“Lágrimas de mãe”, de Dama do Bling: a conversa que falta?

“Lágrimas de mãe”, de Dama do Bling: a conversa que falta?

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Por: Elcídio Bila

Já diz o provérbio: é conversando que a gente se entende. A conversa, ainda que sem açúcar, no final, adocica os intervenientes e une os inseparáveis. Se nem sempre termina assim, pelo menos, ajuda a partilhar emoções, reflexões e posicionamentos de um e do outro.

A recente música de Dama do Bling, tal outras tantas sem a carimba do ragga, chama-nos para uma conversa. A que muitas famílias, de quando em vez ou mesmo sempre, deviam ter. Nesta música, Bling coloca no sofá (literalmente) duas rivais que não deviam nunca ostentar as marcas desse título: sogra e nora.

Não surpreende o facto de ser a sogra, na qualidade de mais velha e, consequentemente, experiente a chamar a nora, quão filha de sangue, para uma sentada. Mesmo assim, o perfil da música não fica beliscado por esse factor comum. Aliás, como forma de reparar esta constante nesse tipo de conversa, Bling (a sogra) usa uma voz meiga, mas cheia de certeza e amigável. Um claro convite ao pacto, ao mesmo rumo e a harmonia. Não só, as palavras que a personagem selecciona na voz poética da artista foram escolhidas à dedo, mesmo a condizer com a tonalidade e o semblante, e confirmam o respeito pela interlocutora (e pelo filho) e a maturidade da locutora. Assim, Bling deixa-nos, nas entrelinhas, um outro recado, como se de lição se tratasse: não basta ser adulta tem que se ser madura. E maturidade não se faz apenas com conselhos, mas como o objecto dessa missão, tal como ilustram os primeiros quatro versos:

“Começo esta conversa chamando-te minha filha/pois considero como se tivesses saído da minha barriga/e porque a maternidade tem variadas formas/nem sempre é o sangue que em família nos torna…”

A qualidade de filho (neste caso no feminino), não se legitima apenas pelo facto da interlocutora ter-se casado com o filho. É mais profundo. Bling acredita numa outra maternidade. Ver o filho juntar-se tem o mesmo significado que dar a luz mais uma vez. Mas não só. Porque pai/mãe é quem cuida, ela, como mãe que é, senta-se para dar direcção à nova filha.

Além deste poder moral que escasseia em muitas famílias, a quadra que inaugura esta música, depois da legítima introdução feita por Vekina – uma voz bem rodada nas bandas moçambicanas como corista – é carregada de um teor poético bem conseguido. Basta ouvir atentamente os versos que dizem maternidade tem várias formas e que nem sempre o sangue é que nos torna família para perceber o exercício que Bling faz para que as suas letras, ainda que tenham um impacto social não se esvaziem de arte.

Este aspecto que a mim me diz bastante – o culto à poesia – não deixa, a meu ver, de ser outra conversa convocada a nível da família moçambicana de artistas. Bling, com esta veia quase que singular, junta-nos, a todos nós, no sofá para dialogar sobre à direcção que devemos dar às nossas composições.

A lição sobre como se ser nora e sogra, mas amigas está, nesta música, umbilicalmente com a de ser artista mas com boas composições. Ora vejamos, se preferirem oiçam:

“Torcia para que nós duas fôssemos amigas/daquelas que conversam, que segredos partilham/mas pelo que vejo seremos sogra e nora rivais/que convivem na mesma casa mas vivem como animais/eu a recebi de braços e coração aberto/procurei uma amiga como chuva no deserto/quis ter uma filha, uma amiga e companheira/mas fui tratada por cobra, bruxa e feiticeira…”

No excerto acima, que liga com os outros versos que aqui expus, nota-se uma mínima intensão de apenas rimar. É como se as palavras a ela escolhessem e não o contrário. Seria impossível que em algumas construções não se vislumbrasse certo esforço, mas os versos escorregam goela abaixo feito um sorvete em tarde de verão. E o facto de o tema ser específico não permitiu demasiada redundância, por Bling se ter comportado como uma Dama nesta música, apostando naquilo que eu sinto que é a sua veia, a de contadora de estórias. Quando se conta uma estória perfila-se uma narrativa. Ainda que não fossem nítidos os diferentes momentos – o tempo, espaço e outras características – a música é guiada por um fio-lógico que não permite, muitas vezes, descarrilar.

