Cambezo – Utumbe: Uma escuta de esperança

Cambezo – Utumbe: Uma escuta de esperança

- in Música, Opinião
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Por: Euroflin Guirengane

Uma das melhores músicas afro lançada nos últimos anos. Explorando uma temática bastante sugestiva, ‘Utumbe’, que em português significa mimos, aborda sobre a protecção, sabedoria e carinho materno. A falta que os mesmo fazem quando já não se tem a mãe por perto. Contando com uma ficha técnica de invejar, não se podia esperar por algo diferente. Especialmente quando estamos a falar de uma música sob direcção produtiva daquele que apelido de pai grande na área de produção musical ‘Tony Camacho’.

Tomando como referência os antigos trabalhos do artista, sobretudo o ‘Ndinaenda Kupi’, trabalho este que lhe conferiu o prémio ‘Ngoma’, na categoria ‘Artista Revelação’, já guardava uma grande expectativa para o seu próximo trabalho.

Eis que na primeira semana de Maio fiquei a saber que o lançamento da próxima música estava previsto para aquele mês. Quando foi divulgada a tal ficha técnica, eu fiquei boquiaberto… Afinal não é comum em Moçambique que se reúnam grandes nomes do panorama musico-cultural nacional para estar por detrás de um único trabalho.

Baixei a música logo que foi disponibilizada, contudo, pelo respeito e por achar que a mesma não devia ser ouvida num ambiente de lufa-lufa, adiei a estreia para o fim-de-semana. No tal sábado, 20 de Maio de 2017, eu estreie a música. Meu Deus! Naquele momento eu tive a certeza de que é possível fazer música ao nível dos Youssou N’dour, Salif Keita, Oliver Ntukuzi, companhia limitada, aqui em Moçambique.

Que música! No início, um som que se assemelha ao de uma timbila, oferecendo um ritmo bastante melódico. Logo o Zé dá os “drums” e posteriormente o Gonzaga liberta o baixo, conquistando a atenção e alma de qualquer amante de boa música africana. Nesse momento, a música te faz viajar ao “Hit” mais bem-sucedido do conceituado músico moçambicano Aly FaqueKinachicuro’. Para “fechar” a fase inicial, aquele que particularmente considero o melhor coro da música contemporânea nacional. Com vozes super afinadas e técnicas de canto de nível internacional, a Lurdes e a Lídia provaram o porquê de serem convidadas a fazer parte daquele elenco de luxo.

Depois é a vez de o Cambezo ser o senhor da situação. Com a sua poderosa voz mista, tratou de “agarrar” a música e fluir nela de primeira. Entendo que seja esse o momento onde começa a se fazer sentir a grande contribuição dos dois senhores da música moçambicana, Isaú Meneses e António Estima. Os seus trabalhos de contextualização e tradução sem dúvidas foram imprescindíveis para aquilo que foi o resultado final. Perfeito. A combinação dos acordes da guitarra do Tongo Tongo foi muito bem-conseguida, casando de forma harmoniosa com a música.

Geralmente, as músicas têm na ponte o seu pico, a fase mais emotiva. E o coro em seguida, tendendo a levar-nos ao delírio. A prior esta música não foge a regra. Entretanto, aqueles “sopros” no saxofone no final da música levaram-me à loucura, fiquei totalmente arrepiado, usando a hipérbole, levaram-me ao êxtase.

No momento ainda tentei escrever um artigo de opinião, mas sem sucesso. A pergunta que eu me fazia era – Como é possível alguém se superar depois de ter chegado onde eu achava que era o limite? Eu não sabia se um simples ‘Obrigado Cambezo’ seria suficiente para expressar o meu sentimento, ou se eu devia caprichar mais nas palavras. Na verdade, naquele momento, eu só queria que houvesse um dispositivo capaz de sentir e postar minhas emoções, arrepios in loco, sem ter que me expressar pelas palavras.

Depois de várias tentativas ao longo dos últimos dias, “posts” no Facebook levados ao “Draft”, alguns ao “Recycle Bin” e outros que continuam nos rascunhos das Mensagens do meu telemóvel, finalmente estou compartilhando a minha opinião com o mundo. Feliz, pois numa altura em que o mercado tende apenas a apresentar o “mainstream”, Cambezo mais uma vez arriscou, reunindo uma equipa de qualidade e apresentando um trabalho tradicional, original, responsável, e que escutado, renova a esperança de um Moçambique musicalmente mais forte.

O que me faz mais uma vez dizer:
Cambezo, obrigado por deixares libertar o artista dentro de ti. Se ser moçambicano é isso, então vale a pena”.

 

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