Azagaia faz 10 anos com “As Mentiras da Verdade”

Azagaia faz 10 anos com “As Mentiras da Verdade”

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Por: E. Bila

Na verdade é o seu primeiro álbum, “Babalaze”, que este ano completa uma década de história (e que história!). Este trabalho discográfico sem igual quando o assunto é música de intervenção política e social marcou uma nova fase do hip-hop moçambicano e trouxe, ao de cima, a verdadeira face do culto à liberdade de expressão.

Não é a toa que logo depois que Azagaia lançou seu álbum – que teve um impacto “aniquilador” – a sua rotina mudou bruscamente. É que Edson passou a ser a luz do hip-hop nacional. Sim, Edson da Luz (nome verdadeiro de Azagaia) dividiu opiniões e sentimentos. Enquanto o povo o ovacionava por vestir o fardamento dos operários e por sentir a dor dos injustiçados, os dirigentes políticos, por outro lado, desdenhavam suas músicas por criticar de forma directa os males que acometiam a sociedade.

Trata-se de um álbum de 15 faixas, lançado em 2007 pela Cotonete Records, gravadora que reunia os jovens mais proeminentes do estilo hip-hop em Moçambique. Com o nascimento deste CD despertou-se o poder da música e do RAP (Ritmo, Arte e Poesia) de forma particular. Por isso, até aqueles que não se rendiam ao estilo, não resistiam aos versos que para além de um poder de intervenção, carregam uma base poética que se assemelha à frontalidade do poeta-mor: José Craveirinha.
As mentiras da verdade”, faixa número sete, é o cartão-de-visita deste álbum. A música e o respectivo video-clip tiveram um impacto de grande dimensão.

E não é para menos, neste trabalho Azagaia recupera casos mal-parados como a morte de Samora Machel, do economista Siba-Siba Macuácua e do jornalista Carlos Cardoso; desperta assuntos polémicos como a evasão do réu mais conhecido como Anibalzinho; aponta o dedo aos grandes casos de corrupção; entre outros males como a discriminação contra os negros, o nepotismo, o abuso de poder, enfim, as mentiras da verdade.

Azagaia faz isso de uma forma esteticamente aceite, tal e qual a poesia preconiza. É, com certeza, uma afronta despida de quaisquer medos e desmedida o que o jovem ousara com aquela música. Como prova dessa qualidade, até hoje se escuta e aplaude-se com todas as forças. Afinal,
Azagaia está umbilicalmente ligado a este “hino”, ainda que posteriormente tenha lançado muitas outras músicas e, em 2014, o segundo álbum: “Kubaliwa”.
Mas do primeiro CD não se destaca apenas a música que virou “febre” para camada juvenil. “A marcha” foi outro sucesso, bem aceite pelos seus seguidores e não só.

O álbum não podia ter terminado de maneira diferente, a faixa número 15 é um claro convite ao protesto. “Tu que és mal pago, mas te esfolas no trabalho/Tu que não és pago recebes esmolas no trabalho/Tu que és humilhado por não teres ido a escola/ninguém percebe que tiveste que ir cedo no trabalho…” E a narração, com uma voz firme e cheia de certezas, chama os demais injustiçados por acções governamentais e não só a gritar alto contra os desmandos.

É uma autêntica revolução o que o álbum proporcionou e, de certa forma, o acto funcionou. Não é a toa que o jovem foi perseguido, boicotado e sabotado de diversas formas.
Ainda neste álbum, como se as duas músicas não fossem suficientes, “As mentiras”, As verdades”, “Ciclo de censura” e “Eu não paro” entram nesta linha revolucionária. É, de facto, um trabalho cívico que o artista propõe, feito com inteligência e maturidade.

Ainda que esta temática tenha reinado, Azagaia explora outros assuntos, casos de parceiros múltiplos, na música “Labirintos”; a educação sexual com “Lats go talk about sex”; os dramas do amor com “Ni ta ku fonela” e, como não podia faltar, mostra a riqueza do seu “eu lírico” com “Alternativos”, “Até ao fim Contone Militares” e “Super Azagaia”. Nesse universo musical, não se pode ignorar a faixa “Mahlazine”. Mesmo servindo de introdução, Azagaia que se socorre a um canto coral muito conhecido, declama em homenagem às vítimas da explosão do paiol no bairro de Mahlazine, arredores da cidade de Maputo.

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