“Duas Caras ressuscitou, mas não saiu da lama”, por Elcídio Bila

“Duas Caras ressuscitou, mas não saiu da lama”, por Elcídio Bila

- in Opinião
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Por: Elcídio Bila

I

Se assumirmos que Duas Caras tinha morrido como rapper, desta vez, com “Duditos Way”, ele ressuscitou. Mas se o local de enterro fosse um chão lamacento, qual zona imprópria para agricultura, dai ainda não saiu. Precisa de se reerguer ainda mais e procurar zonas mais planas, onde estava na altura do “Tondje Emcee”, por exemplo.

Quem ouve as frescas cinco músicas que no pretérito fim-de-semana partilhou com o seu fiel público, percebe claramente como as metáforas “ressuscitar” e “lama” se materializam. Talvez não todos, já que o Kara Boss tem muitos seguidores e a maioria está quase que cega quanto ao seu potencial nos dias que correm, e lhes interessam a sua voz e o seu rosto para o ovacionarem e o legitimarem como rei, tal como ele mesmo concorda que o-é na sua primeira música deste trabalho discográfico que, por minha preferência, roubou-me o sono de quatro noites consecutivas.

Não sei se os quatro dias foram suficientes para mastigar com todos os cuidados este “Duditos Way”, mas serviu para sentir os sabores doces, salgados, azedos e picantes que esta refeição contém. Se mais me alongasse com este prato das duas uma: ou me criava problemas estomagais irreversíveis ou me distorcia o paladar e, tal como alguns, o ovacionava como o melhor rapper de Moçambique.

Isso já não o-é. Não vou exactamente compará-lo. Ah, ele não merece essa desgraça. Mas, estacionando Azagaia e Simba; Kloro, Rage, 16 Cenas, Max e mais alguns parecem estar mais despertados que o mano Duas. Concordo que por estar “desde 1997 a castigar os filhos de dono” muito fez e, por isso, merece a minha vénia. Concordo também que é bem satisfatório que a estas alturas a inspiração falhe e o conteúdo também escasseie.

Mas por ter tido a petulância de mais uma vez vestir a carapuça de rapper-activo essas desculpas que fiquem no baú e analisemos o que nos traz. Podemos não ignorar por completo as proezas e as mazelas do passado, entretanto, neste exacto momento, o que interessa de facto é o novo caminho que este EP desbrava na sua carreira.

Antes de penetrar na arte escondida nestas cinco faixas, tenho a congratular e, por outro lado, reprovar esta iniciativa. Explico-me: congratulo o facto de Duas Caras, com 20 anos de carreira, não ter enferrujado até agora, contrariamente a uma lista infindável dos seus companheiros de viagem. Mais do que isso, presentear os seus seguidores com músicas de qualidade (ainda não estou no conteúdo) e uma estratégia de marketing desenhada com atenção, como bem necessita uma indústria musical, é de salutar. O outro lado da moeda vem ao de cima pelo facto de Duas Caras estar a viver mais do ontem do que de outra coisa. Se não fosse, desta vez viria com um álbum. Mais cinco músicas dá-lo-iam mais prestígio e consubstanciava o respeito que os moçambicanos têm por ele. Ademais, bem seria elegível para prémios e cabeça de cartaz em festivais fora de portas. E, mesmo a terminar esta lista de reprovações, não permitiria que vendesse camisetas a preço mais alto que do próprio CD. Cá por mim, estas músicas seriam partilhadas a borla pela internet. Mas enfim, percebo também que mais do que música o mano está a vender os vinte anos de carreira.

II

Para não me alongar ainda mais e para não correr o risco de escorregar, prefiro dar nota positiva a instrumentalização deste trabalho. Aliás, sobre os produtores de instrumentais a minha opinião já é sabida. Moçambique está muito bem posicionado quanto a este quesito. Os manos tocam muito bem, tal como o fizeram Billy Ray, Ilusionista, Trigga e Chef4souls. O problema da nossa música não está exactamente na musicalidade. Está, mais é, no lirismo.

Quanto ao lirismo – o bicho-de-sete-cabeças para muitos senhores – Duas Caras ressuscitou. Sim. Nota-se algum esforço na seleccão temática, como se fizesse o seu onze inicial, embora neste caso só se trate de futebol de salão. Diferentemente do que ia lançando de forma dispersa, este trabalho merece alguma atenção. E, outro aspecto a salutar, é o facto de a sua bagagem não ter ficado de fora. As cinco músicas revelam o rapper adulto que é, mesmo sem fugir da sua marca – um carácter desregrado e fora das etiquetas previamente concebidas. Ainda assim, desta vez trouxe alguma mensagem.

O primeiro e o mais cabível a dizer para iniciar este meu pobre périplo pelas músicas, é que Duas Caras assenta nas instrumentais feito um carro de tracção nas quatro rodas e a sua voz dá certezas de que o que ele diz é verosímil. Penso que estas são as primeiras habilidades que um rapper devia ter. Do contrário não há razões para ser escutado. Aliás, quando assim, o ouvido rejeita de longe.

