K9 – “As igrejas vieram em missões de acabar com a espiritualidade africana”

K9 – “As igrejas vieram em missões de acabar com a espiritualidade africana”

Quem já teve a oportunidade de escutar as músicas do K9, sabe que o rapper é polivalente devido as suas mensagens de intervenção social e também românticas, inspiradas no quotidiano moçambicano e na sua vida. 

Ultimamente, o “Black Mula” tem metido “Facas” com suas publicações recentes nas redes sociai, onde impõe fala do pan-africanismo, da unidade africana, solidariedade entre africanos e afrodescendentes em todo o mundo e a emancipação das populações negras e também a solidariedade entre os países da África. 

O Moz Entretenimento conversou recentemente com Heber Daniel de Moura Bomba mais conhecido pelo seu nome artístico K9, que ressaltou a importância da restauração dos valores africanos.

Acompanhe a seguir a conversa e depois deixe o seu comentário.

ME: O que aconteceu para poder seguir o pan-africanismo, tomando em conta as suas últimas publicações?

K9: Já faz um tempo que tenho esse espírito investigador e pesquisador das verdades. Tudo começa com dúvidas, questões e reflexões da sua originalidade ou identidade do habitat da melanina que temos. Desde a primeira arte que foi o negro que desenvolveu ou criou.

Desde a ciência de inventores negros  omitidos pelo academicismo globalizado. Desde o desporto de campeões negros.  Desde a verdadeira espiritualidade africana diabolizada como “magia negra”. Desde o chinês, o branco, indiano, árabe que todos têm medo de os ” fazer mal”, mas a nós pelo contrário, AMAM FAZER MAL. Tive uma comunicação profunda com grandes panafricanistas de várias áreas e mostraram-me a luz das verdades.

É um processo longo, ainda sou caloiro mas o mais importante é fazer a minha parte e despertar mentes. Existe uma urgência “para Ontem” de haver união de Afrika e Afrika na diáspora. Estamos a perder a dignidade, daí a falta de respeito não só os de fora como entre nós.

ME: Nas suas publicações  referências muito o conceito “Ser Afrikano”, acha que muitos africanos não estão a ser africanos?

K9: Nem preciso confirmar isso. Está na cara. Um chinês mesmo nascendo na América é chinês. Um indiano idem, árabe idem…mas nós? Damos ênfase ao local que “POR ACASO” nascemos. Eu consigo ver um negro brasileiro mais afrikano que um negro que teve a bênção de nascer directamente em Afrika. E o afrikano nativo? Age conforme a herança ocidental, sendo a única raça que NUNCA QUER SABER DE SUAS ORIGENS.

O verdadeiro afrikano é herdeiro de raízes da sua primeira origem. Ser afrikano nos dias de hoje, é visto como pesadelo, é inferno, é luto, é inferior, é perda de tempo, é tudo aquilo que não queremos ser.

E isso varia de colónia para colónia. De etnia para etnia. A colónia portuguesa ainda permanece aqui e em nós. Há muitos tugas (humanistas) que querem-nos ver “ORIGINAIS” e isso nós próprios NEM QUEREMOS SER.

Como é possível não conhecermos nossos génios, nossos artistas, nossos heróis, nossos reis, nossas “bandas desenhadas”, nossos espiritualistas? Ser afrikano não é exactamente ser de Afrika. Ser afrikano é SER AFRIKA.

ME: Qual é a sua opinião sobre a bíblia?

K9: A bíblia é um conjunto de livros de histórias da sua maioria mitológicas africanas, que o ocidente tornou-lhe sagrada mudando os nomes e usando como arma espiritual ou psicológica para a colonização, distorcendo-a e acrescentando para a realidade, histórias sem evidências. Mas a bíblia é um consolo mental, como qualquer grande livro literário e filtrando o bem que a bíblia nos ajuda na educação cívica ou moral (vinda também de espiritualidade africana).

Tendo em conta que a bíblia de hoje não é a mesma de ontem (existe a PRIMEIRA BÍBLIA), pior ainda…pois estamos a seguir um caminho ilusoriamente certo. O fanatismo por ela, pode ser o mesmo que entrar num MATRIX e viver nele até esquecer que está num MATRIX. 

É uma filosofia espiritual inspirada no ATUM (ADÃO) E NA EVOLUTION (EVA) de mitologias egípcias, distorcendo de tal forma que 500 anos foi mais que suficiente para não sabermos como filtrá-la.

A história afrikana desamarrar-nos-á das correntes espirituais e científicas. Não que não se deva ler a bíblia, mas sim saber filtrar e conhecer as verdades da sua existência como sagrada. A bíblia é como um livro afrikano assimilado pelo Ocidente. A católica foi fanática de Kemet (Antigo Egipto) de tal forma que distorceu a seu favor nos nomes, nas personificações e entidades  metafóricas.

