“A kaya” de Xitiku ni Mbawula: Algumas (in)satisfações – Por: Elcídio Bila

“A kaya” de Xitiku ni Mbawula: Algumas (in)satisfações – Por: Elcídio Bila

- in Opinião
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Por: Elcídio Bila

“A KAYA” DE XITIKU NI MBAWULA: ALGUMAS (IN)SATISFAÇÕES
(Não foi presente de Natal, mas é como se fosse)

I

Já se diz em tom alto e carregado que este é o ano do hip-hop. Gosto da convicção em muitas bocas e fico tranquilo ao perceber que não parte só de curiosos, mas de personagens que profissionalizaram esta cultura de rua lá vão pouco mais de duas décadas. Não é necessariamente cabível nesta intervenção este tipo de posicionamentos, mas não me faria de rogado e não questionasse o papel do hip-hop nos anos anteriores e dos actores que hoje vociferam aos quatro cantos que sim este é o ano. Questionamentos à parte. Sinto que esta provocação não passa de um oxigénio para que os outros rappers tirem das gavetas suas poeiras e, tal um compromisso já afirmado, registem algo e divulguem-no com todas as suas forças. E que hajam mais espectáculos, debates e, talvez, livros e revistas. Nada mau!
Entretanto, cá para mim, o ano hip-hop, até que os meses restantes me revelem o contrário, fora a crença de alguns, foi o ano passado. Entre outros acontecimentos, o álbum do grupo Xitiku ni Mbawula é uma das provas desta tese. Quando já se estava no calor (ou frio) dos balanços e quando não mais se esperavam manobras, o hip-hop mostrou-nos que ainda havia muito por se respirar. O Beer Garden tornou-se, num ápice, o santuário discográfico do hip-hop.

As longas filas, o semblante alegre e as vendas desmedidas são imagens elucidativas que este novo paradigma no universo hip-hop era há muito aguardado e ainda bem que iniciou com aqueles que as nossas prateleiras estavam sedentas de suas discografias. Xitiku ni Mbawula encaixa-se perfeitamente nesse grupo de artistas.

II

O título não podia ter encaixado perfeitamente se não fosse este: A Kaya. Mas, por outro lado, caso não, seria menos previsível. Talvez este ficaria bem na fotografia se usado apenas como slogan. E qual seria? As 19 faixas, assim ao alto, parece ter este (o título) a capacidade de bem representar. Além disso, este é o principal conteúdo do álbum. As outras atmosferas líricas são a cauda desta casa (traduzindo “a kaya”) que aqui nos é apresentada, ao mesmo tempo que é exaltada, defendida, amada e idolatrada, qual uma figura divina.
A kaya (a casa) que S.Gee e DingZwayu nos revelam é bem mais ampla que essas que preenchem os nossos quintais, seja de famílias mais carenciadas até das mais abastadas. Esta casa foi bem “metonimizada” por Bruno Chichava na capa. Aliás, a imagem foi bem conseguida neste projecto discográfico, traduzindo de forma explícita de que casa se trata.
Na verdade as casas são duas: a física e a psicológica. Ao passearmos o olhar na obra de Chichava criamos muitas outras imagens no nosso subconsciente. Claramente estamos perante um espaço africano, consequentemente, os nossos valores – crenças, mitos, vivências, histórias e heróis – também vêem ao de cima.

Esta kaya que não é apenas África mas a africanidade em si quão um símbolo é sustentada pela língua. O changana (ou ronga) e chope, como metonímia de outras línguas, legitimam o poder deste espaço africano, mas também como um universo onde por si só sobrevive. Afinal, a comunicação é um sinal de vida, de educação e de cultura por isso que há um “xitiku ni mbawula”, para que de geração em geração sejam partilhados ensinamentos.

Através da língua, os dois jovens que nos reúnem durante 66 minutos nesta cavaqueira, mostram pelo que África passou. As presenças de Iveth, Simba e Azagaia, nas faixas 9, 14 e 15, bem nos recorda a guerra entre os ingleses e portugueses para colonizarem o nosso país. Já na faixa 18, Face Oculta é uma espécie de Rei Ngungunhana, quem lutou até ao último suspiro defendendo essa pátria, embora, por outro lado, lutasse também contra os próprios irmãos aqui metaforizados por S.Gee e Dingzwayu (É. O gajo lhes amarou). Noutra leitura, legítima por acaso, o cruzamento de línguas não deixa de ser um recurso para a universalização do álbum.
A África está neste álbum bem arquitectada com o design do CD, com a língua e com a mensagem. A instrumentalização, por outro lado, não é suficientemente reveladora das origens desses dois monstros do hip-hop moçambicano. Caso Dj Sidney consiga escalar outras esferas, não sei se facilmente se situe a pertença desse lirismo. Os ritmos tradicionais mereciam prevalecer em mais faixas. No lugar de alguns sopros de Baba-X, por exemplo, – quem quase monopolizou o álbum – beats com base na timbila, mbira, entre outros instrumentos fariam com que exalasse um perfume sonoro que bem justificava o título e o nome do grupo.