Vekina, já no coro, faz o que deve ser feito nesses momentos. Consubstancia a sua experiência como corista em grandes espectáculos. E dá o legítimo intervalo ao leitor atento desse poema. Ao mesmo tempo, dá espaço de digestão dos versos que Bling expõe na primeira estrofe. Afinal, precisam ser bem mastigados e engolidos para que se possam saborear e saciar.

Ainda que esta intervenção seja propriamente do canto, a leveza da voz da convidada não rói a cadência da protagonista. Embora não se trate de um coro de continuidade, mas de resumo, que se encaixa em diferentes momentos da música. Ainda assim, não se nota a interrupção.

Na segunda estrofe, mesmo a justificar a pausa, o sujeito poético não insiste mais naquele discurso de início, em que convida a nora para ser amiga e mais amável. Deixa as coisas mais claras, tocando na ferida, ou seja, dando provas substantivas do porquê dessa conversa e, porque não, da razão dessa música existir.

Neste segundo momento da narração, qual mesmo uma história, Bling preocupa-se com a descrição do que a nora devia fazer, ou melhor, não fazer. É muito bem conseguida essa intenção da artista esquecer o genérico e aprofundar os factos, como se procurasse consolo na sociedade e, talvez, alguma condenação às noras. Ao mesmo tempo, como outra linha de leitura, Bling tenta-nos dizer que afinal as palavras como cobra, bruxa e feiticeira que as sogras recebem não passam de armas apontadas à preguiça.

À conversa sobre a saúde da nossa música, junta-se também esse aspecto chamado diversidade ou “outras abordagens” quando se trata de composição. Ainda que Bling fale do mesmo assunto, já não o faz na linha recta. Aliás, se assim fosse, a música devia terminar na primeira estrofe como muitas outras que insistem em continuar já sem conteúdo variável.

No fim, ao sabor do verdadeiro desfecho narrativo, Bling deixa os últimos recados:

“Não olhe para mim como sua eterna rival/não é comigo que você se deve preocupar/quando lhe chamo atenção, quando há fumo no ar/é como mãe e mulher que eu lhe tento alertar/meu coração estará sempre aberto minha filha/tal como meu filho serás sempre tratado como família/mas deixo nas tuas mãos o destino desta luta/só quero que te lembres que mãe é só uma.”

Aqui Bling não só mostra a abertura da sogra, como também mostra a sua superioridade intelectual, mas fazendo entender de forma avessa: que nem todas as lutas são vencidas com armas em punho. Baixando à guarda também é possível se sair vitorioso. A sua vitória está na harmonia familiar, esta que a nora – a semelhança de várias manas – desconhece.

Ainda no que concerne a música, é importante referir que quando Dama do Bling baixa à guarda – o tom de voz e procura temas sociais – tem sido vitoriosa do que nos voos dançantes. E a sua habilidade discursiva bem que podia servir para as suas “amigas”, aquelas que granjeiam admiráveis sonoridades mas pecam no quesito conteúdo.

O vídeo que ilustra este enredo – bem captado pela Maocha’s Filmes e encenado pelos actores do Centro de Recriação Artística – dava, sem dilemas, um outro texto. Por isso não vou cair no desprazer de ser subtil, mas não dizer que é outra obra bem conseguida e que sugere também uma conversa no sofá dos directores de vídeo seria um descalabro da minha parte. Ainda que os actores e o cenário tenham oferecido ingredientes mais do que suficientes para que o vídeo tivesse sabor, as manobras do câmera – afirmando através de imagens a tensão entre a sogra e nora (e o filho pelo meio) – contrariou o tradicionalmente aceite na nossa parca indústria audiovisual e mostrou que as imagens não só falam como também transmitem sentimentos.

Será mesmo que “Lágrimas de mãe”, de Dama do Bling é a porta para aquela (velha) conversa que falta nos corredores das nossas famílias e da nossa arte?

Eu não sei. Minto, sei sim.

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