Ildefonso Colaço: o fotógrafo da cultura moçambicana

Ildefonso Colaço: o fotógrafo da cultura moçambicana

- in Entrevistas, Fotos

Ildefonso Florentino Munhal Colaço, é o nome do jovem fotógrafo moçambicano, que se vê como um fotógrafo entusiasta e visionário que tenta falar através das suas fotos. Penetra no ramo fotográfico em finais de 2014 (Novembro), escolhendo fotografar “paisagens” exemplo claro são algumas fotos do mesmo ligados a cidade de Maputo. A sua ligação com a fotografia divide-se em hobbie e uma paixão para toda vida.

De uns anos para cá, assiste-se uma reinvenção do Colaço no uso da máquina fotográfica. O jovem fotógrafo abandonou o seu conceito fotográfico (fotos de paisagem), para através das mesmas lentes dar vida ao modo de vida (atenta a redundância) dos moçambicanos, melhor dizendo, fotografar a comunidade.

Ildefonso Colaço entra no mundo fotográfico escolhendo fotografar “paisagens”.

Em entrevista, Colaço revela os motivos por detrás da sua reinvenção, experiências, sonhos, numa demostração permanente da sua ligação com a fotografia.

Ildefonso Colaço em Quelimane (Gurué)

Nos últimos anos Ildefonso Colaço tem apresentado um novo conceito de fazer fotos. Uma transição de fotos de paisagem a fotos ligados a “comunidade” ou melhor dizendo, as vivências de um povo. Quando e o que esteve por detrás dessa mudança?

R: Tudo aconteceu num período de insatisfações e pensamentos constantes (que não passavam) acerca do meio em que me encontrava. E a melhor saída foi coloca-los em loop, quer dizer, frames. Precisava canalizar e dar alguma direcção a toda a energia que durante muito tempo passava despercebida.

Não se sentia identificado com o que fotografava?

R: Bem, eu me sentia identificado, mas durante vários processos e etapas senti a necessidade de fazer algo mais pela minha comunidade [e outras], e uma forma de realizar isso foi através da ilustração da faceta sorridente e aprazente destas mesmas comunidades, que muitas vezes é camuflada pelos males. Passei a olhar para a subclasse, mostrando a vivência das comunidades – eu estou olhar para a vitalidade e a desenvoltura delas. Eles são seres humanos todos os dias e é isso que eu tento documentar, não somos diferentes dos que vivem fora dela.

O que significa fotografar a comunidade?

R: Vejo a fotografia como sendo um veículo para conectar. Portanto, fotografar a comunidade [a minha comunidade], faz-me conectar com ela e ao mesmo tempo servir como uma fonte de inspiração para várias pessoas, pessoas essas que na sua maioria a tentar crescer de outra forma que não aquela a que por momentos pareciam destinados. Para quem vê de fora pode parecer uma coisa simples. Mas na sua essência, é uma forma de deixar uma marca. E essa marca importa muito para a comunidade. Agora e no futuro.

Namaacha, Ressano Garcia, Goba, Gurué, Ilha de Moçambique. Quais foram as experiências adquiridas fotografando esses locais?

R: Ter todas essas experiências diferentes e ser exposto a várias culturas é algo bastante emponderador, eu confesso, mas ainda assim, quantos mais locais conheço, menos as minhas fotos são sobre os locais para onde viajo. Acho interessante tentar fazer fotos que contam histórias sobre a vida e locais num contexto maior, em vez de, simplesmente, documentar como é a vida num lugar em particular. A ideia é explorar as histórias em quantos mais sítios for possível e documentar e partilhar as mesmas.

Ainda nisto, um dos bairros já fotografado é Maxaquene D, bairro que reside, e várias vezes quando se faz a rua, há crianças pedindo por uma foto. O que isto acrescenta/acrescentou na sua carreira? 

R: Primeiramente dizer que é muito bom conectar-se com as pessoas, principalmente com as crianças, elas são especiais e divirto-me bastante sempre que as fotografo. Então, isso ajudou-me a perceber ainda mais ainda da fotografia como uma poderosa ferramenta de comunicação, e que a conexão que me referia acima é mútua. Aprendi a falar fotografia.