III

Quanto à composição do álbum não sei se há o que revelar. Os fiéis seguidores desta dupla não tem com o quê se surpreender. Muitas músicas foram-nos brindadas até à fartura, embora aqui apareçam com novas molduras. Uns dirão que mesmo assim era antes de as termos em formato físico. Outros, como eu, não sustentam a réplica desnecessária, cuja pirataria oficializada já fez o seu trabalho.
Ainda assim, não se descarta nem de longe o potencial lírico dos manos em quase todas as faixas. 19. Muitas não é? O suficiente para criar um cancro auditivo, sobretudo com Baba-X a bater a caixa da mesma maneira. Se calhar faltou a imagem do editor, para facilitar a arrumação das músicas e descartar as mais gastas, mesmo que isso magoasse os autores.
Não quero assumir nem pouco o perfil de editor, mas penso que a faixa 2 bem substituiria o intro, um elemento já em desuso na discografia, à semelhança do prefácio em livros literários. “Khomani svitiya”, com Isabel Novella, está no lugar certo. A pluralidade da abordagem é satisfatoriamente rica, mesmo cumprindo com a missão de inaugurar este discurso discográfico.
Se quiséssemos dividir o álbum seria em três partes, os skits (não sei se pertinentes) ajudam-nos nessa tarefa. O primeiro bloco é de quatro músicas. Trazem basicamente uma mensagem de consciencialização, enfatizando o drama do HIV-Sida. Há quem possa julgar que os temas “Tlanga Upimela” e “Yenhleketo” não podiam estar juntos. Ou um ou outro. Não vou mentir que inicialmente pensei assim. Mas com o tempo (não o tempo que se leva para uma moça feia tornar-se bonita) percebi que a segunda faixa é como se fosse a consequência da primeira. Ou seja, se na primeira música os rappers aconselham ao comportamento positivo na luta contra o HIV, na segunda trazem uma radiografia do mal que esta doença causa quando não evitada.

O segundo bloco situa-se em dois polos: o do eu-lírico e da exaltação da africanidade. Se em “Khoma Mikrofone” (microfone cumprindo uma escrita bantu) temos Hernani e Slim Nigga mais adultos e em língua local, em “Hini Hiva La” oscila uma mensagem de “eu sou eu” e do “eu sou daqui”. O BCI bem que compraria essa publicidade (risos). A exaltação da africanidade começa um pouco com a faixa interior e perpetua-se com “Samora Machel”. Sim, Machel não é apenas um herói de Moçambique, como também cumpre aquilo que é a luta pela independência de África. Agora, que é uma música já sem sola disso é sabido. A Kaya Local Choir fez um autêntico milagre na quarta faixa deste bloco, chamando-nos à meditação ou uma outra terapia. Não só, os sons de Baba-X e a performance de S.Gee e DingZwayu tornam esta faixa, talvez, a mais bem arranjada do álbum. Só está na geografia errada. Por mim, encerrava o primeiro bloco.

Seguem mais duas músicas. Caso não fossem chamadas, penso que ninguém daria por elas. “Tshama Hibula” é um tema que repete o que algumas músicas do primeiro bloco já trazem. Percebo que a outra é a homenagem merecida a mulher, mas me parece forçoso. A arte pelo qual a dupla nos acostumou andou bem distante neste “Wansati”. E essa falta de sabor escasseou também na passagem de Isabel Novella. Devia ter terminado sua migração pelo álbum na faixa inaugural.

O terceiro bloco, com um forte teor crítico, não traz as últimas palavras dos manos, como é típico dos desenlances. Muito pelo contrário, esta parte da narrativa explora o lado mais social do RAP: a discriminação, a criminalidade, corrupção, a violência doméstica, a ganância, a desigualdade social. Não só, este é o espaço que os manos encontraram para enquadrar aqueles cujas bagagens se confundem com o hip-hop moçambicano: Simba, Azagaia e Face Oculta (Uff!), e dar algumas férias a Baba-X. FreeYaMind, M´Petula, OrigiMoz e Billy Ray refrescaram a casa. Aqui, se calhar, foi para mostrar ao público que a aposta em Baba-X é mera opção e não obrigação.
Nesta parte apenas me apraz desenvolver a participação de Face Oculta e OrigiMoz. Os dois conseguiram fazer o comboio virar mas não descarrilar. Diminuíram-nos o tédio! Face Oculta traz-nos um estilo que nos desanima, mas ao mesmo tempo desperta-nos. Pois sabíamos que faltava algo mas não sabíamos o que era. Como se comêssemos comida sem sal. A poesia de Hélder Leonel (o identificando mais ainda) faz-nos crer na sua posição no hip-hop como cultor da palavra, mais do que a sua antiguidade no movimento. E, claro, a sonoridade criada por OrigiMoz fez-nos navegar em outros bons e saudáveis mares.

IV

Ah, mesmo para terminar, não seria sensato se não concordasse que se trata da melhor dupla de todos os tempos. S.Gee tem um charme, um gingado e uma dicção leve – um fofinho. Já DingZwayu é mais sólido, macho e bate na ferida – um molwene. Uma música precisa disso: um sopro e um tapa. Se este “A Kaya” fosse encarado como uma batalha diríamos que terminou empatado.
Não chega a ser o melhor álbum, acho que nem era a pretensão deles. Entretanto, tem um raciocínio e alguma lógica respeitável, ainda que oscile pelo meio. Custaria o preço que precisasse, ao em vês de um punhado de músicas que não passam os dedos de uma mão que uivam por ai a balúrdios.

O culto às nossas origens, a consciencialização, o poder lírico… é formidável. Se a temática fosse vasta, se as músicas antigas fossem discriminadas, se os produtores variassem daria nota 10. Ah, sim… daria.

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