Usar “mal” a bíblia (que ja foi uma arma colonial) é como usar uma AKM descarregada e querê-la usar como enxada para a plantação. Estamos a “maquiar” o errado…A tentar embelezá-la. A bíblia não é má, mas não é a solução para Afrika.

As igrejas vieram em missões de acabar com a nossa espiritualidade e perdermos os poderes afrikanos de defesa em várias guerras coloniais. Católicas foram as mais devastadoras mas as mais doutrinadas dos países afrikanos.

Depois tivemos as protestantes que mesmo revolucionando a prática da bíblia para o bem, o tal bem era para eles pois tivemos pastores protestantes (não deixavam de ser colonos e racistas mesmo revolucionando a religião) que fundaram o Apartheid, conservaram os “KKK” e não deixavam NEGROS TEE SUCESSO, os extorquindo em dízimos até com mínimos (há igrejas que proibem dízimo abaixo de 200 mts), daí para maquiar mais e embelezar mais a bíblia, surgiram os ditos espiritualistas afrikanos que se perdem  novamente iludindo ser “profetas de um antepassado branco”. Na verdade os Judeus e romanos foram muito fortes em fazer a bíblia para esquecermos AFRIKA. O negro só vai deixar de odiar o negro se largarem a colonização filosófica ocidental.

ME: Qual é sua opinião sobre africanos que vão às igrejas?

K9: É como a continuação do ponto 3. Pelo facto de não termos conhecimentos científicos e espirituais de Afrika, facilmente seremos iludidos e levados ao fanatismo de palavras de um espiritualista afrikano que para não aterrorizar, usa a bíblia como capa. Já foi dito há mais de dez anos que o mercado digital é do mal e hoje por corona, o poder fraco dessas infraestruturas veio desmascarar e bandeirar as mesmas igrejas que já fazem LIVES.

Para um cristão com mente aberta, A igreja devia em primeiro estar em SI. O templo de Deus é o corpo e a alma e não uma igreja. Nem Jesus teve igreja e estão a surgir tantas igrejas a “competirem”. A solução é o afrikano se unir e individualmente libertar-se-á dessas réplicas religiosas de origem ocidental ou colonial.

Somos almas confusas de identidade que até  achamo que não ir à igreja, iremos ao inferno ou seremos amaldiçoados. A igreja é o local de submissão do medo da VERDADE. É a plantação que o escravo tem medo de se livrar do mestre ocidental.

Existe uma citação factual de caminhos perdidos, por exemplos profundos:

O Pastor precisa de carro, vamos contribuir

O crente precisa de pagar cirurgia, vamos orar.

Se Jesus tinha profissão, então Um pastor sem profissão, é apenas ladrão.

Contudo, conforme o ponto 3, a igreja fez boas acções sociais e psicológicas que ajudou muito às comunidades negras. Mas não que deva ser uma instituição ESPIRITUAL PRINCIPAL DO AFRIKANO.

Há tanta hipocrisia, há momentos que vamos à palhota! O remédio de lua, as vacinas tradicionais, as cerimónias tradicionais (velórios e casamentos), as ervas que salvam os asmáticos, a culinária vegetariana que fortalece a nossa imunidade, os bafos que nos purifica, a meditação que tranquiliza a alma, mas ainda ridicularizamos as igrejas como “hospitais”, “teatros”, ” hipnose” e “magias obscuras”.

O que é preciso saber é que em qualquer sítio espiritual, existe o bem e o mal. E a espiritualidade está infelizmente como terciária na sua própria terra.

ME: Como africano e um dos melhores rappers de Moz, acredita na existência de um Deus?

K9: Sim, acredito em Deus. Mas não no Deus imposto pelo colono. Um Deus de todos e não parcial. Um Deus em nós e não “por aí”. A minha posição panafricanista perante às  crenças ocidentais é vista como ATEU.

As crenças ocidentais não são do berço da humanidade. Isso é confundido como pagão ou ateu, mas não, eu sou de Deus e não de crenças coloniais, simplesmente isso.

ME: O que os Africanos podem fazer para acordar e entender o pan-africanismo?

K9: Os africanos devem:

  • Orgulhar-se (AutoEstima);
  • Resgatar as suas raízes;
  • Unir-se é o verdadeiro poder (CONNECTION IS POWER) e estando conectados além das diferenças;
  • Afrika em Primeiro;
  • Originalizar ou Reformar os sistemas de educação;
  • Primarizar a sua origem;
  • Valorizar AFRIKA;
  • Enriquecer AFRIKA;
  • CIENCIALIZAR AFRIKA;

Aliás são tantos pontos que precisamos mesmo de RENASCER AFRIKANOS “ORIGINAIS”.

Assim foi a nossa conversa com K9, se chegou até aqui, então deixe o seu comentário e diga que achou.

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1 Comment

  1. parabéns pela coragem. esse é tua opinião e há que respeitar, mas a verdade é uma Jesus é o único salvador não é a razão nem a religião e nem a tradição…

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