“Você não fotografa com sua máquina, você fotografa com sua cultura” Está é uma frase que liga ou define o Colaço, sente-se o fotógrafo da cultura moçambicana?

R: Sim, claro. Eu sou um produto da minha cultura, que felizmente é diversificada e me permite ter muito por explorar, adquirir conhecimentos novos e coloca-los em prática visualmente, não poderia estar mais satisfeito em fazer parte da cultura moçambicana… Procuro promover através delas [fotografia] a preservação e divulgação de locais, espécies e tradições da nossa diversa cultura.

Em 2016 um dos seus maiores objectivos era ser reconhecido. Quatro anos depois, sente-se reconhecido?

R: Acredito que sim, muita coisa mudou desde aquele tempo até hoje.

As fotos do Ildefonso não terminam no digital, todas ganham vida através da impressão. O que significa imprimir fotos para si?

R: Significa tornar a fotografia parte do mundo real não que as digitais não sejam, mas não é como se fizessem parte também, honestamente espero que isso faça sentido. Sintetizando, fotografias imprensas são uma das maneiras mais significativas pelas quais pode se apreciar uma fotografia, diferente das digitais que são facilmente scrolladas ou esquecidas [para sempre]. É como se as fotos digitais vivessem numa existência fantasmagórica. Por esse motivo tento sempre que possível ter as minhas fotos imprensas.

Foto by: Ildefonso Colaço

Quando publica as fotos nas redes sociais, poucas vezes ou quase que nunca inclue a legenda, alguma justificação plausível?

R: Sim, claro. A arte não é uma forma de comunicação perfeita, uma mesma fotografia pode gerar diversas interpretações (sendo elas, possivelmente, diferentes da intenção do autor ao construí-la). Justamente porque as palavras são signos abertos aos pontos de vistas mais diferentes e conflituantes. O que quero dizer é que toda construção humana está sujeita a interpretações, sendo que nem sempre (ou nunca) quem recebe compreende a mensagem de quem transmite, pois não temos as mesmas vivências, não pensamos de modo conjunto. A comunicação, no seu sentido pleno, seria utopia… Então, é essa “brecha” que [muitas vezes] pretendo explorar, deixando toda tentativa de interpretação aberta, afinal de contas, a arte é livre.

Já pensou numa exposição? Se sim, o que falta?

R: Eu tenho pensado nisso, mas por enquanto estou apenas tentando aprendendo como todo o processo funciona, e como melhor posso apresentar os meus conceitos. Gostaria que a minha primeira exposição (oficial) fosse especial e pretendo levar o tempo que for necessário para realização da mesma.

Um local que muito almeja estar e fotografar?

R: Neste ponto da minha vida estou disposto a explorar o máximo de lugares possíveis. Um dos locais que gostaria muito de explorar é o Monte Binga “Cabeça do Velho” num futuro próximo.

Qual é a foto e um fotógrafo que te marca?

R: Não tenho ainda nenhuma foto específica e nenhum fotógrafo em particular que me marca. Fico exposto há vários trabalhos de diferentes artistas que acabo não tendo nenhum preferido ou como referência…

O mundo está neste momento inactivo devido a pandemia do Coronavírus, já pensou em sair e fotografar os “vazios” que preenchem a/as comunidades?

R: Já pensei nisso, talvez venha a fazer ou talvez não, nunca se sabe. Lol

Do lado fotográfico, o que podemos esperar no fim da pandemia?

R: De momento não tenho nenhum projecto específico a caminho, porém tenho mil e uma ideias planeadas na cabeça de pessoas e lugares que gostaria muito de fotografar, contudo, isso só depois de a situação melhorar.

Uma frase em jeito de fecho?

Aproveite os desvios da jornada. Aproveite muito. Afinal, só através dela você encontrará as coisas, mais importantes que deseja.”-Ging, Hunter x Hunter

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2 Comments

  1. Idelfonço Colaço sempre surpreendendo.
    Muita força

    1. Gostou da entrevista ? 🙂

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