III

Vale do Rei”, a música que encabeça este projecto, está na posição certa. Não é nada que a gente desconheça: a forma de arrumar as palavras, as rimas e a disposição dos versos. Mas há que destacar a fidelidade que o rapper tem com o tema. Aqui Duas legitima a sua posição de Rei no universo hip-hop moçambicano, mas não o faz como antes. Ele traz-nos um cenário florestal e os diferentes personagens desse meio. Eu diria, mesmo num tom de elogio, que se trata de uma fábula musical. É uma composição metaforizada do início ao fim, em que um dos objectos de comparação é o leão. Ou seja, sendo ele um leão os outros tantos animais são seus subordinados. Esses, claramente, são os outros rappers. Mas claro, porque o alinhamento de cada 16 versos não pode ser de forma estástica, ele vai passeando por outros hemisférios. Ainda assim, transporta como recursos estilísticos tradições arcaicas, formas antigas de governação como o feudalismo para a sociedade actual. Sobre o coro uma coisa apenas me apraz dizer, com toda a consideração: é uma das poucas vezes que o G2 não me fez afinar o som.

A música a seguir, talvez, deveria ser a última deste projecto. Digo isso mesmo por solidariedade ao artista (e ao produtor). Se cá não fosse chamada não faria falta. Mas porque nem tudo que está mofado está estragado, este tema surpreende pelo facto do artista recorrer a personagens bíblicas e aos seus artefactos, como a Arca de Noé. Esta parábola que Duas Caras nos faz viver é singular: um profeta num Vitz amarelo? É de facto uma magia lírica incomum. Não me cabe explicar a essência de cada verso. Cada um chega a tais ilações. É preciso, para tal, escutar mais do que uma vez. Pois Duas Caras castiga-nos com essa forma transcendental de rimar, como se ouvíssemos uma variante do português que desconhecemos. Quanto ao “Vitz Amarelo” talvez deixar mais uma nota: ficaria sem precisar se não tivesse coro. Ainda que se note o propósito de apenas brincar, foi um fiasco!

Dá a impressão de já ter ouvido o “Ossos no Baú”. É uma música bem familiar. E não é que Duas Caras isso já nos disse? Sim. Já falou do seu início no RAP, dos seus dramas e seus prazeres, ou seja, a sua biografia. Quando o fez, em “Tondje Emcee” e em alguns freestyles foi mais bem conseguido do que agora. Não deixa, por isso, de ser para mim a melhor música deste single. Mais pela profundidade do que outra coisa. Só não sei se o mano Duas faz de propósito essa (des)arrumação dos versos, que chega a ser impreciso. Ou se está nas tintas?! O que importa é a forma como ele sente e, se for do nosso interesse percebe-lo, nós é que devemos digeri-lo sem urgência. Esta (e outras) é uma música para escutar com o “repeat” activo. A ausência do coro foi uma opção acertada. Mas como nem tudo que bem começa assim termina, desnecessariamente repetiu os nomes dos que música é dedicada – o mesmo exercício introdutório. Já não precisava de mais nada, senão uma lenta afinação ou apenas a performance do beat. Afinal, por que não se doa tempo para os instrumentistas exiberem o seu charme?

A faixa 4, tal como outras, tem 4 minutos. Aqui não foi nada forçado. Não era suposto acrescentar outro verbo sobre isso, mas não resisto em dizer que Trigga deixou nas costas os outros instrumentistas com a forma peculiar de esculpir seu beat. O Kasszula não deixou de dar uma aula aos que se aventuram por esses mares: é assim como se faz um coro! E o protagonista? Ele também merece aplausos por dispensar temas ao estilo freestyle e concentrar-se em algo mais austero. Se um tema desses faltasse estaria proibido de se orgulhar do “País da Marrabenta”. Ora, como o faz é conversa para outro fórum. Afinal, o mano tem um estilo que nos proíbe de olhar o dente ao cavalo dado. “Não há mola”, ainda que não pareça, é uma crítica aos jovens que perdem rios de dinheiro nos bares mas se dizem mergulhados na crise, entre outros assuntos à margem das dívidas (as ocultas e conhecidas).

A última música bem me lembra “Geração Tv”. Chama-se “Põe Um Like”, mas se fosse “Geração Like” ou “Geração Smartphone” nada se estragaria. Tal como criticou aos miúdos presos à televisão, desta vez a crítica é para aqueles que usam de forma desvairada e excessiva as redes sociais e as agruras dos telemóveis no geral. Acrescento mais três pontos sobre esta música: a faixa mostra o quão Duas Caras está atento e preocupado aos vírus da modernidade; a última estrofe não devia existir ou, no mínimo, trocava a instrumental, pois está desfasado; o cuidado na recolha dos versos andou distante, enfim, parece ter havido pressa em terminar a EP.

IV

São, contudo, cinco músicas divididas em três dimensões: as primeiras duas correspondem ao estilo livre (eu sou, tu não és); a do meio é biográfica (minha vida, meus caminhos) e as duas últimas remetem-nos a crítica social (o que vejo, o que não está bem). Num tom de avaliação, diria: nada mau. Mas noutro tom, já de observação: esperava um pouco mais de limpeza. Num outro vocabulário: estas músicas ainda não o devolvem a honra, mas não provocam mal-estar.

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1 Comment

  1. Eu acho que enventaram essa Mentira só para acabarem com o sucesso de duas, acredito eu que o duas carras está vivo

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