracteriza o espectáculo desde o minuto um nos remete a um dos poucos reparos a fazer em relação a actuação: naquele dia, não foi possível ajustar o ritmo vocal e comunicativo a todas as fases do espectáculo (será que teve que descansar em algum momento?).
A senhora tem um bebé pequeno, que parece ter recebido pouca atenção da direção de cena, os gestos de seu manuseamento ficaram atrás da mestria com que o trato foi dado ao cunhado portador de deficiência. Não ficou claro como é que o bebé ficou nas saidas furtivas da senhora, nem como o cadeado do marido cedeu às mesmas saidas.
Este espectáculo merece grandes audiências e, pela facilidade com que o elenco se pode dirigir a qualquer ponto de Moçambique, recomenda-se, para amantes do teatro, estudantes e especialistas de comunicação sobre direitos da mulher vítima de violência nos seus termos mais sublimes e sorrateiros. No dia que fecha as cortinas, a catarse apareceu através das mãos da senhora sozinha, empunhando a caçadeira na qual já vinha se vingando ornamentando-a em padrões femininos, em agressão reorientada para um adereço que a qualquer momento podia parar nas mãos do destinatário evitado, e a caçadeira feita carabina da sozinha Sabina venceu as neblinas do medo de virar viúva sozinha e..paahhh! O maridão passara dos limites; ele podia agredir fisicamente, trancar todas as portas, obrigar toda a gente a se alimentar exclusivamente de boi (o homem ia ao talho comprar todas as partes imagináveis do mamífero), obrigar a cuidar do irmão mas … chamar-lhe puta não!
E a senhora sozinha nos abandonou ali, sozinhos na missão de fazer julgamento de uma acto cuja raiz foi exposta a todos nós, em todos nós enquanto consumiamos a mistela e nos lança para os corredores mortíferos da busca de justiça imparcial.
Zinha encenadora de olá vizinha, Sabina de sã neblina nessa actuação de encher o fôlego, e subtil Edmundo Matsiyelane…obrigado!

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