A mensagem de esperança face a Covid-19 em Pontas de Lança

A mensagem de esperança face a Covid-19 em Pontas de Lança

- in Música, Opinião

Em 2014, dois jovens rappers e respeitados a nível de Moçambique e na lusofonia em si, juntaram-se para um projecto musical intitulado “Pontas de Lança”, que culminou em 2016, concretamente no dia 23 de Julho, com o lançamento do álbum com a mesma designação. Trata-se de Hernâni da Silva e Sleam Nigger.

Uma junção que resulta da partilha do mesmo palco, mesmos gostos e serem ambos, fãs do desporto rei, e que serviu em simultâneo para “unir” os fãs do Hernâni da Silva e do Sleam Nigger, parando assim de se olhar um como Cristiano Ronaldo e o outro como Messi.

É de certeza um dos melhores álbuns do Rap Moz até então e não precisa ser fã do estilo hip-hop para render (gostar) do mesmo. É um daqueles trabalhos bem conseguidos, uma vez que não só contém marcas do rap nacional como também da exaltação da cultura moçambicana e o DNA da sua juventude.

Em tempo de respeito as restrições impostas para conter a pandemia da Covid-19, que resume-se em ficar em casa, um álbum destes pode aparecer não somente como mais um álbum a escutar e relembrar como a vida era e o quão está sendo, talvez, mudado pela Covid-19, mas, um álbum que acompanha os tempos e com uma mensagem que se enquadra a cada época igual um pontas de lança na luta por mais uma bola de ouro.

VAMOS EM FAIXAS

A título de exemplo, passando-se o Intro, que se encaixa como uma apresentação dos avançados e a faixa dois Pontas de Lança, onde os rappers mostram os seus skills e o que acontece quando entram num jogo, chega-se a faixa número três Moz Maningue Nice, onde somos convidados a conhecer o Moçambique, e da voz do Sleam Nigger é feita a descrição do “País do Marrabenta e Pandza”, as dificuldades enfrentadas pelo povo moçambicano. E hoje a pandemia da Covid-19 é uma das dificuldades ou obstáculos, ao qual Hernâni da Silva aparece e diz o quão em meio a vários obstáculos ainda há “coisas boas neste canto do mundo” e há que ter orgulho para vencer as barreiras pois “Moz é Maningue Nice”.

Pontas de Lança aparece como um acervo da moçambicanidade desde a adjectivação do Swag (forma de se vestir, tradução livre), o correr atrás dos sonhos aos Grooves ou Vida Nocturna, que somos hoje convidados a arquivar para que se lute contra a Covid-19.

Para evidenciar essa necessidade, os avançados convidaram a Dama do Bling e Mark Exodus a mostrarem que venceremos e voltaremos a exaltar nossa identidade, mas primeiro há que ser paciente e ficar no Banco de Espera, pois “esse dia vai chegar e não será em vão” ter ficado em confinamento, e porque cada dia que passa questionamos qual será a duração da pandemia, chega-se a faixa Depende de Nós (com: Hot Blaze) e Reis (Com: Duas Caras e Suky), é que nessa luta “não só dedos estão nas nossas mãos, o futuro também”, é importante mostrarmos que somos os “Reis”, e a pandemia não nos levará o trono dos donos da humanidade, já passamos por várias etapas e colocamos doenças na linha, o vírus que aqui aparece como pedras que se auto atiram na nossa caminhada, em breve com elas faremos balizinhas para marcar golos e celebrar a conquista, por agora, fiquemos em casa e no trono (sofá).

Fomos tirados uma certa liberdade, mas com certeza que não se assassinou os sonhos, aqui continuamos a sonhar. Olhando-se para o que tem sido quando saímos a rua nessa quarentena, que envolve partilhar o mesmo transporte com várias pessoas sem saber se há alguém contaminado, acaba a ocasião servindo de um motor para mostrar a importância de se ter, quando possível, um Ruca “nem que fosse um Vitz, tendo em conta que o gajo vive longe e todos ways estão city” e é claro que não é tudo, mas quarentena mostra que é muito.

E entre quem está em casa com a família, há aquele que não foi a tempo de chegar a Moçambique, como é o caso dos mineiros ou das Mukheristas com “residência” na África do Sul, nestas situações não há outra solução se não recorrer a internet para partilhar o amor, saudades e demonstrar a ela, falando aqui da Mãe, o lugar de destaque que a mesma ocupa nos nossos corações, com esperança que aquele lugar ninguém mais ocupa e que em breve estarão juntos e enquanto isso não acontece há que continuar a dar valor.

E ainda sobre a Vida Nocturna e as Vaquinhas que muito se destacam no álbum, em evidência do estilo de vida do jovem moçambicano, nesses tempos nem é melhor arriscar e tentar ser igual ao Hot Blaze, que quando chega fim-de-semana só pensa em txillar confiando boleia ou transporte público para a volta, actualmente ninguém quer partilhar o carro e também, ainda que sem txillings na Matola ou Maputo, os policiais continuam “chatos” e não poupando na Maquinag e os “Mahindras” ainda estão em dia. Se antes ali (Maquinag) controlava-se os automobilistas que pudesse se fazer a via alterados ou sobre efeito de álcool, hoje controla-se os transportes públicos no que concerne o cumprimento da lotação imposta na vigência do estado de emergência, o que pode significar que a tua viagem termina ali ou depois do Groove clandestino seja difícil sair da paragem. Há que levar a sério a mensagem do Hernâni da Silva “a drena não acaba. É só termos cuidados com esses txillings longe de casa, estrada é perigosa e não estão a poupar na Maquinag”.

O SABOR DO ÁLBUM

O álbum fica mais dope, quando sentimos a presença de maturidade e crescimento por parte do Hernâni da Silva Mudanisse e Sleam Nigger no que diz respeito a criação e composição lírica, onde através do que os caracteriza no rap nacional-puchlines, conseguem trazer a moçambicanidade levantando a bandeira moçambicana e que se diga de passagem, na voz do antigo chefe do estado, Armando Emílio Gebuza, exaltam a pátria do Rovuma ao Maputo.

Pontas de Lança é uma viagem ao mundo do estilo hip-hop e perceber que o mesmo não se resume em “insultos” ou auto-congratulação como é característico actualmente. Hernâni da Silva e Sleam Nigger abriram uma nova porta na forma de fazer o hip-hop em Moçambique a nível da nova escola, onde contam através do mesmo estilo as incidências que marcam o país do Samora, dando voz a vários anônimos que se interligam com os factos que são apresentados num total de 16 faixas que compõem o álbum.

Caso ainda não esteja convencido, encontre o mesmo no iTunesDeezer e outras fontes online.

 

Facebook Comments

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *